A Argentina confirmou sua classificação aos Jogos Olímpicos de 2020 com certa autoridade. Depois de superar o Uruguai na estreia do quadrangular final, a Albiceleste repetiu a dose contra a Colômbia nesta quinta-feira. O triunfo por 2 a 1 parecia fácil, mas terminou cheio de tensão. Agustín Urzi abriu o placar no início do segundo tempo com um chutaço de fora da área e Nehuén Pérez ampliou de cabeça. No entanto, Edwuin Cetré descontou aos colombianos com 22 minutos, pouco antes de Urzi ser expulso. Com um a mais, os Cafeteros pressionaram muito pelo empate. Chegaram a perder um gol feito nos acréscimos, mas não conseguiram estragar a festa dos argentinos – confirmados em Tóquio e também já campeões do Pré-Olímpico.

A Argentina participará pela nona vez dos Jogos Olímpicos. E a Albiceleste possui um histórico respeitável na competição internacional: são quatro medalhas, duas de ouro e duas de prata. O primeiro sucesso veio na participação inaugural, apesar da derrota para o Uruguai na final de 1928. Já a partir dos anos 1990, com a mudança na regra dos elegíveis para absorver os jogadores sub-23 nas Olimpíadas, os argentinos apresentaram um desempenho realmente forte, com mais três pódios assegurados.

Em 1928, vale lembrar, o futebol nas Olimpíadas tinha status de “Copa do Mundo”. As seleções enviavam seus times mais fortes e a Argentina chegava referendada a Amsterdã, tentando repetir a façanha do Uruguai quatro anos antes. Campeã do Sul-Americano de 1927, que servia de classificatório, a Albiceleste tinha um elenco bastante qualificado. Ángel Bossio, Manuel Ferreira, Domingo Tarasconi, Raimundo Orsi e Luis Monti apareciam entre os figurões do time. A Argentina acumulou goleadas em sua caminhada até a final, mas perdeu o ouro em um jogo-desempate contra a Celeste – que repetiria a dose na Copa de 1930.

O retorno da Argentina aos Jogos Olímpicos aconteceu em 1960, quando conquistou o Torneio Pré-Olímpico. Em tempos nos quais apenas atletas amadores podiam ser convocados, os nomes que realmente vingariam no elenco eram Carlos Bilardo, Juan Carlos Oleniak e Alberto Rendo. E, numa edição na qual apenas o líder de cada grupo da primeira fase avançava às semifinais, os argentinos caíram logo na etapa inicial, superados pela Dinamarca. Quatro anos depois, a Albiceleste voltou para Tóquio em 1964, mas teve uma campanha ainda pior. Terminou superada por Gana e Japão em sua chave. Agustín Cejas, Roberto Perfumo, Juan Sconfianza e Miguel Marín foram os integrantes que brilhariam um pouco mais depois.

Fora do Pré-Olímpico em 1968, a Argentina não se classificou aos Jogos Olímpicos em 1972 e 1976. Já em 1980, deveria retornar às Olimpíadas após conquistar o torneio preliminar com grande campanha. Por mais que o torneio de futebol seguisse restrito aos amadores, a Albiceleste contava com um time capaz de brigar por medalhas, após seus garotos faturarem a primeira edição do Mundial Sub-20 em 1979. No entanto, os argentinos embarcaram no boicote do bloco capitalista aos Jogos de Moscou e sequer enviaram sua delegação à União Soviética.

Assim, o retorno da Argentina aconteceu apenas em 1988, com a regra que admitia jogadores profissionais – desde que atletas sul-americanos e europeus tivessem atuado menos de 90 minutos em partidas de Copa ou Eliminatórias. A Albiceleste contou com uma equipe bem mais forte, que incluía Luis Islas, Hernán Díaz, Néstor Fabbri, Hugo Pérez e Pedro Monzón – todos presentes em Mundiais posteriores. O problema seria topar com um Brasil ainda mais competitivo nas quartas de final. Geovani garantiu o triunfo por 1 a 0 à célebre equipe brasileira.

A Argentina decepcionou no Pré-Olímpico de 1992, o primeiro sob a regra sub-23. O time de Alfio Basile ficou para trás, mesmo com Diego Simeone, Diego Latorre e outros talentos que já tinham vencido a Copa América de 1991. A volta por cima aconteceu rumo a 1996. Daniel Passarella convocou uma constelação: Ayala, Chamot, Zanetti, Almeyda, Sensini, Simeone, Ortega, Gallardo, Claudio López e Crespo integravam o plantel. Os argentinos não começaram tão bem na fase de grupos, mas engrenaram nos mata-matas, com vitórias imponentes sobre Espanha (de Raúl) e Portugal (de Nuno Gomes). Na decisão em Atlanta, porém, a Nigéria aprontou. Venceu de virada por 3 a 2, com tento de Emmanuel Amuneke aos 45 do segundo tempo. A prata tinha um gosto amargo.

A Argentina voltou a se ausentar em 2000, num time treinado por José Pekerman, que tinha Aimar, Riquelme, Cambiasso, Romeo, Saviola e Gabi Milito. Já o aguardado ouro se consumou em 2004. Estrelada por Tevez e D’Alessandro, a equipe ainda contava com Mascherano, Lucho González, Saviola, Coloccini e Burdisso. Heinze, Ayala e Kily González eram os jogadores acima dos 23 anos. No fim da passagem de Marcelo Bielsa sob o comando da seleção, a Albiceleste acumulou seis vitórias em seis jogos durante a campanha, anotou 17 gols e não sofreu nenhum. Tevez marcou o gol do ouro em Atenas, com a vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai na final.

Quatro anos depois, sem o mesmo peso do ineditismo, a Argentina repetiu a dose com mais um ouro em 2008. Aqueles foram os Jogos Olímpicos de Lionel Messi, em eclosão. O timaço ainda tinha Agüero, Di María, Lavezzi, Banega, Gago, Zabaleta, Garay, Mascherano e Romero, todos capitaneados por Riquelme. Novamente com 100% de aproveitamento, a equipe viveu uma revanche na decisão, com o ouro faturado sobre a Nigéria. Contudo, a grande atuação veio mesmo nos inapeláveis 3 a 0 sobre o Brasil, durante a semifinal em Pequim.

A Argentina não disputou os Jogos de Londres, em 2012, ao não terminar entre os dois primeiros do Sul-Americano Sub-20 de 2011. Voltaria apenas em 2016, quando vários astros em atividade na Europa terminaram barrados por seus clubes. Assim, o time não pôde convocar nomes do calibre de Dybala e Icardi. A própria demissão de Tata Martino após a derrota na decisão da Copa América Centenário, às vésperas das Olimpíadas, deixou a bomba nas mãos de Julio Olarticoechea. Com Lo Celso, Correa, Pavón, Calleri, Giovanni Simeone, Cuesta e Rulli entre os chamados, a Albiceleste caiu logo na primeira fase, superada por Portugal e Honduras.

O time atual da Argentina tem condições de fazer bonito em Tóquio. Enquanto o sistema defensivo possui destaques pontuais, como o zagueiro Nehuén Pérez e o volante Nicolás Capaldo, a força dos argentinos na frente é evidente, com o quarteto composto por Adolfo Gaich, Julián Álvarez, Agustín Urzi e o camisa 10 Alexis Mac Allister – sem contar Matías Zaracho saindo do banco. O problema é ver quem estará disponível à competição, que ocorrerá no início da temporada europeia. Com Mac Allister de volta ao Brighton e outras transferências especuladas aos próximos meses, talvez parte do potencial da Albiceleste se perca. Mas, pela campanha no Pré-Olímpico, é time para voltar ao pódio.