Por Charley Moreira

Matheus Eduardo, 22 anos, é vidrado em futebol. Estudante de Jornalismo pela PUC Minas, o mineiro assiste a vários jogos por semana e os analisa em sua conta no Twitter. Com mais de 2.500 seguidores na rede social, almeja se tornar comentarista de futebol. Ele sabe que as condições do mercado são desanimadoras, mas mantém o sonho vivo. “Especialmente na esperança de que se priorize a qualidade da informação em alguns espaços”, afirma. Nos próximos meses, porém, o funil deverá ficar ainda mais estreito para garotos como Eduardo buscarem seu espaço no jornalismo esportivo.

Se nos últimos anos os meios de comunicação focaram em ex-jogadores para conseguir mais audiência, a bola da vez agora são os influenciadores digitais. Com o aumento de canais de esportes, os veículos veem nos produtores de conteúdo uma solução para chamar a atenção do público jovem. Prova disso é o DAZN, plataforma de streaming multiesportivo recém-chegada ao Brasil, que vem apostando forte em youtubers famosos para divulgar sua marca.

No Brasil desde novembro do ano passado, o serviço promove no YouTube pré-jogos com participações de membros de canais como Desimpedidos, Vosso Canal, Futirinhas, Gol Contra, F4L, Peleja, entre outros. Tudo isso na intenção de impulsionar as principais competições futebolísticas presentes em seu catálogo: Copa Sul-Americana, Serie A e Ligue 1. Além disso, o técnico José Mourinho e os astros Cristiano Ronaldo e Neymar se tornaram embaixadores globais da empresa.

Com o Desimpedidos, o DAZN foi além. A plataforma permitiu que o maior grupo de influenciadores esportivos da internet brasileira assumisse as transmissões de jogos internacionais, como Paris Saint-Germain x Bordeaux, Milan x Empoli e Napoli x Juventus. Os três jogos atraíram grande audiência – o último passou de 880 mil visualizações –, e a hashtag #DesimpedidosNoDazn bombou entre os tópicos mais comentados do Twitter.

Por isso, o DAZN anunciou, na última semana de fevereiro, que o Desimpedidos ficará encarregado de fazer os comentários das partidas da Serie A e da Ligue 1 nas redes sociais. “Trata-se de inovar a apresentação do nosso conteúdo ao vivo”, afirmou Peter Parmenter, vice-presidente sênior de desenvolvimento da empresa, durante a feira Mobile World Congress, em Barcelona. “Não se trata de influenciar os 90 minutos, mas é nosso trabalho influenciar fora disso. No DAZN, usamos os principais influenciadores locais em nossos mercados para criar conteúdo que eles sabem que os fãs vão adorar e compartilhar isso com seu público”, acrescentou.

Turma do Falha de Cobertura comandou a transmissão de Brasil x Panamá e República Tcheca x Brasil (Foto: Divulgação)

Outro veículo de comunicação que resolveu investir em youtubers foi o Grupo Globo. Comediantes do Falha de Cobertura, programa do canal TV Quase, Craque Daniel e Cerginho da Pereira Nunes fecharam acordo para assumirem as transmissões dos últimos dois amistosos do Brasil, contra Panamá e República Tcheca, pelo GloboEsporte.com. A plataforma, no entanto, não abriu mão da transmissão convencional da TV Globo, comandada pelo narrador Galvão Bueno. No início de 2018, eles já haviam comentado a Olimpíada de Inverno, em Pyeong-Chang, para o SporTV.

Assim como a parceria entre DAZN e Desimpedidos, a transmissão do Falha de Cobertura nos amistosos do Brasil foi um sucesso de audiência. Os fãs gostaram tanto que subiram a hashtag #FalhaNaSeleção para o topo dos trending topics do Twitter durante a partida contra os panamenhos. Já no segundo amistoso, a hashtag ficou em quarto lugar na rede social.

Blogueiro do GloboEsporte.com e comentarista do SporTV, Rodrigo Capelo vê como positiva a inclusão de influenciadores em transmissões de jogos de futebol. “Os veículos tradicionais precisam encontrar maneiras de atrair o público jovem”, alerta. “Essas pessoas não nasceram na era da televisão, e sim na da internet. Têm outros hábitos de consumo de informação e entretenimento. Aliar-se a determinados youtubers e influenciadores pode ser um atalho para que esses veículos cheguem lá, desde que não pareça forçado, que as parcerias façam sentido também no aspecto editorial”, completa.

A tendência é que Desimpedidos, Falha de Cobertura e outros influenciadores digitais ganhem cada vez mais espaço na mídia esportiva convencional. No entanto, até que ponto a chegada deles tira o espaço de jornalistas formados? Para Vitor Sérgio Rodrigues, comentarista do Esporte Interativo, o profissional qualificado seguirá com portas abertas no mercado, ainda que, segundo ele, haja poucas vagas disponíveis na função de comentarista.

“Acho que o bom jornalista continuará tendo espaço”, opina. “ESPN, Esporte Interativo e Fox usam, na maior parte das posições, jornalistas para comentar. Mas a questão é que há poucas posições de comentarista para muitos jornalistas capacitados”, acrescenta.

Já Rafael Oliveira, comentarista dos canais ESPN, leva o debate para outro campo: informação e conteúdo de qualidade. “Para mim, o problema está na parte da desinformação. Tanto faz a origem de quem comenta. O importante é que tenha conteúdo para agregar e analisar. Tem jornalista bom e ruim, ex-jogador bom e ruim, influenciador bom e ruim, e por aí vai. A questão principal é a escolha. Passa a me incomodar a partir do momento em que a decisão é consciente de que vai comprometer a qualidade da análise ou da informação”, argumenta.

A principal crítica feita pelo público à inserção de youtubers em transmissões futebolísticas está atrelada ao humor. Desimpedidos e Falha de Cobertura, por exemplo, fazem sucesso na internet com muita irreverência. Foi dessa maneira que alcançaram os fãs que têm hoje. E as emissoras, sedentas por audiência, também querem a atenção desses fãs. “Nos programas, até para preencher o enorme volume de horas de programação, acho positivo que exista a diversidade de estilos e perfis”, pondera Oliveira.

“Se havia muita gente incomodada com ex-jogadores que ‘tiravam’ empregos de jornalistas nos comentários de transmissões, imagine a repercussão que virá com influenciadores e comediantes”, reflete Capelo, cujas análises de negócios do esporte no GloboEsporte.com e no SporTV dificilmente contêm pitadas de humor. “Entendo que a velha guarda e a turma saudosista devam chiar muito com a iniciativa, mas, do ponto de vista comercial e de entretenimento, ela faz sentido.”

A influência do YouTube

Rafael Oliveira seguiu a dica de seus seguidores e criou um canal no YouTube (Foto: Reprodução/canal Rafael Oliveira)

O YouTube foi a principal porta de entrada para muitos influenciadores que hoje fazem sucesso nas mídias digitais. A partir de um canal de sucesso, os youtubers conseguem atrair o que os veículos convencionais mais buscam atualmente: audiência (fãs cativos) e patrocínio (dinheiro). Com certo atraso, os meios de comunicação tradicionais se remodelam para se adaptar a essa nova era. O mesmo acontece com os jornalistas.

Desde o final de 2018, alguns comentaristas dos principais canais de esportes da TV fechada resolveram abrir canais no YouTube. É o caso de Bruno Formiga (Esporte Interativo), Leonardo Bertozzi (ESPN Brasil) e Rafael Oliveira (ESPN Brasil). Eles se juntaram a, entre outros, Mauro Cezar Pereira (ESPN Brasil) e Vitor Sérgio Rodrigues (Esporte Interativo), que passaram a publicar vídeos com mais regularidade. Na plataforma, eles abordam temas que vão além das pautas dos programas de TV e, obviamente, alcançam uma nova leva de fãs.

“Confesso que entrei por sugestão de vários seguidores que me fizeram perceber que já é um novo caminho a ser observado”, afirma Oliveira. “O YouTube já é uma realidade e as pessoas passam horas no site, dispostas a ver cada vez mais tempo dos assuntos que gostam. Acho legal ver que existe um público interessado e bastante específico para diversos temas. Sim, é um olhar para o futuro da comunicação, mesmo não sabendo qual é exatamente ou quanto tempo vai levar a transformação”, completa.

Rodrigues, por sua vez, explica que idealizou seu canal no YouTube, após o Esporte Interativo encerrarem as atividades, visando evitar o ostracismo. “Eu criei por dois motivos básicos: um é que, com o fim dos canais Esporte Interativo, eu só teria um programa por dia – em que não sou escalado todos os dias – para ‘falar’ com o público. É pouco. Não podia correr o risco de ‘ser esquecido’. O outro é que o YouTube e a internet são o futuro da nossa profissão. Logo, não é inteligente estar fora dali”, avisa.

O que nos aguarda?

Antes de sonhar em ser comentarista, seja um bom jornalista, diz Vitor Sérgio Rodrigues (Foto: Reprodução/Twitter @vitorsergio)

O futuro da comunicação é uma incógnita. Podcasts estão pipocando para todos os lados, sites de jornalismo independente ganham cada vez mais relevância, serviços de streaming vêm adquirindo direitos de várias competições futebolísticas. Para Rodrigo Capelo, os próximos dez anos serão de muita inconstância no mercado.

“Aguardo por uma década de transição, altamente instável, em que veículos tradicionais [emissoras de televisão] tentarão novos modelos de negócios para manter mercado no esporte, ao mesmo tempo em que players novos aparecerão e causarão algum tipo de rearranjo neste mercado. Vamos acompanhar para saber onde tudo isso vai dar”, observa.

Tendo em vista a grande audiência dos influenciadores digitais atualmente, seria correto especular que a próxima remessa de comentaristas de futebol deverá vir do YouTube ou de plataformas de vídeo ou áudio sob demanda? “Sinceramente, não sei. Depende da prioridade de cada empresa”, afirma Rafael Oliveira, que destaca o bom momento de conteúdo gerado nas mídias sociais.

“O que tenho certeza é que há muito material de qualidade sendo produzido na internet. Se existisse um cuidado em garimpar talentos para a área, o resultado seria excelente nessas plataformas. Agora, se o olhar for para o lado midiático, buscando audiência pela audiência com personagens polêmicos, o conteúdo geralmente fica em segundo lugar”, afirma.

Matheus Eduardo, o estudante de Jornalismo e amante de futebol mencionado no início desta matéria, entende que é necessário ganhar “voz” se quiser alcançar seu sonho. Por isso, além de alimentar seu Twitter diariamente com análises futebolística, ele produz conteúdo, esporadicamente, para sites independentes como Calciopédia, Footure FC e MW Futebol.

Vitor Sérgio Rodrigues tem um conselho para jovens como Eduardo: “A primeira coisa que digo é que pense em ser um bom jornalista, um bom repórter, antes de sonhar ser comentarista. As pessoas costumam ter um glamour por ser comentarista, mas, na prática, o que vai diferenciar o que ‘eu acho’ do que ‘você acha’ é a minha capacidade de defender a minha opinião, argumentando baseado em informações e dados. Um jornalista não deveria defender sua opinião com ‘é minha opinião e pronto’.”

Eduardo e outros aspirantes a narradores, comentaristas e repórteres sabem que é árdua a caminhada até encontrar espaço na área. Com a presença dos influenciadores, a concorrência e exigência aumentaram. Saber dialogar com diversos públicos, seja na TV ou na internet, torna-se indispensável. Mas o que não pode faltar, na visão de Oliveira, é amor pela função. “É preciso ter a consciência de que será necessário fazer diversos sacrifícios e, até por isso, considero fundamental ser realmente apaixonado pela coisa”, conclui.