O Equador atravessou uma grande convulsão social e política nas últimas duas semanas. O fim dos subsídios aos combustíveis, parte de um pacote de medidas austeras sugeridas pelo FMI, gerou revolta nas ruas e protestos em diferentes cidades. O governo decretou estado de exceção, transferindo a capital para Guayaquil, e existia até mesmo o temor de um golpe de estado. Em consequência, o país parou – e, dentro dele, também o futebol. Jogos da Copa Equador foram adiados e as possibilidades de interferência no Campeonato Equatoriano eram enormes. Ainda assim, a Conmebol preferiu se manter alheia à realidade e realizou o pontapé inicial da Copa Libertadores Feminina. A primeira rodada acabou interrompida pela crise, mas o acordo de paz assinado neste início de semana permitiu que o torneio fosse retomado.

A Conmebol lavou as mãos diante do que acontecia no Equador e iniciou a Libertadores Feminina em meio ao furor no país, após conversas com autoridades responsáveis pela segurança. Os primeiros jogos aconteceram no dia 11, com mais de uma centena de policiais deslocados e arquibancadas vazias. Quatro partidas rolaram na primeira data, com direito à goleada de 10 a 1 da Ferroviária sobre o Mundo Futuro, da Bolívia. Porém, por óbvias questões de segurança, a Conmebol achou mais prudente suspender a competição temporariamente no último sábado.

Segundo nota oficial da Ferroviária, a Conmebol garantiu segurança e serviços básicos às delegações. Além disso, a FIFPro (entidade internacional que representa os jogadores profissionais) solicitou à Conmebol o cancelamento da Libertadores, após receber reclamações das atletas sobre a situação periclitante – com mudança de hotéis e também a suspensão de treinos. Ainda assim, a entidade manteve a competição sob aguardo, até que se chegasse a uma solução no país.

O anúncio do acordo entre o governo e os líderes indígenas das manifestações se deu na noite deste domingo. Após conversas intermediadas pela ONU e pela Igreja Católica, o presidente Lenín Moreno cancelou o seu pacote de austeridade e os manifestantes garantiram o fim dos protestos. Houve até mesmo uma comemoração nas ruas de Quito, apesar do toque de recolher imposto pelo estado. Sete pessoas morreram ao longo das últimas semanas, centenas foram presas e o prejuízo do país se tornou ainda maior. E a Conmebol preferiu nem esperar muito tempo para retomar a Libertadores Feminina.

A rodada desta segunda-feira contou com as quatro partidas complementares da primeira rodada. O Corinthians fez sua estreia contra o Club Ñañas, o representante local, e conquistou a vitória por 3 a 1 no esvaziado Estádio Olímpico Atahualpa. As alvinegras anotaram os seus três gols na meia hora inicial da partida, com Millene, Grazi e Juliete. Já no segundo tempo, puderam diminuir o ritmo e administrar o resultado.

Na outra partida do Grupo C, o América de Cali venceu o Libertad Limpeño por 1 a 0, graças a um golaço de Catalina Usme cobrando falta. Também nesta segunda, pelo Grupo D, o Independiente Medellín goleou as peruanas do Municipalidad de Majes por 6 a 0, enquanto as argentinas do UAI Urquiza empataram por 2 a 2 com o Santiago Morning. A segunda rodada começa nesta terça-feira, incluindo o embate entre Ferroviária e Estudiantes de Caracas.

Em termos de público e de organização, mesmo com o fim dos protestos, esta Libertadores Feminina parece fadada ao fracasso. Ainda é preciso manter a cautela para ver os próximos passos da crise no Equador – com os cacos sendo varridos, o aumento do racismo a grupos indígenas e o governo se restabelecendo. Mas, apesar da ingerência e da irresponsabilidade da Conmebol, ao menos as jogadoras poderão seguir com o seu trabalho. Neste sentido, o prejuízo da competição é até pequeno, considerando o que poderia acontecer.