Na Alemanha, é relativamente comum que os principais clubes do país apoiem os menores através de amistosos. Há exemplos costumeiros de equipes que se disponibilizam para um jogo amigável, em que a renda termina revertida a alguma necessidade urgente dos desafiantes. E dois grandes exemplos aconteceram nos últimos dias, indicando o senso coletivo que ainda prevalece no futebol do país. Graças à renda de um jogo contra o Bayern de Munique, o tradicionalíssimo Kaiserslautern conseguiu bancar a licença para disputar a terceira divisão na próxima temporada, em um momento de grave crise financeira. Enquanto isso, o Eintracht Frankfurt ajudará o Chemie Leipzig a melhorar o seu estádio, com o dinheiro a ser arrecadado durante duelo em setembro. Atitudes exemplares.

O amistoso entre Bayern de Munique e Kaiserslautern já aconteceu. Na última semana, as duas equipes se encontraram no Estádio Fritz Walter. O jogo beneficente, desde o princípio, tinha o claro intuito de arrecadar dinheiro para que os anfitriões pagassem sua licença. “O Kaiserslautern é um dos maiores clubes da Alemanha. As partidas do Bayern em Kaiserslautern sempre foram emocionantes e cheias de rivalidade, mas também eram sobre solidariedade. Por isso ficamos felizes em ajudar e esperamos que o Kaiserslautern conquiste o retorno à Bundesliga em breve”, declarou Karl-Heinz Rummenigge, presidente do Bayern. Quem amarrou o amistoso foi Hans-Peter Briegel, antigo ídolo dos Diabos Vermelhos, que foi companheiro de Rummenigge na seleção.

Ao longo dos últimos 15 anos, o Bayern disputou amistosos beneficentes contra diferentes clubes das divisões de acesso da Alemanha – incluindo Union Berlim, St. Pauli e Kickers Offenbach. O intuito principal dos bávaros é justamente apoiar as finanças, ajudando a cobrir dívidas e a bancar licenças das ligas locais. O empate por 1 a 1 no Estádio Fritz Walter foi o de menos, em ocasião na qual algum dos principais jogadores dos bávaros estiveram em campo, em uma data na qual já poderiam estar de férias – incluindo Franck Ribéry, em sua despedida definitiva da agremiação. Mais importante é que quase 50 mil torcedores compareceram às arquibancadas, rendendo os €750 mil necessários para bancar a licença da terceirona. O boleto foi pago nesta semana, com o sinal verde da liga aos gigantes adormecidos.

Rebaixado na segunda divisão durante a temporada 2017/18, o Kaiserslautern sofre com as mazelas financeiras. O time foi apenas o nono colocado na terceira divisão, passando longe de brigar pelo acesso. Boa parte do elenco foi renovada, para reduzir a folha salarial, e o clube ainda comprometeu suas contas com empréstimos firmados anteriormente, incluindo aí um financiamento coletivo firmado com os próprios torcedores. E por mais que a média de público tenha se mantido em 22 mil, apesar do descenso, os €3 milhões de aluguel pagos ao consórcio que o administra o estádio representam um pesado ônus.

Durante os últimos meses, o Kaiserslautern procurava novos meios de arrecadar dinheiro, enquanto a prefeitura da cidade também buscava um comprador ao estádio. Em meados de maio, os Diabos Vermelhos anunciaram um novo investidor. Magnata do ramo imobiliário, o luxemburguês Flavio Becca indicou um investimento de €25 milhões nos próximos cinco anos, além de adquirir o Estádio Fritz Walter. Diante do risco de falência, as promessas foram bem recebidas em Kaiserslautern. Todavia, o empresário é investigado por lavagem de dinheiro em seu país, o que cria interrogações sobre sua aproximação. Cenas para os próximos capítulos, enquanto o gigante tenta se reerguer.

O Eintracht Frankfurt, por sua vez, fortalece outro time tradicional. Se a situação do Chemie Leipzig não é tão dramática quanto a do Kaiserslautern, o clube se acostumou a passar longe do protagonismo nas últimas décadas. Segunda força de Leipzig nos tempos de Oberliga, o Chemie chegou a conquistar o título alemão-oriental em duas oportunidades nas décadas de 1950 e 1960. Após a reunificação alemã, o então renomeado Sachsen Leipzig sofreu para se firmar, falindo em 1997. Assim, um grupo de torcedores resolveu fundar uma nova agremiação com o nome de Chemie. Reivindicavam não apenas a história do clube, como também sua postura antifascista e antiautoritária. Diante da presença de movimentos neonazistas e violentos que se alastravam nas partidas do Sachsen, o novo time representava um rompimento.

O Chemie chegou a falir no final da década passada, mas tem experimentado seu crescimento desde a recuperação financeira. Conquistou o acesso inédito à quarta divisão em 2016/17 e, apesar do rebaixamento na temporada passada, voltou a subir ao quarto nível nas últimas semanas. Um passo a mais seria melhorar as estruturas do Alfred-Kunze-Sportpark, histórico estádio de Leipzig, inaugurado em 1915. E quem saiu em apoio da equipe foi o Eintracht Frankfurt, próximo dos pequenos principalmente pela ideologia entre suas torcidas. Assim, o amistoso acontecerá no próximo mês de setembro.

A partida entre Eintracht Frankfurt e Chemie Leipzig ocorrerá na PSD Bank Arena, estádio do FSV Frankfurt – segundo time da cidade, que também milita na quarta divisão. A intenção é arrecadar fundos para o Chemie melhorar o sistema de iluminação de sua casa, algo que parece simples em um futebol de bilhões, mas que representa um significado além do futebol. Quem sabe, para que o Chemie represente Leipzig além das divisões regionalizadas e deem novas perspectivas à região. Na quarta divisão, reeditará o clássico com o histórico rival Lokomotive.