Com 62 jogadores franceses, a Copa Africana também sentirá o impacto dos ataques em Paris

A França é o berço de 62 jogadores da CAN, que também entram no debate sobre imigrantes e muçulmanos que vem causando convulsões sociais no país

A Copa Africana de Nações inicia mais uma edição em meio às turbulências vividas no continente. A epidemia de Ebola vivida na costa oeste provocou a mudança de sede em novembro, depois que o Marrocos desistiu de receber a competição, substituído por Guiné Equatorial. Já os atentados do grupo Boko Haram na Nigéria, que teriam matado duas mil pessoas nos últimos dias, também deixam a organização em alerta – ainda que os nigerianos não tenham se classificado para a competição. E, não bastassem os próprios problemas da África, um grande contingente de jogadores também deve estar preocupado com as repercussões do ataque ao Charlie Hebdo na França.

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O futebol francês cedeu mais jogadores do que qualquer outro país para a CAN, somando 70 convocados no torneio – seguido de longe pelo espanhol (26), sul-africano (22), inglês (21) e belga (21). A ligação dos atletas com a França, no entanto, vai muito além do mero vínculo clubístico. Afinal, a antiga metrópole teve participação ativa na colonização da África, da mesma forma como serviu de caminho inverso para os imigrantes que buscavam fugir das mazelas africanas. Um fluxo claro na certidão de nascimento de seus descendentes: 62 jogadores que disputarão a Copa Africana nasceram no território francês, o suficiente para montar quase três seleções.

Ao todo, 12 das 16 equipes da CAN possuem atletas franceses. Muitos que sequer moraram no país de seus ascendentes, embora respeitem os laços sanguíneos. A presença mais marcante acontece na Argélia, o país onde a colonização francesa possui marcas mais profundas: são 15 estrangeiros no elenco, incluindo alguns dos destaques da equipe, como Brahimi e Feghouli. Já Paris é a cidade de origem que mais se repete, berço de 10 atletas, distribuídos por cinco seleções diferentes.

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Se a França campeã mundial de 1998 se construiu a partir do momento em que a seleção assumiu sua multinacionalidade, o bom trabalho de formação da Ligue 1 serve de base de desenvolvimento para o futebol africano. Mas os jogadores não estão integrados apenas no contexto esportivo da sociedade francesa. Todos eles compõem a massa afrodescendente, que sofreu décadas de preconceito e marginalização. E a maioria ainda se insere na comunidade muçulmana, centro do debate após o ataque ao Charlie Hebdo e que, apesar da relativização do contexto pela maioria, começa a sofrer perseguição da extrema direita do país.

charlie

Um exemplo que representa bem essa relação é o de Abdelhamid El Kaoutari. Nascido em Montpellier, o defensor provavelmente disputaria a Copa Africana se Marrocos não tivesse desistido de sediá-la. Nascido também em Montpellier, contudo, o jogador preferiu não abraçar as manifestações de apoio ao Charlie Hebdo durante a última rodada da Ligue 1. “Eu não gosto de misturar política e esporte”, declarou, após usar um agasalho por cima da camisa com a mensagem ‘Je Suis Charlie’. Em contrapartida, outros jogadores africanos vestiram a camisa na mesma ocasião, como Souleymane Camara, Jacques Romao, Brice Djá-Djédjé e Steve Mandanda – que, apesar de defender a seleção francesa, nasceu na República Democrática do Congo e possui um irmão convocado para a CAN.

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Da mesma forma, muitos jogadores não defendem a postura do Charlie Hebdo, por mais que condenem o atentado em Paris. Principal nome do futebol africano na atualidade, Yaya Touré está entre eles: “Nós sabemos que o jornal falava muito sobre os muçulmanos, e em algumas vezes faltavam com o respeito. Todo mundo tem um ponto de vista. Lógico, o jornal queria dizer algo. Mas às vezes feria as pessoas”, afirmou. “Quando você ouve uma notícia dessas, fica muito desapontado. Lamento muito pelas famílias, que perderam gente querida. Eu tenho amigos em Paris e você fica confuso, com medo. Como muçulmanos, me preocupo com o que acontecerá com eles”.

O debate sobre o Charlie Hebdo talvez não chegue aos gramados, ainda que alguns franceses (sobretudo, um dos cinco treinadores) carreguem mensagens. Nos bastidores, todavia, a situação no país deverá pautar muitas conversas sobre jogadores. Esta na gênese da Copa Africana de Nações a sua veia política, em busca da afirmação nacional dos países do continente. E, por mais que as convulsões sociais aconteçam do outro lado do Mediterrâneo, afetam diretamente os africanos. Afinal, as liberdades de imigrantes e descendentes também estão em jogo, em uma crise que coloca em risco a afirmação de seus direitos na França.

Conheça os destaques franceses de cada seleção da CAN
Jogador por jogador, os 62 franceses da Copa Africana

Steeve Yago, Burkina Faso – Defensor do Toulouse nascido em Sarcelles

Johanm Obian, Gabão – Defensor do Chateauroux nascido em Le Blanc
Lloyd Palun, Gabão – Meio-campista do Nice nascido em Arles
Anthony Mfa Mezui, Gabão – Goleiro do Metz nascido em Beauvais
Pierre-Emerick Aubameyang, Gabão – Atacante do Borussia Dortmund-ALE nascido em Laval

Christoffer Mafoumbi, Congo – Goleiro do Le Pontet nascido em Roubaix
Francis N’Ganga, Congo – Defensor do Charleroi nascido em Poitiers
Arnold Bouka Moutou, Congo – Defensor do Angers nascido em Reims
Prince Oniangue, Congo – Defensor do Reims nascido em Paris
Thievy Bifouma, Congo – Atacante do Almería-ESP nascido em Saint-Denis
Chris Malonga, Congo – Meio-campista do Vitória de Guimarães nascido em Sens
Marvin Baudry, Congo – Meio-campista do Amiens nascido em Reims
Dominique Malonga, Congo – Atacante do Hibernian-ESC nascido em Châtenay-Malabry

Syam Ben Youssef, Tunísia – Defensor do Astra Giurgiu-ROM nascido em Marselha
Bilel Mohsni, Tunísia – Defensor do Rangers-ESC nascido em Paris
Hocine Ragued, Tunísia – Meio-campista do Karabükspor-TUR nascido em Paris
Stéphane Nater, Tunísia – Meio-campista do Club Africain-TUN nascido em Troyes
Wahbi Khazri, Tunísia – Meio-campista do Bordeaux nascido em Ajaccio
Jamel Saihi, Tunísia – Meio-campista do Montpellier nascido em Montpellier
Selim Ben Djemia, Tunísia – Defensor do Laval nascido em Thiais

Neeskens Kebano, RD Congo – Meio-campista do Charleroi nascido em Montereau
Yannick Bolasie, RD Congo – Atacante do Crystal Palace-ING nascido em Lyon
Parfait Mandanda, RD Congo – Goleiro do Charlerou nascido em Nevers
Christopher Oualembo, RD Congo – Defensor da Acadêmica-POR nascido em Saint-Germain

Jordan Ayew, Gana – Atacante do Lorient nascido em Marselha
André Ayew, Gana – Atacante do Olympique de Marseille nascido em Seclin

Madjid Bougherra, Argélia – Defensor do Al-Fujairah-EAU nascido em Longvic
Faouzi Ghoulam, Argélia – Defensor do Napoli-ITA nascido em Saint-Priest-en-Jarez
Liassine Cadamuro, Argélia – Defensor do Osasuna-ESP nascido em Toulouse
Riyad Mahre, Argélia – Meio-campista do Leicester-ING nascido em Sarcelles
Mehdi Lacen, Argélia – Meio-campista do Getafe-ESP nascido em Paris
Yacine Brahimi, Argélia – Meio-campista do Porto-POR nascido em Paris
Carl Medjani, Argélia – Defensor do Trabzonspor-TUR nascido em Lyon
Nabil Bentaleb, Argélia – Meio-campista do Tottenham-ING nascido em Lille
Foued Kadir, Argélia – Meio-campista do Betis-ESP nascido em Martigues
Saphir Taïder, Argélia – Meio-campista do Sassuolo-ITA nascido em Castres
Aïssa Mandi, Argélia – Defensor do Reims nascido em Châlons-en-Champagne
Ahmed Kashi, Argélia – Meio-campista do Metz nascido em Aubervilliers
Mehdi Zeffane, Argélia – Defensor do Lyon nascido em Saint-Foy-lès-Lyon
Raïs M’Bolhi, Argélia – Goleiro do Philadelphia Union-EUA nascido em Paris
Sofiane Feghouli, Argélia – Meio-campista do Valencia-ESP nascido em Levallois-Perret

Alfred N’Diaye, Senegal – Meio-campista do Betis-ESP nascido em Paris
Ludovic Sané, Senegal – Defensor do Bordeaux nascido em Villeneuve-sur-Lot
Moussa Sow, Senegal – Atacante do Fenerbahçe-TUR nascido em Mantes-la-Jolie
Cheikh M’Bengue, Senegal – Defensor do Rennes-FRA nascido em Toulouse
Salif Sané, Senegal – Defensor do Hannover-ALE nascido em Lormont
Lamine Gassama, Senegal – Defensor do Lorient nascido em Marselha

Jean Daniel Akpa-Akpro, Costa do Marfim – Defensor do Toulouse nascido em Toulouse

Fousseni Diawara, Mali – Defensor do Tours nascido em Paris
Tongo Doumbia, Mali – Meio-campista do Toulouse nascido em Vernon
Mustapha Yatabaré, Mali – Atacante do Trabzonspor-TUR nascido em Beauvais
Yacouba Sylla, Mali – Meio-campista do Erciyesspor-TUR nascido em Étampes
Bakary Sako, Mali – Meio-campista do Wolverhampton-ING nascido em Paris
Sigamary Diarra, Mali – Meio-campista do Valenciennes nascido em Villepinte
Ousmane Coulibaly, Mali – Defensor do Platanias-GRE nascido em Paris
Sambou Yatabaré, Mali – Meio-campista do Guingamp-FRA nascido em Beauvais
Molla Wagué, Mali – Defensor da Udinese-ITA nascido em Verdon
Abdoulay Diaby, Mali – Meio-campista do Mouscron-Péruwelz-BEL nascido em Nanterre

Raoul Loé, Camarões – Meio-campista do Osasuna-ESP nascido em Courbevoie

Kévin Constant, Guiné – Meio-campista do Trabzonspor-TUR nascido em Fréjus
Baissama Sankoh, Guiné – Defensor do Guingamp nascido em Nogent-sur-Marne
Ibrahima Traoré, Guiné – Atacante do Borussia Mönchengladbach-ALE nascido em Villepinte