O futebol europeu vem apontando para mudanças profundas em sua geografia. Os territórios nacionais muitas vezes se mostram insuficientes para a competitividade e os anseios de alguns clubes. A partir da década de 1990, em um momento no qual as fronteiras no continente se multiplicavam, o esporte sofria o impacto direto de uma nova era na sociedade como um todo. Sobretudo, em cima dos antigos integrantes da chamada ‘Cortina de Ferro’. Os conflitos internos, o fim do apoio estatal e a Lei Bosman intensificaram a debandada de talentos para as principais ligas. Criaram-se grandes hegemonias, apesar do abismo aos times ocidentais. E o médio prazo não se mostra nada promissor, com a Liga dos Campeões relegando as ligas periféricas cada vez mais a um segundo plano.

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Diante do cenário, os clubes tomam as rédeas. E a ideia de um campeonato supranacional no Leste Europeu cada vez mais ganha forças. Não é só lá que o debate acontece: nos arredores do Mar do Norte, já começaram a se agrupar escoceses, belgas, holandeses, suecos, noruegueses e dinamarqueses. Entretanto, o plano destes visa uma liga para o fim do próximo contrato trienal de TV da Champions, que vigora até 2021. Nos Bálcãs, o imediatismo é maior. Componentes de vários países que compunham a antiga Iugoslávia querem uma nova copa além das fronteiras para setembro de 2018, correndo paralela a suas ligas nacionais.

Nas últimas semanas, o diretor da liga macedônia, Vasko Dojcinovski, realizou uma apresentação à Uefa, explicando o formato do novo torneio. A iniciativa teria agradado a entidade continental, atualmente presidida por Aleksander Čeferin, ex-dirigente da federação eslovena. O campeonato envolveria 24 clubes “iugoslavos”, de Sérvia, Croácia, Bósnia, Eslovênia e Macedônia – a exceção fica a Montenegro e ao não reconhecido Kosovo. Esses times se dividiriam em seis grupos de quatro, com a realização de um mata-mata na sequência.

Obviamente, a segurança é uma questão séria a ser discutida. Não apenas pelas intricadas relações diplomáticas e pelas divisões (étnicas, religiosas) que imperam na região, mas também pelo histórico de hooliganismo tão comum entre os ultras dos Bálcãs. Apesar disso, a Uefa estaria disposta a incentivar a competição, direcionando recursos financeiros para a iniciativa. Além disso, os clubes desejam que o novo campeonato garanta uma vaga ao campeão na Liga dos Campeões e ao vice na Liga Europa.

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Em diferentes aspectos, a ideia se mostra interessante: é uma maneira de movimentar dinheiro e criar oportunidades comerciais aos clubes; também ajuda a reforçar os laços entre países que, querendo ou não, possuem um largo histórico em comum no futebol; potencializa a capacidade dos representantes da região na Champions. O campeonato não significa necessariamente a morte das ligas nacionais ou o desinteresse às competições continentais, mas sim uma alternativa para revigorar as equipes locais.

A reorganização do calendário será um ponto importante, especialmente quando se leva em conta o inverno rigoroso na região. As primeiras notícias falam que o torneio começará a ser disputado em setembro. O planejamento precisa ser minucioso para que não ocorra o mesmo que se passou com a antiga Liga Real, copa que envolvia times escandinavos, mas não durou mais do que três anos. A princípio, o projeto iugoslavo possui mais chances de emplacar. Afinal, diante das perspectivas pequenas ao presente, qualquer inovação representa um grande passo.