O Egito é o segundo país da África com mais casos da COVID-19 e o 24° no mundo. Mesmo com um número de testes baixíssimo, de apenas 1,3 mil a cada milhão de habitantes, a nação superou os 61 mil casos positivos e as 2,5 mil vítimas fatais. A curva de contágio segue em plena ascensão. Porém, independentemente dos riscos, o governo egípcio retoma algumas atividades. As competições esportivas ganharam permissão do estado para serem reiniciadas e o Campeonato Egípcio voltará no final de julho, com a retomada dos treinamentos nos próximos dias. Segunda maior força do país, o Zamalek anunciou que boicotará a liga.

O Campeonato Egípcio está paralisado desde março. O Ministro dos Esportes, sem avisar previamente os clubes, anunciou o retorno de todas as atividades esportivas. O governo determinou que até mesmo o campeonato de handebol, que havia decidido cancelar a temporada, terá que voltar – o país será sede da Copa do Mundo masculina da modalidade em 2021. A interferência não surpreende, considerando a falta de lisura do governo egípcio, acusado de perseguição política e de manipulação nas eleições. Após o golpe militar ocorrido em 2013, o Egito é presidido por Abdel Fattah el-Sisi, militar envolvido na derrubada do presidente Mohamed Morsi e que ganhou os dois últimos pleitos.

Clube mais popular do país, o Al-Ahly lidera o grupo favorável à volta do Campeonato Egípcio. Enquanto isso, a lista de insatisfeitos inclui 14 dos 18 times da primeira divisão, como o Ismaily e o Al-Masry. Presidente dos Zamalek, Mortada Mansour atacou a decisão do governo na Zamalek TV. Pouco depois, após consultar o técnico Patrice Carteron, ele confirmou que sua equipe não voltará à liga na data determinada pelo governo. Já nesta sexta-feira, o goleiro Mohamed Awad testou positivo para a COVID-19.

“Estou muito surpreso com o que disse o ministro, com todo o respeito. Não somos ovelhas. As decisões do futebol pertencem aos presidentes dos clubes. A decisão é nossa, não do governo. Se as decisões vieram do governo, esta é uma intervenção que recusamos. Se o Ministro quiser entregar o título ao Al-Ahly, ele deve declarar publicamente, porque eles ainda não conquistaram nenhum troféu nesta temporada. O Campeonato Egípcio não retornará. São 14 clubes contra, não jogaremos por causa de uma ou duas equipes. Não tenho problemas em dar o título ao Al-Ahly, se as regras exigirem”, afirmou Mansour.

Nos últimos meses, o Zamalek se envolveu em outros episódios intempestivos. O clube ameaçou boicotar a Supercopa Africana, que seria disputada em Doha, por conta dos conflitos diplomáticos entre Egito e Catar. No fim das contas, a equipe entrou em campo e derrotou o Espérance para levar a taça. Pouco depois, o time não compareceu ao duelo contra o Al-Ahly pelo Campeonato Egípcio. O Zamalek vencera o clássico quatro dias antes, pela Supercopa do Egito, mas Mansour declarou que os jogos eram muito próximos e relacionou uma série de jogadores da base. No fim das contas, o clube alegou um problema no ônibus e, sem chegar a tempo, a vitória foi computada aos rivais.

Até a interrupção, o Al-Ahly liderava o Campeonato Egípcio com 49 pontos, ainda invicto após 17 rodadas. O Zamalek era o quarto colocado, com 28 pontos, sofrendo ainda uma punição de três pontos pelo W.O. no dérbi. A liga tinha encerrado o primeiro turno, com toda a metade final da campanha pela frente.