O Catar ser escolhido como sede da Copa do Mundo de 2022 foi alvo de muita polêmica desde o anúncio, em dezembro de 2010. Mas talvez nem mesmo o mais pessimista dirigente da Fifa esperasse a avalanche de problemas que viriam. Primeiro, foram as acusações de corrupção e compra de votos, depois as altas temperaturas na casa de 50°C durante a disputa do Mundial, a acusação de trabalho escravo e as implicações políticas de uma mudança da Copa de 2022 para o período de inverno do hemisfério norte. Nesta semana, mais uma acusação: Jack Warner, que era do alto escalão da Fifa, recebeu US$ 1,2 milhão da empresa de Mohamed Bin Hammam, o principal nome da candidatura do Catar para a Copa de 2022.

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A denúncia veio do jornal Telegraph, que teve acesso a documentos que mostram que Warner recebeu da empresa controlada pelo ex-dirigente catariano pouco depois do Catar ter vencido a disputa para sediar o torneio. Outros US$ 750 mil foram pagos a filhos de Warner, e mais US$ 400 mil foram recebidos por um de seus funcionários. Mas se segure aí na cadeira porque a trama fica mais complicada que isso. Tudo isso aconteceu em 2011.

Segundo o jornal, o FBI está investigando Jack Warner e sua ligação com a candidatura do Catar. Mais: um dos filhos de Warner, que mora em Miami, estaria colaborando com as investigações como uma forma de delação premiada. Os documentos mostram uma nota de uma das empresas de Warner, Jamas, requisitando à uma empresa de Bin Hammam, Kemco, o pagamento de US$ 1,2 milhão por trabalhos prestados entre 2005 e 2010.

O documento é de 15 de dezembro de 2010, duas semanas depois do Catar vencer a disputa para sediar o evento. O documento diz que o dinheiro é “para pagamento a Jack Warner”.  A mesma empresa pagou mais US$ 1 milhão aos dois filhos de Warner pela mesma empresa. Em um documento, a descrição do pagamento destina-se a “compensar despesas legais e outros serviços”, mas outra carta afirma que o valor de mais de US$ 1 milhão é para cobrir “serviços profissionais prestados durante o período de 2005 a 2010”.

Tem mais. Ao menos um banco das Ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal, teria recusado inicialmente processar o pagamento por medo da legalidade da transferência financeira. Sim, ao menos um banco de um paraíso fiscal achou que o dinheiro era suspeito. O dinheiro então foi processado através de um banco de Nova York. Esta transferência teria chamado a atenção do FBI, que passou a investigar a sua origem.

“Esses pagamentos precisam ser propriamente investigados. A Copa do Mundo é o evento mais importante no futebol e nós precisamos estar confiantes que as decisões tenham sido tomadas pelas razões certas. Há muitas questões que ainda precisam ser respondidas”, afirmou uma fonte ao jornal. A investigação estaria nas contas de Jack Warner nos Estados Unidos e nas Ilhas Cayman.

Vale lembrar também que a Fifa diz estar investigando o processo de escolha das sedes de 2018 e 2022. Michael Garcia, investigador-chefe do Comitê de Ética da Fifa, está analisando possíveis irregularidades e deve apresentar um relatório ainda este ano.

O Comitê Organizador da Copa de 2022 se pronunciou negando qualquer envolvimento em atividades ilegais. “O Comitê de 2022 aderiu estritamente às regulações de candidatura da Fifa em conformidade com seu código de ética”, diz nota divulgada pelos catarianos. “O comitê supremo para a entrega e legado e os indivíduos envolvidos no comitê de candidatura de 2022 não têm conhecimento de todas as alegações em torno de negócios privados individuais”, afirma ainda a nota.

Jack Warner e um histórico de suspeitas

Jack Warner sempre foi alvo de suspeitas de corrupção e acabou afastado da Fifa quando era vice-presidente da Fifa. É preciso lembrar que o dirigente, nascido em Trinidad e Tobago, passou por vários cargos administrativos no futebol dentro da União Caribenha de Futebol, Federação de Trinidad e Tobago e Concacaf, esta última da qual se tornou vice-presidente em 1983, quando entrou também para o Comitê Executivo. Em 1990, elegeu-se presidente da Concacaf, cargo que ocupou até 2011. Só deixou o cargo porque emergiram acusações de corrupção que o fizeram ter que abrir mão do cargo como forma de não sofrer mais investigações que o fariam correr riscos.

Na época, a acusação era de compra de votos para a eleição para presidente da Fifa, que tinha Mohamed Bin Hammam, então presidente da Confederação de Futebol da Ásia (AFC) e um dos articuladores da candidatura do Catar para a Copa de 2022, como candidato de oposição a Joseph Blatter. O catariano teria oferecido pagar US$ 40 mil para cada membro da Associação de Futebol do Caribe – são 31, o que significam 40 votos a mais na eleição que tem 209 associações. É uma porção significativa.

Ao ser acusado, Warner fez ameaças, em 28 de maio de 2011. Disse que a Fifa seria atingida por um “tsunami” e deixaria todos chocados. Dois dias depois, no dia 30, revelou um e-mail de Jérôme Valcke que afirmava que o Catar tinha comprado a Copa. Na conversa, Warner alertava sobre o perigo de perder o apoio dos países árabes depois da eleição para presidente da Fifa, já que Bin Hammam centralizava esses países, e que pediria para o catariano não concorrer ao cargo. A resposta de Valcke gerou controvérsia:

“Sobre MBH [Mohhamed Bin Hammam], eu nunca entendi porque ele está concorrendo. Se ele realmente pensa que tem uma chance ou se é apenas uma forma radical de mostrar o quanto ele não gosta mais de JSB [Joseph Sepp Blatter]. Ou ele pensou que poderia comprar a Fifa como eles [Qatar] compraram a Copa do Mundo”, disse o secretário-geral da Fifa.

Valcke teve que dizer que o e-mail foi mal interpretado e que usou um tom menos formal do que o normal em uma correspondência oficial. Explicou que na verdade quis dizer que o Catar usou o seu poder financeiro para fazer lobby pela candidatura, mas não que tinha efetivamente comprado a Copa. Um claro constrangimento e uma explicação manca sobre palavras muito fortes usadas pelo homem forte da Fifa.

A Fifa afirmou ter provas sobre a tentativa de suborno de Bin Hammam que usou Warner como ponte, o que levou os dois dirigentes a serem afastados de seus cargos. Bin Hammam ainda seria banido do esporte. Warner pediu demissão dos seus cargos na Fifa e na Concacaf. A Fifa, então, alegou “princípio de inocência” e, assim, deu por encerrada a investigação. Como é comum na entidade máxima do futebol, as coisas acabaram em pizza – nada muito diferente, por exemplo, do que aconteceu com Ricardo Teixeira e João Havelange, que foram acusados de receberem suborno, ou de Nicolas Leoz, pelo mesmo motivo.

Warner ainda teve outra acusação de corrupção revelada 2013. A doação de US$ 400 mil pela Austrália para investimento em um estádio simplesmente desapareceu. Warner e Chuck Blazer, secretário-geral da Concacaf, foram acusados de embolsarem a quantia.

Novo processo para escolha das sedes?

Não são poucos os que pedem que um novo processo de escolha da sede de 2022 seja realizado. Uma dessas vezes é Damian Collins, membro do parlamento britânico, representante dos conservadores no país.

“Se essas acusações forem provadas, se o FBI, que está investigando, apresentar provas, eu não acho que a Fifa tem escolha”, afirmou o político britânico à Sky Sports. “Se houve corrupção envolvida no processo de votação, e houve troca de dinheiro ligada a votos, como eles poderiam ignorar isso e deixar que a competição aconteça sem nenhum tipo de nova concorrência?”, declarou Collins. “Eu acho que isso levanta uma grande preocupação que a decisão de conceder a Copa do Mundo ao Catar foi baseada em dinheiro, não em interesses esportivos”, disse ainda o membro do partido conservador.

Clive Efford, outro membro do parlamento britânico, mas que pertence ao partido trabalhista, também se mostra favorável a um novo processo de concorrência, caso as acusações sejam provadas. “A Fifa deveria conduzir uma investigação total. Parece que houve séria corrupção na candidatura e isso tem que suscitar sérias preocupações sobre enviar a Copa do Mundo ao Catar. Se a Fifa olhar para toda essa informação e descobrir que há corrupção, eles deveriam reabrir o processo de candidatura”, afirmou.

A Inglaterra foi candidata a sediar a Copa do Mundo de 2018, mas foi eliminada na primeira rodada com apenas dois votos entre os 22 possíveis do Comitê Executivo. O país era considerado um dos favoritos a receber o mundial, mas durante as candidaturas já surgiram denúncias sobre supostos pedidos feitos por membros do Comitê Executivo em troca de votos – como se especulou que Leoz teria pedido um título de cavaleiro da coroa britânica, além de, claro, pedidos de dinheiro para “projetos sociais” nos países de origem dos votantes.

Por tudo isso, a pressão vindo da imprensa e de políticos ingleses aumentou muito. A oposição da FA à Fifa cresceu, assim como a tensão entre os britânicos, especialmente os ingleses, e a principal entidade do futebol. A Premier League mesmo já sinalizou ser contra, por exemplo, a Copa do Mundo ser disputada em fevereiro, como já se especulou.

O que sabemos é que a Fifa está em uma situação complicada em relação à Copa do Catar e há gente dentro da entidade, entre elas o próprio Blatter, dispostos a solucionar a questão tirando o Mundial do país asiático. Resta saber como e se isso é possível, mas cada vez parece mais provável.