A espera acabou. Depois de conquistar o título da Copa da Inglaterra no fim de semana, Arsène Wenger confirmou que continua no Arsenal por mais dois anos. A renovação era dada como certa por Guardian e ESPN e foi anunciada oficialmente nesta quarta-feira no site do clube. A permanência será um grande desafio para Wenger. A exigência será grande: além de melhorar, e muito, o desempenho do time em campo, será preciso conquistar títulos. No mínimo, lutar muito, de igual para igual, pelo título inglês. Voltar à Champions League será o objetivo, claro, será obrigatório.

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Quem tomou a decisão foi Stan Kroenke, principal acionista do Arsenal. É sabido que os dois têm um bom relacionamento. O fim de temporada de Wenger também ajudou bastante. Foram 10 vitórias nos últimos 11 jogos, com o título da Copa da Inglaterra como a cereja do bolo. Tornou-se o técnico com mais títulos da competição, com sete conquistas, superando Geroge Ramsay, que conquistou seis vezes a taça pelo Aston Villa entre 1987 e 1920.

Stan Kroenke, principal acionista do Arsenal, foi quem falou sobre a renovação de Wenger. “Nossa ambição é vencer a Premier League e outros grandes troféus na Europa. É o que os torcedores, jogadores, comissão técnica, técnico e diretoria esperam e nós não iremos descansar até que isso seja alcançado. Arsène é a melhor pessoa para nos ajudar a fazer isso acontecer. Ele tem um histórico fantástico e tem o nosso total apoio”, afirmou o empresário americano.

“Eu amo este clube e eu estou ansioso pelo futuro com otimismo e empolgação. Nós estamos analisando o que fazemos bem e como podemos ser mais fortes em todos os lugares. Este é um grupo forte de jogadores com algumas boas contratações nós podemos ser ainda mais bem sucedidos. Nós estamos comprometidos em estabelecer um desafio contínuo à conquista da liga e este será o nosso foco neste verão [janela de transferências] e na próxima temporada”, disse o técnico. “Eu estou grato em ter o suporte da diretoria e de Stan em fazer todo o possível para que possamos ganhar mais troféus. É o que nós todos queremos e eu sei que é o que os nossos torcedores ao redor do mundo exigem”.

“Eu estou feliz e empolgado. Feliz porque eu posso trabalhar onde eu amo estar. Assim como porque este clube aprecia os valores que eu amo. Estou empolgado porque eu acredito que o nosso fim da temporada é um grande local de partida para buscarmos mais. Nós criamos uma dinâmica que é muito positiva e nós queremos construir a partir daí e transferir esse fim de temporada positiva para a nova temporada”, disse Wenger ao canal de TV do Arsenal.

O que deu errado na temporada?
O capitão Mertesacker com o técnico Arsene Wenger (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)
O capitão Mertesacker com o técnico Arsene Wenger (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Foi a primeira vez que o Arsenal comandado por Wenger ficou fora da Champions League. E lá se vão 20 anos. Isso se considerarmos as temporadas completas, claro. Porque quando ele chegou, em outubro de 1996, a situação já não estava tão boa – daí a troca de treinador – e ele acabou fora da competição europeia. A recuperação, porém, foi notável. O time terminou em terceiro lugar na tabela, sete pontos atrás do campeão Manchester United e empatado em pontos com o Newcastle, que acabou em segundo pelo saldo de gols (33 a 30). E o que, na opinião de Wenger, deu errado nesta temporada?

“Como um todo, eu acho que a primeira parte da temporada foi muito positiva. Nós ficamos 20 jogos invictos, incluindo a Champions League, e terminamos como líderes no grupo da Champions League. Depois disso, o ponto de mudança foi talvez os jogos com Everton e Manchester City, quando vimos nosso nível cair fora de casa um pouco. Nós estávamos invictos fora de casa por um longo, longo tempo”, analisou o treinador.

“O lado negativo e outros pontos de virada foram certamente os jogos com o Bayern de Munique, que nós tínhamos resultados muito positivos no intervalo e no fim do jogo acabamos muito frustrados. Foi em condições muito especiais, mas isso afetou profundamente a confiança do time”, disse ainda o treinador, falando sobre a traumática eliminação diante do Bayern de Munique. Este, aliás, é um dos motivos para a ira de alguns torcedores do Arsenal com Wenger: o time não consegue passar das oitavas de final. São sete eliminações consecutivas nesta fase. A última vez que passou, em 2009/10, caiu nas quartas de final.

“Eu acredito que a incerteza de fora sobre a minha situação teve um impacto no time também, e depois disso eu acho que nós reagrupamos. Nós poderíamos ficar divididos, mas nós mostramos muita resiliência e nós estávamos unidos para voltar de maneira muito forte. Nós terminamos a temporada de um modo muito convincente. Nós ganhamos 10 de 11 jogos e isso é absolutamente difícil. Nós jogamos contra todos os adversários difíceis, então terminamos a temporada de uma maneira muito forte e com uma dinâmica muito forte”, disse Wenger.

Missão clara: título da Premier League
Arsene Wenger, do Arsenal (Photo by Ian Walton/Getty Images)
Arsene Wenger, do Arsenal (Photo by Ian Walton/Getty Images)

O título da Premier League deverá ser o grande objetivo do Arsenal para a próxima temporada. A Liga Europa e as Copas certamente ficarão em segundo plano, ao menos em um primeiro momento. Em 2015/16, o time ficou em segundo lugar, mas não efetivamente disputou o título com o Leicester. Só ficou em segundo lugar na última rodada, superando o Tottenham. Precisará de muito mais do que isso. E Wenger sabe que a falta de um resultado contundente já na próxima temporada poderá colocá-lo em risco.

O dono do clube, Stan Kroenke, deixou bem claro duas coisas: que a ambição é, acima de tudo, ganhar a Premier League; e que não há um técnico melhor para o Arsenal que o próprio Arsène Wenger.

“A ambição é colocar o clube em uma posição que nós possamos vencer a Premier League, onde estejamos competindo para ser campeão na Europa e seguindo adiante. O futebol está constantemente evoluindo e nós precisamos evoluir e seguir adiante para melhorar isso. Este é o objetivo que o clube tem, que o dono tem, que a diretoria tem e que eu sei que Arsène tem”, disse Kroenke.

“Arsène é alguém que eu trabalhei por oito anos e eu sei a qualidade do homem, a qualidade dele como uma pessoa do futebol e eu sei a qualidade dele como ser humano também. Estes valores que ele tem, essas qualidades, são de classe mundial em todo respeito. O DNA dele é o mesmo DNA do clube. Ele é movido para seguir adiante, para evoluir e atingir esses objetivos de ganhar por esse clube e fazer os torcedores orgulhosos”, explicou o dirigente.

“Quando você olha para o mundo do futebol e você pensa nos grandes candidatos que há – e há muitos ótimos candidatos no mundo e o Arsenal é um clube que todos eles gostariam de trabalhar por causa do que representamos no futebol -, mas se você olha ao redor e faz essa avaliação, você não encontra alguém melhor que Arsène Wenger”, completou Kroenke.

Bom, fica claro que se o time não lutar pelo título na próxima temporada, será frustrante. Altamente frustrante. Mas o dirigente parece muito claro que acredita poder fazer isso com Wenger no comando. E o técnico também parece confiante nisso. Depois do que aconteceu com o Leicester e especialmente do Chelsea, que ganhou o título depois de uma temporada frustrante e sem mudar muito o elenco, a esperança também foi renovada no Arsenal.

Um trunfo: os jogadores
Özil e Wenger, do Arsenal (Photo by Shaun Botterill/Getty Images)
Özil e Wenger, do Arsenal (Photo by Shaun Botterill/Getty Images)

Com Wenger, é possível que algumas negociações que se arrastaram por toda a temporada tenha uma definição. Mesut Özil, por exemplo, é um dos que elogiam publicamente Wenger e a confirmação da sua permanência deve fazer com que ele o clube voltem à mesa de negociações, com os Gunners tendo o trunfo de Wenger. Vale o mesmo para Alexis Sánchez. Os dois têm contrato até 2018 e, se não acertarem a renovação, terão que ser vendidos para não saíram de graça no próximo ano.

Wenger sabe que se algum deles sair – ou os dois -, a reposição terá que ser à altura. Ou seja: terão que vir jogadores do mais alto nível. E, além disso, será preciso mais contratações de jogadores que possam tornar o Arsenal ainda mais forte. O time sempre parece um passo atrás de alguns outros concorrentes, especialmente os endinheirados Manchester United e Manchester City. Mas o Tottenham, rival dos Gunners, mostraram que é possível competir pelo topo sem ter o mesmo dinheiro. Só que a lição também é claro: é necessário ser muito mais preciso nas contratações. Este é o grande desafio de Wenger.

Com o técnico no clube, é também uma forma de convencer jogadores de alto nível a irem para o Arsenal, mesmo com o time fora da Champions League. Uma mudança, com um novo técnico, traria alguma insegurança sobre o que será o time. Com a reputação de Wenger, ele pode convencer jogadores a abraçarem sua ideia de jogo, que é muito atrativa.

O maior desafio: a torcida
Torcida do Arsenal que pede que Wenger fique (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)
Há torcedores do Arsenal que querem que Wenger fique (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Os protestos contra Wenger continuarão, muito provavelmente. E por mais que haja muitos torcedores que o apoiem, até por tudo que ele fez no clube, revolucionando a história do Arsenal, os anos recentes não ajudam. Será preciso que ele mostre a ambição das palavras em campo. E, antes disso, no mercado. O tamanho das contratações já pode indicar um caminho. A aposta em jovens já não acontece mais e nem funciona tão bem quanto antes. Nada menos que o topo será aceito.

O futebol jogado será importante, mas os duelos contra os grandes times será mais ainda. A começar pela Community Shield, a Supercopa da Inglaterra, em agosto. Um time que seja capaz de enfrentar todos os rivais ingleses é o que o Arsenal espera. Um desafio muito grande para quem sempre teve todos os recursos. Veremos como será o Arsenal na próxima temporada e se a decisão de manter o técnico irá afetar negativamente ou positivamente. Por enquanto, o que fica é uma enorme nuvem de dúvidas.