Gales é um país com jogadores históricos e campeões. Ian Rush, Ryan Giggs e Gareth Bale já levantaram a famosa taça da Champions League. O último deles tenta a sua terceira conquista neste sábado pelo Real Madrid. É o maior ídolo de um país que anda empolgado com futebol, especialmente pelo ótimo desempenho da seleção nacional na Eurocopa de 2016. Mas esta é uma realidade que contrasta com a sua liga nacional. Os clubes da liga galesa passam longe de ter tanto sucesso em termos internacionais. Nenhum clube galês conseguiu jamais chegar à fase de grupos da Champions League em toda a história.

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Para começar, os melhores clubes de Gales jogam na liga da Inglaterra. Seis clubes do país jogam na liga inglesa, incluindo o principal time da cidade da final: o Cardiff City, atualmente na segunda divisão. O Swansea é o único galês atualmente na primeira divisão inglesa. Os times que jogam na Inglaterra e suas divisões são: Swansea City (Premier League), Cardiff City (2ª divisão), Newport County (4ª divisão), Wrexham (5ª divisão), Merthyr Town (7ª divisão) e Colwyn Bay (8ª divisão).

A liga local é a Welsh Premier League. O principal time da liga nos últimos anos é o The New Saints, também chamado de TNS. É o maior campeão do país com 11 títulos e é o atual hexacampeão. O clube dominante do país manda seus jogos… Na Inglaterra. Sim, é isso mesmo: o The New Saints é um time que manda seus jogos na Inglaterra. Mas há uma explicação para isso.

O atual The New Saints é resultado da fusão de dois times. O Llansantffraid, de cidade homônima, foi fundado em 1959 e, de 1997 a 2006, foi chamado de Total Network Solutions por ter sido comprado por empresa de mesmo nome. Fica na divisa com a Inglaterra. Em 2003, este clube se fundiu com o  Oswestry Town, cidade a oito milhas de distância. Os jogos do clube acontecem do lado inglês, onde o estádio é maior: portentosos 2.034 lugares, sendo 1.034 sentados.

O TNS é o representante do país na Champions League. Só que em termos de Europa, a liga de Gales é minúscula. Entre os 55 países que participam da Champions League, Gales é o 51º no ranking, à frente apenas de Ilhas Faroe, Gibraltar (que disputou apenas três temporadas desde que foi aceito na Uefa), Andorra, San Marino e Kosovo (que disputará a sua primeira temporada em 2017/18).

Por ter um ranking tão baixo, os times galeses iniciam sua campanha nas competições europeias na primeira fase preliminar. Na Champions League, a disputa começa cedo. Em 2016/17, os jogos de ida são nos dias 27 ou 28 de junho (com a volta nos dias 4 ou 5 de julho). Isso mesmo: muito antes dos times das principais ligas voltaram das férias já tem jogo da Champions League.

Os galeses possuem um ranking baixo justamente porque não conseguem ir muito longe. O melhor resultado já conseguido por um clube galês na Champions League foi chegar à terceira fase preliminar. Foi em 2010/11, quando justamente o The New Saints, que começou a disputa na segunda fase preliminar.

O time de Gales conseguiu superar o Bohemians, da Irlanda. Depois de perder por 1 a 0 fora de casa, os galeses golearam por 4 a 0 e avançaram. Na terceira fase preliminar, porém, o adversário tinha muito mais peso: o Anderlecht, da Bélgica. Em casa, derrota por 3 a 1 diante dos belgas. Fora de casa, 3 a 0 para o adversário.

O futebol galês também esteve no holofote na Champions League 2005/06. O Liverpool, campeão na temporada anterior, não tinha vaga garantida, segundo as regras, porque tinha ficado em quinto colocado na Premier League – a quarta vaga tinha ficado com o Everton, rival da cidade. No fim, o Liverpool teve que disputar todas as fases preliminares, a começar pela primeira. E enfrentou justamente o TNS (na época, ainda Total Network Solutions). Os ingleses venceram os dois jogos para avançarem.

Com uma liga tão pequena, pode haver o questionamento de por que, então, os galeses não se incorporam de vez ao sistema inglês. Há uma razão administrativa: Gales precisa ter uma liga local profissional para justificar a sua presença como seleção. Em 1992, quando a liga local foi criada, havia países que questionavam o fato de Gales ter permissão para uma seleção, embora fosse incorporado ao futebol inglês. Mas de alguns anos para cá, a liga galesa tem conseguido alguns pequenos avanços.

A federação de futebol de Gales, FAW, diminuiu o número de clubes de 18 para 12 em 2010 para ajudar a aumentar a qualidade geral. Também passou a fazer investimentos para criação de campos de futebol pelo país, especialmente no norte. Há duas razões para isso.

A primeira é que nove dos 12 clubes da primeira divisão ficam nessa região. Segundo porque o sul é amplamente dominado pelo rúgbi, o esporte preferido de cidades como Cardiff. O que faz com que o futebol consiga uma boa atenção nessas regiões é justamente o bom desempenho de clubes como Swansea e Cardiff, ambos do sul.

A segunda é que o norte do país tem um clima muito mais frio, o que torna a prática do futebol mais difícil. Por isso o investimento da federação em tornar todos os campo sintéticos, além de campo para prática do esporte além do circuito profissional. Assim, a federação espera, futebol pode continuar sendo praticado e incentivado durante um período maior do ano. Com crianças se interessando pela prática do esporte, a intenção é ganhar na formação de jogadores e também de torcedores que assistiam aos times locais – a média de público é de 350 pessoas por jogo na Premier League Galesa.

A federação galesa até tentou fazer algo parecido com o que o Canadá faz: criar uma Copa de Gales com a participação dos times que estão na estrutura inglesa, com o prêmio de uma vaga na Liga Europa. A Uefa não aprovou. Permitiu que os galeses do sistema inglês disputem competições internacionais, mas, para todos os efeitos, competem como clubes ingleses.

O jogo que os galeses verão neste dia 3 de junho pela final da Champions League é uma realidade absolutamente distante do que a liga galesa vive. E não há uma perspectiva de ver um time galês disputando posições na Champions League tão cedo – a não ser que vá representando a Premier League inglesa.

Na liga local, os times são majoritariamente amadores. O The New Saints estabeleceu uma dominância local justamente por ser o único a conseguir manter um time inteiro de profissionais. Há quem diga que o time tem o nível de Confederence (quinta divisão inglesa). Muito longe do glamour e do alto nível que se espera de uma final de Champions League como haverá no estádio Millennial.