Com mil jogos e tricampeão europeu, Clemence foi um dos melhores goleiros que o Liverpool e a Inglaterra já viram

O Scunthorpe United é um clube pequeno de uma cidade pequena do norte da Inglaterra. Fica ao leste, entre Sheffield e Leeds. Nunca disputou a primeira divisão, nunca ganhou um título. Mas, na história do futebol inglês, há espaço para todos terem um capítulo. The Iron, seu apelido, foi responsável por revelar Kevin Keegan, que se destacaria pelo Liverpool na década de setenta – e depois Hamburgo, Southampton e Newcastle. Keegan, porém, não foi a única estrela formada em suas categorias de base. Talvez não tenha sido nem a mais importante para a história dos Reds porque a outra foi Ray Clemence, que morreu, neste domingo, aos 72 anos, após uma longa luta contra o câncer de próstata.

O Liverpool teve sérios problemas com goleiros antes de contratar Alisson, e o curioso é que essa historicamente foi uma das suas posições mais estáveis. Durante quase 40 anos, as bolas passaram pelas mãos de apenas três homens: Tommy Lawrence, o guardião das metas de Bill Shankly, da segunda divisão à reconquista da Inglaterra e a primeira FA Cup; Bruce Grobbelaar, o espirituoso goleiro do quarto título da Copa dos Campeões com Joe Fagan e do dominante time de Kenny Dalglish; entre eles, Clemence, tricampeão europeu com Bob Paisley e o quarto jogador que mais vezes vestiu a camisa do Liverpool, empatado com Emlyn Hughes – atrás de Steven Gerrard, Jamie Carragher e Ian Callaghan.

E está entre os mais condecorados também. Além de três taças da Copa dos Campeões, Clemence ajudou a levantar duas Copas da Uefa, cinco títulos da liga inglesa, uma Supercopa da Uefa, uma Copa da Liga e uma Copa da Inglaterra, ao longo de 665 partidas pelo clube, majoritariamente entre 1969, quando foi elevado ao time titular, e 1981, data de sua saída para o Tottenham. Era irritantemente regular: em 11 temporadas completas pelo Liverpool, não atuou em apenas seis jogos do Campeonato Inglês. Nada mal para um jogador contratado por apenas £ 18 mil – o recorde de transferência do país estava prestes a ser quebrado, com a ida de Allan Clarke do Fulham ao Leicester por £ 150 mil.

Quando a década de sessenta se aproximava do fim, Shankly havia finalmente se resignado que precisava renovar o time que havia recolocado o Liverpool entre os maiores clubes do país. Havia contratado John Ogston do Aberdeen, mas Tommy Lawrence, ainda no auge, não lhe deu espaço para mais do que uma partida pelo time principal. Como a idade chega a todos, era necessário preparar a sucessão.

Era uma época difícil para mapear as melhores promessas de todos os clubes do país. Não havia YouTube ou WyScout ou… bem, jogos transmitidos pela televisão. Além de ter uma rede de olheiros ampla e qualificada, era necessário também ter boas relações com os colegas para receber dicas sobre potenciais destaques antes dos concorrentes. Peter Robinson sabia cultivar as suas. Dirigente do Liverpool durante 35 anos, havia trabalhado em representantes de todas as divisões antes de chegar a Anfield – inclusive no Scunthorpe – e sempre atendia ao pedido desses clubes por ingressos para ver o Liverpool jogar. Foi por meio dessa rede de contatos que foi alertado sobre Clemence e conseguiu fechar a contratação.

Shankly não tinha vergonha de usar o seu carisma para convencer os jogadores a assinarem com o Liverpool. Era sedutor na conversa e tinha um jeito especial de fazer com que o interlocutor se sentisse o vencedor da Bola de Ouro. No caso de Clemence, o argumento foi que Tommy Lawrence estava em decadência, que o seu melhor havia ficado para trás, e que, se ele continuasse melhorando, em seis meses seria titular. “Quando cheguei ao Liverpool para a pré-temporada, eu descobri que Tommy não estava em decadência e que o seu melhor não havia ficado para trás. Ele estava no auge da sua carreira e eu precisei esperar dois anos e meio para ter um lugar estável no time titular”, afirmou, em entrevista ao LFC History.

O goleiro chegou em 1967, aos 19 anos, ainda um pouco verde, embora tivesse jogado algumas vezes na terceira divisão. Estreou em setembro de 1968, contra o Swansea. No começo, ainda era um jogador inseguro. Segundo a biografia de Paisley, “Quiet Genius”, tinha um tiro de meta tão ruim que em em seu primeiro jogo, os adversários chutavam deliberadamente para fora para tentar recuperar a posse de bola em uma posição melhor. Uma tática que, vamos combinar, parece um pouco estranha e pouco eficiente.

Paisley precisou trabalhar com ele de perto. Identificou que tinha medo de jogar contra o vento e pediu para que as bandeiras no teto de Anfield fossem retiradas porque, afinal, o que os olhos não veem… Fã de boxe (muito fã de boxe), Paisley trabalhou com Clemence naquelas bolas que ficam penduradas para melhorar as suas reações. Conseguiria se firmar como titular apenas na temporada 1969/70, quando Shankly finalmente se convenceu a abrir mão dos seus principais medalhões.

O Liverpool havia ficado em quinto e terceiro depois do título de 1965/66, mas talvez o vice-campeonato da temporada anterior tenha iludido Shankly a acreditar que dava para insistir em alguns jogadores mais velhos. O divisor de águas foi uma derrota para o Watford nas quartas de final da Copa da Inglaterra. “Aquele foi o jogo crucial. Depois do Watford, eu sabia que tinha que fazer meu trabalho e mudar o time. Tinha que ser feito e, se não o fizesse, estaria fugindo das minhas obrigações. Eu conseguia ver que alguns jogadores não eram mais os mesmos. Quando você teve sucesso, pode ser difícil se motivar… era óbvio que, embora alguns jogadores tivessem apetite para o sucesso, outros não tinham e era melhor que fossem para outro lugar”, escreveria Shankly.

Uma semana depois, a escalação para enfrentar o Derby County pegou todo mundo de surpresa. Símbolos da ressurreição do clube, como Ron Yeats e Ian St. John, não estavam entre os titulares. Tommy Lawrence também não. Clemence começou debaixo das traves e demoraria mais de 10 anos para ser removido. O novo time do Liverpool demorou um pouco para engrenar. Mas Clemence fez sua parte. Na temporada 1970/71, sofreu apenas 22 gols em 41 partidas da primeira divisão – recorde pessoal que bateria sendo vazado apenas 16 vezes em 1978/79.

Mural de Ray Clemence nos arredores de Anfield (Foto: Peter Byrne/Imago/One Football)

Clarence acompanhou a progressão do segundo time de Bill Shankly, e ambos chegaram ao auge quase ao mesmo tempo. Em 10 de maio de 1973, o Liverpool recebeu o Borussia Monchengladbach em Anfield para o primeiro jogo da final da Copa da Uefa. Kevin Keegan, duas vezes, e Larry Lloyd abriram 3 a 0 para os donos da casa, e Clemence impediu que os alemães descontassem ao defender um pênalti de Jupp Heynckes. Acabou sendo uma defesa muito importante porque, no jogo de volta, o Gladbach venceu por 2 a 0, e os Reds conquistaram seu primeiro título continental.

Shankly se aposentaria na temporada seguinte, deixando uma base fantástica – que incluía um goleiro fantástico – sobre a qual Paisley construiu tantas glórias. O treinador aperfeiçoou uma maneira de jogar que Shankly havia começado a esboçar, com foco em construir a partir da defesa e tocar a bola sem pressa, especialmente fora de casa, de maneira defensiva e para deixar os torcedores adversários frustrados. O goleiro que tinha problemas com tiro de meta se tornou uma versão mais refinada de Tommy Lawrence, um dos primeiros da posição a atuar também como líbero, posicionando-se frequentemente na entrada da área. Quando o Liverpool estava vencendo, então, fazia de tudo para esfriar o outro time, que às vezes passava cinco minutos sem tocar a bola.

O sucesso, como a história conta, foi estrondoso. O Liverpool conquistaria novamente a Copa da Uefa, com outro pênalti defendido por Clemence, no 0 a 0 das quartas de final contra o Dínamo Dresden, e foi bicampeão europeu ao fim da década. Em Roma, contra o mesmo Monchengladbach, Clemence foi crucial. Terry McDermott abriu o placar, mas Allan Simonsen empatou no começo do segundo tempo. Logo depois, Simonsen colocou a bola para Uli Stielike nas costas da defesa. Ele entrava livre na área, mas Clemence saiu do gol na hora certa e abafou o lance.

“As pessoas me perguntam quais foram minhas melhores defesas. Elas tendem a pensar que eu diria que foi alguma em que eu voei no ângulo e espalmei por cima do travessão. Eu tendo a olhar para as defesas em termos de importância para o jogo. Logo, a defesa de Stielike foi uma das mais importantes que eu já fiz. Não foi uma defesa espetacular, mas pelo momento e pela importância”, afirmou, ao LFC History. “Eu tentei me tornar o maior possível, me esticar aos pés dele e, felizmente, ele me atingiu com a bola. Cinco ou dez minutos depois, Tommy Smith marcou de cabeça e acabamos ganhando o jogo (por 3 a 1)”.

Aquele foi o primeiro título de Copa dos Campeões de Clemence. Ele ganharia mais dois. O último, em 1981, contra o Real Madrid, vitória por 1 a 0, seria também o último clean sheet dos 323 que ele conseguiu com a camisa do Liverpool. Segundo a biografia de Paisley, aquele jogo fez com que ele sentisse que havia chegado ao auge – “Eu sentava no vestiário pensando ‘acabamos de vencer o Real Madrid, não fica melhor do que isso’” -, mas havia também outros dois fatores. A diretoria, que chegou a tentar negociar uma renovação para que ele ficasse, acreditava que o Tottenham estava sendo muito persuasivo nos bastidores.

E quando o interesse dos Spurs foi reportado à cúpula do futebol, Paisley e o secretário Peter Robinson se mexeram rapidamente para trazer Bruce Grobbelaar, ainda em março, nos últimos meses da temporada 1980/81. De personalidade forte, Grobbelaar brincava – mais ou menos – que Clemence estava ficando velho e precisava dar espaço a um goleiro mais jovem e chegou a dizer na imprensa que queria mesmo o seu lugar no time titular. Paisley teria ficado contente com a concorrência, mas a transferência ao norte de Londres foi confirmada para a campanha seguinte. Clemence nega que tenha ficado realmente incomodado com a presença de Grobelaar, além daquela pressão normal de ter um outro jogador querendo o seu lugar no time, o que sempre o motivava a atuar melhor.

O primeiro retorno a Anfield com a camisa do Tottenham foi no final da edição seguinte do Campeonato Inglês. O Liverpool precisava vencer para recuperar o título nacional – e o fez, por 3 a 1. “No primeiro tempo, eu joguei diante de Anfield Road e eles ainda cantavam ‘número 1 da Inglaterra’ para mim. Isso foi legal. Eu nunca poderia ter imaginado quando troquei de lado no intervalo e fui para a Kop (lendária arquibancada de Anfield) o que aconteceria. O estádio inteiro se levantou e cada um dos torcedores que estavam na Kop. Foi provavelmente o momento mais emocionante pelo qual passei em um estádio de futebol. Fiquei com um nó na garganta porque não conseguia acreditar na recepção que tive. Foi um dos melhores momentos que eu poderia ter”, afirmou, segundo o Liverpool Echo.

A passagem de Clemence pelo Tottenham foi muito maior do que uma mera aposentadoria. Ele atuou mais sete temporadas, com outro título de Copa da Inglaterra e Copa da Uefa para o seu currículo. Somou 330 jogos pelos Spurs que, somados aos 665 pelo Liverpool e outros 61 pela seleção inglesa, colocam-no no seleto clube de jogadores que atuaram profissionalmente mais de mil vezes. Menos ainda o fizeram com tanta classe e com tantas conquistas.

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