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O Catar se prepara para o maior desafio da sua história em termos de organização, a Copa do Mundo 2022, e não mede esforços (leia-se: grana) para que o evento aconteça da forma como querem. Por isso, o país anunciou em dezembro que o seu orçamento anual para 2020 seria 1,9% maior do que 2019, o maior em cinco anos. Serão 210,5 bilhões de riais catarianos (equivalente a US$ 58 bilhões), com foco em obras de infraestrutura e especialmente em grandes projetos, o que inclui a Copa do Mundo.

É o maior orçamento anual do país nos últimos cinco anos, e, como já mostramos por aqui, o Catar não tem economizado nem um pouco para criar as infraestruturas necessárias para a Copa do Mundo. Em 2017, por exemplo, contamos que o Catar, em ritmo acelerado de obras, gastava US$ 500 milhões por semana. É como se você tivesse um truque para jogar com dinheiro infinito. O Catar opera basicamente jogando Sim City com cheat.

Desde 2017 o Catar tem sofrido com as consequências de um bloqueio dos vizinhos, que fecharam fronteiras e até espaço aéreo para empresas catarianas, como a Qatar Airways. Explicamos como esse bloqueio começou a ter consequências no futebol e é uma preocupação para a Copa 2022.

“O orçamento de 2020 foi feito para atingir eficiência nas despesas atuais, mantendo as alocações necessárias para a conclusão dos principais projetos aprovados”, diz comunicado do Ministério das Finanças, em um comunicado. As receitas do país para 2020 não devem sofrer mudanças, com previsão de 211 bilhões de riais catarianos (US$ 58 bilhões), baseado principalmente no preço do petróleo, estimado em 200 riais (algo como U$ 55) por barril. Por isso, o Catar espera ter um superávit de 500 milhões de riais catarianos (US$ 137 milhões) em 2020, aumentando em 4,4 bilhões de riais (US$ 1,2 bilhão) neste ano.

O Catar tem planos de aumentar o investimento em grandes projetos em 2020. O orçamento prevê 90 bilhões (US$ 25 bilhões) de riais em grandes projetos, um aumento de 0,6%, sendo a maior parcela de despesa. O montante representa cerca de 43% do orçamento. “Isso ressalta o comprometimento do país para completar a tempo os projetos nos setores mais importantes, incluindo saúde, educação e transporte, junto com todos relacionados à Copa do Mundo 2022”, continua comunicado do governo catari.

Ainda segundo o governo, projetos no valor de 11,5 bilhões de riais (US$ 3,2 bilhões) serão realizados neste ano. Os principais projetos de infraestrutura são ligados à construção de avenidas, expansão do sistema de água e energia elétrica. Um dos projetos mais ambiciosos é o Doha Sharq Crossing, um projeto ousado, apresentado há alguns anos, que visa construir largas estradas pelo mar ligando a área de Ras Abu Aboud ao distrito West Bay, que levará quatro anos para ficar pronto – portanto, não deverá ser usada na Copa do Mundo. Veja como será o projeto:

O país previu aumento de despesas com pagamento de salários, porque inaugurou novas estruturas de transporte em 2019, especialmente o metrô de Doha. Foram contratados novos funcionários para trabalhar e operar o maquinário do sistema. O sistema foi inaugurado no dia 8 de maio de 2019 e conta com três linhas e 37 estações.

São trens de alta velocidade, que operam a, no máximo, 100 km/h, uma velocidade similar à do metrô de São Paulo, por exemplo. Há, no momento, 76 quilômetros de metrô instalado em Doha, com outros 48,1 quilômetros planejados para os próximos anos. Como comparação, São Paulo possui 101,1 quilômetros de metrô, com 89 estações. O governo de São Paulo normalmente fala em 374 quilômetros de trilhos, mas isso inclui também os trens metropolitanos (CPTM).

“O Catar pode se dar ao luxo de gastar facilmente e, agora que grandes projetos de infraestrutura para 2022, como o metrô, estão concluídos, eles querem reviver projetos que foram adiados para focar naqueles que eram prioridades”, afirmou Rory Fyfe, diretor da MENA Advisors, que presta consultoria para negócios no Oriente Médio, em entrevista à Al Jazeera.

Outros países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein – todos parte do bloqueio liderado pelos sauditas contra o Catar, inclusive – criaram um imposto sobre valor agregado (VAT, da sigla em inglês) nos últimos dois anos para diminuir a dependência do lucro oriundo do petróleo. O Catar, porém, decidiu que não adotará a medida no país por enquanto e prefere estudar os efeitos antes de criar esse imposto. Nos vizinhos, a taxa é de 5%.

Segundo o Banco Mundial, o Catar é o único país do Conselho de Cooperação do Golfo que terá superávit no período de três anos que compreende 2019 a 2021. O relatório do Banco Mundial, porém, recomenda que o Catar siga o que os vizinhos estão fazendo e introduza o VAT para diminuir a dependência do país no preço do petróleo. Isso porque o relatório coloca como um risco as previsões de receitas baseadas em petróleo, que possuem alta volatilidade e são impactadas por vários fatores que podem comprometer o país no curto prazo.

Em termos de Copa do Mundo, o Catar vai bater todos os recordes de gastos. O orçamento estimado de gastos da Rússia para organizar a Copa do Mundo de 2018 foi de US$ 14 bilhões, o maior da história. A previsão de gastos do Catar para fazer a Copa 2022 é de mais de US$ 200 bilhões. Dinheiro não falta.