Entrar em campo de mãos dadas com algum ídolo do seu time ou com algum craque do futebol mundial é o sonho de qualquer criança. Na Premier League, porém, a participação de meninos e meninas durante a cerimônia de abertura das partidas transformou-se em negócio. Nesta semana, o Telegraph produziu uma reportagem afirmando que alguns clubes cobram até £700 de pais que desejam ver os seus filhos no gramado da Premier League. Obviamente, o esquema soou como ganância e gerou críticas pela barreira criada aos pequenos torcedores sem condições financeiras – sobretudo considerando os rendimentos já estratosféricos das agremiações.

A Associação de Torcedores do Futebol Inglês (FSA) encabeça um movimento contra esse tipo de prática dos clubes. Da mesma maneira, um grupo de deputados também aumentou a pressão contra a cobrança. Julian Knight, novo presidente do comitê parlamentar sobre o esporte, disse que os mascotes se tornaram um “privilégio dos adinheirados” e algo “radicalmente contrário às raízes do jogo na classe trabalhadora”. A questão é o dinheiro que gira ao redor da medida.

Conforme o Telegraph, o pagamento efetuado pelos mascotes gerou cerca de £500 mil durante a temporada passada. Nem todos os clubes praticam tal cobrança, mas a ideia é relativamente bem aceita por diversos dirigentes. São 13 os times da primeira divisão que atualmente cobram de seus mascotes. Em troca, além do acesso ao gramado, também oferecem uniforme completo e outros serviços de hospitalidade à família. Todavia, comprar um carnê de temporada à criança sai mais barato em alguns casos.

O West Ham é o campeão no preço, responsável pelas £700. O valor é cobrado em jogos mais importantes, da “Categoria A”. Recém-promovido, o Norwich pede £379 por jogador, mas £500 para entrar com o capitão. A taxa é a mesma exigida pelo Aston Villa, que reserva um lugar às crianças de sua fundação. Tudo vira uma boquinha para conseguir lucros, mesmo que os valores sejam praticamente irrisórios diante dos montantes envolvidos com patrocínio e direitos de transmissão.

Os sete clubes que não cobram taxas de seus mascotes são: Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Newcastle e Southampton – boa parte deles, entre os mais ricos da Premier League. Neste caso, as crianças costumam ser designadas a partir de sorteios entre os sócios. Durante a Champions League, o processo de escolha cabe à Uefa, muitas vezes ligado a instituições de cunho social.

Na Premier League, há ainda os casos mistos, como do Tottenham ou do Leicester. Os sorteios existem, mas as vagas são menos numerosas, já que quem tiver dinheiro para furar a fila pode fazer isso. O Bournemouth reserva quatro lugares VIP, ao custo de £310, mas também oferece seis lugares mais populares, com concorrência maior por £40. Por sua vez, o Crystal Palace cobra £375, mas pode abater o valor para £100 se o mascote vier com o uniforme completo.

“Se o Southampton pode fazer grátis, não entendo por que os outros também não agem assim”, questiona Julian Knight, ao Telegraph. Alguns clubes justificam que o dinheiro arrecadado é repassado a instituições de caridade, como Everton e Watford. Até pode parecer uma ideia aceitável, mas melhor fariam os times se chamassem os meninos e meninas destas organizações ao estádio. No fim, o que essencialmente é um sonho acaba levado apenas como negócio – que seja para dar ao clube uma roupagem de “caridoso” por outras vias.