Aquela decisão segue viva na história das competições europeias. Que o Alavés não tenha levado a taça, as memórias são as melhores, pela maneira como o time encarou um gigante europeu. A decisão da Copa da Uefa de 2001, com a derrota por 5 a 4 para o Liverpool apenas no gol de ouro, marca o episódio mais digno do apelido do clube espanhol: El Glorioso. O ápice para quem passou cinco temporadas seguidas na primeira divisão espanhola, quando o normal era transitar entre os níveis inferiores. Depois disso, porém, o Alavés passou sérias dificuldades, sobretudo financeiras. Caiu à terceira divisão. E, ajudado por um dos principais dirigentes do basquete espanhol, enfim voltará a La Liga em 2016/17. Os bascos foram os primeiros a confirmar o acesso na segundona, com uma rodada de antecedência. Retornam à elite após uma espera de 10 anos.

Historicamente, o Alavés se acostumou a figurar entre a segunda e a terceira divisão. Suas aparições na elite espanhola foram raras. Três temporadas nos anos 1930 e duas nos anos 1950, até o auge na década de 1990, depois que o presidente Juan Arregui Garay mudou o destino de um clube que parecia fadado ao desaparecimento. Contudo, o intervalo entre a bonança e a tempestade foi curtíssimo. Depois da final da Copa da Uefa de 2001, os babazorros não souberam renovar o sucesso, depois de perderem seus destaques. Mesmo gastando em contratações, o time não se encaixou e acabou rebaixado em 2003. Já no ano seguinte, o controle do clube passou às mãos do empresário Dmitry Piterman. O início da pior crise da história do Glorioso.

Neste interim, o Alavés chegou a subir uma vez de volta à elite, em 2005/06, para logo cair novamente. O problema maior foram as dívidas deixadas por Piterman, em meio às trocas constantes de técnicos (chegou a cinco em apenas uma temporada) e conflitos com a torcida. O clube acabou entrando em intervenção judicial para tentar contornar os débitos, o que secou a fonte de contratações e gerou uma debandada no elenco. Assim, o descenso à terceira divisão tornou-se inescapável e se consumou em 2008/09.

Tempos melhores vieram a partir de 2011, com a chegada de Josean Querejeta, ex-jogador de basquete e presidente do Saski Baskonia (também chamado pela imprensa brasileira de Caja Laboral). Dono da equipe basca desde 1988, conquistou 13 títulos nacionais e foi duas vezes vice-campeão da Euroliga, além de rechear o elenco de craques internacionais – como Luis Scola, Andrés Nocioni, Tiago Splitter, Marcelinho Huertas e Pablo Prigioni. A experiência do novo acionista majoritário ajudou e logo o caminho do Alavés começou a clarear. Em 2013, o Glorioso voltou à segunda divisão. E, depois de duas temporadas como figurante, colocou-se a brigar pela elite nesta temporada, depois de também resolver todas as pendências financeiras com a justiça. Em uma disputa extremamente parelha na Liga Adelante, o Alavés se colocou na zona de acesso direto a partir da 16ª rodada e não saiu mais. Já no próximo final de semana, um empate já será o suficiente para também ser campeão.

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O time treinado por José Bordalás não possui grandes protagonistas, e sim um coletivo forte. Os nomes mais tarimbados são os de Gaizka Toquero e Dani Estrada, mais conhecidos pela entrega em campo do que propriamente pelo talento. Se alguém merece destaque especial, é a torcida, que costumou comparecer em bom número ao Estádio Mendizorrotza. A média foi de 11,4 mil presentes, enquanto o jogo de acesso contou com 20 mil lotando as arquibancadas. A diretoria aproveitou a aproximação com o basquete para unir os espectadores das duas modalidades. Já na festa pela volta à primeira divisão, milhares encheram as ruas de Vitoria-Gasteiz, capital da Comunidade Autônoma do País Basco.

Em 2016/17, o Campeonato Espanhol contará com quatro representantes bascos, a maior quantidade desde a década de 1930. E os vizinhos do Eibar, de certa forma, servem de exemplo para o projeto dos alviazules que se seguirá. É preciso retornar com consciência das condições financeiras, diante de tantas lições indigestas que o Alavés recebeu na última década. Desta vez, ao menos, o clube aparece muito melhor gerido. Que as glórias do basquete não se repitam em campo, elas trazem a confiança de que a permanência na elite poderá ser muito mais duradoura.