Papo de Mina é um blog de esportes femininos idealizado por Lívia Camillo, feito por mulheres apaixonadas por conteúdo, esportes e que lutam pela igualdade em todas as áreas. Desde 2019 cobre as modalidades femininas, e foi o primeiro a ter setoristas dos quatro clubes paulistas. É, também, o novo parceiro da Trivela.

Por Lívia Camillo (@licamillo_), do Papo de Mina (@papomina)

Reconhecido pelo importante papel no cenário do futebol feminino brasileiro, o Iranduba, de Manaus, há tempos é considerado um modelo para a modalidade. No entanto, desde que fechou patrocínio master com a empresa de criptomoedas VeganNation, em fevereiro de 2019, a derrocada financeira do clube tem tornado sua existência quase que insustentável. Devendo mais de ano de salários para a comissão técnica e outros quatro meses para as atletas, a equipe amazonense luta para sobreviver em meio à pandemia global do novo coronavírus.

Em relatos ouvidos pelo Papo de Mina, funcionários e integrantes da equipe contam como doações de amigos e parentes foram importantes para não passarem fome.

O pesadelo do Iranduba teve início em abril de 2019, dois meses depois de assinar contrato com a patrocinadora VeganNation, que previa pagamentos em criptomoedas veganas. Apesar de ter feito o acordo consciente da forma de recebimento dos valores, a diretoria manauara recebeu a promessa de que, ainda em maio, as moedas estariam disponíveis no mercado a US$ 0,5 (meio dólar). Sem a quitação no mês previsto, outras duas datas foram prometidas sem sucesso em agosto e em novembro do mesmo ano.

A Confederação Brasileira de Futebol fez um repasse de R$ 120 mil, em abril de 2020, para os clubes masculinos das Séries C e D e para as equipes femininas que disputam as duas divisões do Brasileirão.

O objetivo da CBF era evitar colapsos financeiros em clubes de menor arrecadação com a paralisação do futebol no país. O valor não foi suficiente para quitar as dívidas acumuladas pelo Iranduba ao longo da temporada passada.

Para tentar amenizar a situação, uma vaquinha online foi organizada pela diretoria do Hulk, que tem meta de R$ 900 mil. Até o fechamento desta reportagem, R$ 4.765,96 foram arrecadados.

“Nós temos mais de três meses de atrasos com as atletas neste ano”, afirma diretor de futebol Lauro Tarantini, ao Papo de Mina. “Nós temos atletas que saíram do clube, mas que ainda estamos devendo e com a comissão técnica é desde o ano passado essa dívida”.

“Não dá para viver de um sonho”

O técnico João Carlos Cavalo abriu o jogo sobre a situação que o time e ele próprio vêm enfrentando. Dos últimos 14 meses, o treinador teve apenas um salário quitado. “Estou sem receber desde abril do ano passado. Esse ano recebemos [os funcionários] apenas no mês em que foi feito o repasse da CBF para os clubes”, revelou.

Devido ao cenário devastador da COVID-19 no Amazonas, que já fez mais de três mil vítimas no estado, Cavalo precisou “segurar a barra” com a família para passar pelo pior momento. “Tenho dois projetos de escolinha de futebol em Manaus, que já retomaram as atividades. Foi isso que me ajudou bastante”, acrescentou.

As histórias, no entanto, não param por aí. Outras conversas com funcionários da equipe alertaram para uma situação ainda mais grave. Acumulando boletos e dívidas, atletas e membros da comissão – que pediram para ter os nomes preservados – estão sobrevivendo com a ajuda de amigos e parentes que doam cestas básicas e dinheiro ou cedem moradia.

Longe das dependências do clube, as atletas ainda sofrem com a falta de uma rotina de treinos. Segundo jogadoras ouvidas, a equipe não conseguiu organizar atividades à distância, nem fez um acompanhamento próximo da situação que elas enfrentam. O resultado foi uma saída em massa do elenco. Ao todo, dez jogadoras deixaram o Iranduba.

Uma das atletas remanescentes contou para a reportagem que pensa em desistir do futebol: “Eu preciso me manter, né? Ajudar aqui em casa. Não dá para viver de um sonho, ainda mais sem receber”.

A situação complicada torna-se ainda mais assustadora com o retorno iminente do Brasileirão Feminino. O diretor de futebol Lauro Tarantini afirma que a equipe vai participar, mas ainda não sabe como suportar a estrutura sem dinheiro e que precisa “resolver muitas coisas até lá”.

A data prevista para a retomada dos treinos é dia 1 de agosto, enquanto o torneio nacional terá início no dia 26.

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