O Manchester United ainda tenta entender o que (não) acontece com sua equipe nas últimas semanas. A eliminação na Liga dos Campeões é uma face exposta, mas bem menos custosa do que o declínio alarmante vivido na Premier League. A febre provocada por Ole Gunnar Solskjaer ao substituir José Mourinho, ao que parece, acabou. E o que se vê é uma equipe emendando resultados ruins, permitindo que os concorrentes pelo G-4 se distanciem. Se recentemente o treinador cobrou um “choque de realidade” a alguns jogadores, ele veio da maneira mais vexatória neste domingo. Os Red Devils não mediram a importância do duelo contra o Everton no Goodison Park. Foram engolidos por um adversário de temporada cambaleante, embora em ascensão. O placar indica um 4 a 0 inapelável aos Toffees, em atuação inspirada de seus maiores talentos, que abala os mancunianos justamente às vésperas do dérbi. Apatia é a palavra.

Águas passadas contra o Barcelona, este era o momento para o Manchester United voltar a se concentrar na Premier League. Ainda há uma vaga à próxima Champions em disputa. Solskjaer escalou um time sem poupar forças e a esperança era de que os visitantes aproveitassem a oportunidade, apesar das dificuldades. Mas os papéis se inverteram. Os Red Devils tiveram uma postura frouxa durante os 90 minutos, desleixada, sem ímpeto. Quando viram, a reação já parecia complicada demais. Acabaram deixando se levar por uma goleada trucidante, que confere um pouco mais de orgulho aos Toffees após tantas decepções na campanha.

Vale dizer que, se há incompetência de um lado, os méritos sobram ao Everton. O Manchester United não jogou o que poderia e isso é um problema a resolverem nos vestiários. Mas não se nega que os Toffees fizeram o que se espera, com a objetividade necessária e confiando nas muitas individualidades que têm em mãos. Um retrato disso aconteceu logo aos 13 minutos, no gol que abriu o placar. Um golaço de Richarlison, que reforça sua idolatria no Goodison Park. A partir de um lateral longo, Dominic Calvert-Lewin desviou de cabeça e o brasileiro apareceu para completar. Acertou uma belíssima acrobacia, uma meia-bicicleta indefensável para David de Gea. E já um baque enorme aos mancunianos.

O Manchester United acordaria depois disso, certo? Não foi o que aconteceu. O Everton tinha a iniciativa desde os primeiros minutos. Continuou assim, contra um oponente limitado a assistir ao duelo em posição privilegiada. Os Toffees exploravam bastante as bolas paradas e os cruzamentos na área. Escanteios surgiam aos montes. Colocavam as costas dos visitantes contra a parede. Pior, os Red Devils nem conseguiam encaixar os contra-ataques, com Marcus Rashford aparecendo vez ou outra. O segundo gol dos azuis parecia não tardar e ele aconteceu aos 28, curiosamente em um contra-ataque. O escanteio foi do outro lado, mas os anfitriões arrancaram de maneira fulminante. Gylfi Sigurdsson recebeu na intermediária, abriu espaço e soltou uma bomba no canto de De Gea. Era um futebol ofensivo e em alta rotação, como esperava-se ver exatamente do outro lado.

Ao final do primeiro tempo, o Everton diminuiu o seu ritmo e desfrutou a vantagem. Nem mesmo a bronca de Solskjaer no intervalo ou as mudanças na equipe melhoraram a situação. O Everton ainda perdeu Richarlison, que sentiu lesão na etapa inicial e pediu para sair logo no início do segundo tempo. Apesar da boa atuação do brasileiro, os Toffees já anotaram o terceiro na sequência. Prêmio a outro bom jogador da equipe, Lucas Digne. A zaga mancuniana afastou o cruzamento no primeiro momento, mas não evitou que o lateral acertasse um lindo chute da entrada da área, de bate-pronto. E como se desgraça pouca fosse bobagem, aos 18 minutos já saiu o quarto gol. Novo ataque veloz, para Theo Walcott resolver. O abatimento dos Red Devils era expresso por seus torcedores. O time até tentou se postar um pouco mais no campo de ataque durante os minutos finais, mas nada salvaria sua honra. A vergonha estava estabelecida e a meia hora final serviu apenas para os visitantes refletirem sobre a sua humilhação em Goodison Park.

Este é o tipo de resultado que possui um impacto anímico maior do que na tabela. O Everton se motiva ainda mais, depois das vitórias recentes sobre Chelsea e Arsenal. Mas também reflete por que esta fluidez não veio antes, atravancando a participação na Premier League. Ao menos o clube ocupa a sétima colocação, com 49 pontos, e ainda pode brigar por uma vaga na Liga Europa. Indo além dos tentos, Sigurdsson e Idrissa Gueye merecem elogios específicos pela maneira como impulsionaram os anfitriões. Já o Manchester United terá poucos dias para se reerguer da lona. Com 64 pontos, ocupa a sexta colocação. Seca Arsenal e Chelsea, dois pontos à frente, e ao menos se alivia com a derrota do Tottenham, que soma 67. De qualquer maneira, precisa se preocupar com seu futuro. Na quarta-feira, pega o Manchester City em Old Trafford. Outra goleada teria contornos catastróficos. E, no domingo, o desafio em casa é o próprio Chelsea, em confronto direto pela Champions. Se há um lado bom em tudo isso, é que a chacoalhada veio em um momento “aceitável”. Resta saber como será a reação, algo que precisava ser instantâneo neste domingo.