A decisão da Liga dos Campeões da Ásia consagrará uma força continental em 2019. Finalistas dessa edição, Al-Hilal e Urawa Red Diamonds possuem dois títulos na competição. O vencedor poderá se juntar ao Pohang Steelers como maior campeão da história do torneio – organizado de maneira anual desde o fim dos anos 1980. No entanto, se o troféu possui um peso histórico similar às duas agremiações, ele teria um significado bastante distinto ao momento. Enquanto a Champions soa como uma obsessão ao Al-Hilal, ela marcaria ao Urawa um inesperado período de domínio além das fronteiras.

A decisão de 2019, afinal, marca uma revanche. Em 2017, Al-Hilal e Urawa Red Diamonds já mediram forças na final da Champions Asiática. Depois de ficar no quase em edições recentes do torneio, os sauditas pareciam ávidos em finalmente encerrar o jejum que dura desde 2000. Entretanto, acabaram esfriados pelo brasileiro Rafael Silva. Autor do gol no empate por 1 a 1 em Riad, ele garantiria o título em Saitama com o tento decisivo aos 43 do segundo tempo. Permitiu que os Reds recuperassem a taça exatos 10 anos depois da memorável conquista de 2007, estrelada pelos brasileiros Washington e Robson Ponte.

Nestes dois anos, o investimento do Al-Hilal aumentou. A abertura do futebol saudita aos jogadores estrangeiros permitiu que o “maior da Ásia” (como sua ensandecida torcida adora bradar) fizesse contratações renomadas. O atual elenco possui Bafétimbi Gomis e Sebastián Giovinco como grandes estrelas. O centroavante francês é o artilheiro da Champions, com dez gols. O elenco badalado também incluiu o peruano André Carrillo, o colombiano Gustavo Cuéllar e o sírio Omar Kharbin – embora os dois últimos não tenham chegado a tempo de serem inscritos na Champions. O representante brasileiro é meia Carlos Eduardo, que antes defendeu Porto e Nice na Europa. Como se não bastasse, os alviazuis ainda têm parte da base da seleção saudita, com menções especiais aos meias Salem Al-Dawsari e Salman Al-Faraj.

Diante do grande poderio local, o Al-Hilal possui um projeto claro de se reafirmar como um gigante asiático. Contudo, falta superar a barreira na Champions. Vencedor do torneio pela última vez em 2000, o clube tem dois vice-campeonatos e uma semifinal nos últimos cinco anos. Nomes como Thiago Neves e o técnico Ramón Díaz não foram capazes de sanar a ânsia no período. Apesar do bicampeonato saudita em 2016/17 e 2017/18, o principal objetivo permanece na AFC. Depois de algumas decepções sentidas, esta é a chance que os alviazuis definitivamente não podem desperdiçar.

A campanha do Al-Hilal nesta Champions Asiática é marcante. Durante a fase de grupos, os sauditas terminaram na primeira colocação de uma chave complicada, que incluía os catarianos do Al-Duhail e os iranianos Esteghlal. Já nos mata-matas, passaram por um mini campeonato nacional. Superaram os compatriotas Al-Ahli e Al-Ittihad, antes de enfrentar o Al-Sadd na semifinal. Apesar da repercussão sobre o catarianos, treinados por Xavi, o Al-Hilal venceu a ida por 4 a 1 fora de casa e conquistou a classificação em Riad, mesmo com a derrota por 4 a 2.

O treinador responsável por alimentar o sonho continental do Al-Hilal é Razvan Lucescu, filho de Mircea e campeão grego com o PAOK na última temporada. O romeno é o quarto treinador do clube desde a saída de Jorge Jesus em janeiro, por desavenças com a diretoria. Ao menos, consegue uma estabilidade nestes primeiros meses de trabalho e também lidera o Campeonato Saudita. Já outro personagem notável é o capitão Mohammad Al Shalhoub. Aos 38 anos, é um dos maiores ídolos da história do clube e estava no último título continental em 2000. Mesmo saindo da reserva, o camisa 10 tem feito gols importantes aos alviazuis.

O Urawa Red Diamonds, diferentemente do Al-Hilal, já atravessou momentos mais abastados. Sem conquistar a J-League desde 2006, o clube vive uma fase mais copeira. Desde 2016, faturou a Champions Asiática, a Copa do Imperador, a Copa da Liga, a Copa Suruga e a Supercopa do Japão. O segundo título continental em dois anos referendaria esse peso, já que a atual campanha no Campeonato Japonês é fraquíssima. Os Reds ocupam o 11° lugar, apenas cinco pontos acima da zona de rebaixamento.

Na Champions Asiática, porém, o Urawa Red Diamonds se provou competitivo e cresceu durante o torneio, o que é mais importante em sua caminhada. Segundo colocado em sua chave na fase de grupos, depois de uma campanha que começou ruim, o time amedrontou os vizinhos nos mata-matas. Primeiro, despachou o Ulsan Hyundai, antes de eliminar os dois representantes mais fortes da China. Os japoneses passaram pelo Shanghai SIPG (de Hulk, Oscar e Marko Arnautovic) com dois empates. Já nas semifinais, ganharam do Guangzhou Evergrande (de Paulinho, Talisca e Gao Lin) em ambos os encontros. Por mais que o momento na J-League não salte aos olhos, todo cuidado é necessário ao Al-Hilal.

Membro constante das comissões técnicas do Urawa, Tsuyoshi Otsuki assumiu o comando em maio, após a demissão de Oswaldo de Oliveira – que, pressionado pelos resultados na J-League, ao menos evitou uma eliminação precoce também na Champions, ao se recuperar durante a fase de grupos. O atual treinador possui um elenco com vários remanescentes do título de 2017, como o zagueiro Tomoaki Makino, o meia Kazuki Nagasawa e o goleiro Shusaku Nishikawa – este, uma ausência lamentada para o primeiro jogo da final. Já Yuki Abe esteve em campo em 2007 e foi capitão em 2017, podendo se tornar tricampeão continental.

Mais à frente, o destaque fica para Shinzo Koroki, que permanece como principal referência ofensiva. Excelente em seu posicionamento e com muito oportunismo, o atacante anotou oito gols no torneio e balançou as redes cinco vezes nos últimos cinco jogos, essencial à ascensão dos Reds na campanha continental. Já a cota brasileira inclui o zagueiro Maurício Antônio, o meio-campista Ewerton e o atacante Fabrício, todos com passagens anteriores pelo futebol português. Na Champions Asiática, o Urawa exibe boa organização e consistência coletiva. Deve ser sua principal arma nesta decisão.

A final, além de proporcionar um embate de escolas de futebol distintas, também traz um choque entre filosofias de jogo. Enquanto o Al-Hilal confia nas individualidades, o Urawa possui um conjunto mais funcional nesta campanha. Será a arma para tentar negar o favoritismo dos sauditas. O primeiro duelo acontece neste sábado, no Estádio da Universidade King Saud, que deverá contar com mais um espetáculo da fanática torcida alviazul. Já o reencontro em Saitama fica marcado para 24 de novembro. A ver qual potência prevalecerá, entre os anseios dos distintos e também a respeitável tradição que possuem.