A cisão diplomática entre Azerbaijão e Armênia ficou em evidência nas últimas semanas, diante dos empecilhos a Henrikh Mkhitaryan na final da Liga Europa. O entrave escancara a postura inflexível do governo azeri com os armênios e as influências disso numa esfera mais ampla que o futebol. Se a antiga guerra pelo território Nagorno-Karabakh expõe as represálias à Armênia, porém, há um outro lado da história. O futebol do Azerbaijão também reflete o conflito. Dono dos últimos seis títulos nacionais, o Qarabag possui o status de “clube refugiado”. Mudou-se de Agdam para Baku justamente após a perda de Nagorno-Karabakh e virou uma bandeira dos azeris sobre o tema – mas com interferência direta do regime.

O Qarabag surgiu em 1951, diante dos esforços para profissionalizar o futebol na cidade de Agdam. Recebeu um estádio novo logo de cara e começou a participar das competições locais, então regionalizações do Campeonato Soviético. Entre idas e vindas, o clube ganhou relevância durante a década de 1980. Justamente o momento no qual a região onde estava localizado, Nagorno-Karabakh, atravessou o seu período mais sangrento. Diante da iminente dissolução soviética, a área na fronteira entre Armênia e Azerbaijão passou a ser disputada pelas duas repúblicas, resgatando um ranço de décadas. Resultou em uma guerra que durou seis anos, palco de limpezas étnicas. O conflito deixou milhares de mortos, feridos e desabrigados. Entre estes, também membros do clube e seus torcedores.

“Antes da guerra, acho que éramos o único clube do Azerbaijão que usava apenas jogadores locais. O time era para o povo. Todo mundo vinha de Agdam – os jogadores, os torcedores. Eram parentes e vizinhos. Havia um sentimento especial, nativo. O time era próprio. O clube e o estádio se tornaram um templo”, declarou o antigo capitão d Qarabag, Shahid Kasanov, em entrevista ao Independent, em 2017.

Allahverdi Bagirov, antigo técnico do Qarabag, se tornou um herói no Azerbaijão. Ele se alistou ao exército em 1988 e criou o seu próprio batalhão dois anos depois. Como comandante, resgatou centenas de cidadãos e corpos na cidade de Khojali, palco do maior massacre ocorrido na guerra, que deixou mais de 200 mortos. Bagirov faleceu meses depois, em junho de 1992, vitimado por uma mina terrestre. Recebeu as honrarias do governo do Azerbaijão.

Diante das notícias sobre o Massacre de Khojali, alguns jogadores do Qarabag tentaram se juntar ao exército. Receberam a negativa, para que ajudassem as pessoas a esquecerem a guerra através do futebol. Foi o que fizeram. Em 1993, o clube levantou suas principais taças até então. Eram também os seus últimos dias em Agdam. Em maio, venceu o jogo de ida da semifinal da Copa do Azerbaijão, no Estádio Imarat, naquela que seria sua partida derradeira em casa. Um mês depois, a cidade foi atacada pelo exército armênio. Os alvinegros seguiram atuando em Baku, conquistando a copa e chegando também à decisão do Campeonato Azeri. Dois dias antes da final, os jogadores souberam que Agdam acabara dominada pelos armênios. Venceram o jogo e levantaram o troféu, mas sequer comemoraram. Logo depois voltaram para casa, em busca de seus familiares e amigos.

Agdam transformou-se em uma cidade fantasma. O Estádio Imarat foi bombardeado, ficando em ruínas. Já o Qarabag se mudou definitivamente para Baku, refazendo a sua história na capital. Desterrado, se reconstruiu com a ajuda de muitos de seus torcedores, também refugiados. Mas isso não livrou o clube de dificuldades financeiras e, beirando a falência, só viu a situação virar no início do século.

A Azersun, conglomerado local com várias indústrias no setor alimentício, apadrinhou os alvinegros a partir de 2001. A empresa se envolve profundamente em projetos de auxílio aos refugiados de Nagorno-Karabakh e passou a considerar o time como “outra dimensão da estratégia social da companhia”. Desde então, o investimento aumentou, especialmente na infraestrutura. Vale ponderar, entretanto, que a Azersun possui ligações intrínsecas com o governo azeri. Segundo o porta-voz dos alvinegros, o sinal verde para fomentar a equipe veio de Heydar Aliyev, antigo presidente do país. O uso político das conquistas seria óbvio.

Heydar Aliyev faleceu em 2003, antes de poder se aproveitar de qualquer sucesso do Qarabag. Quem desfrutou das benesses foi Ilham Aliyev, seu filho e sucessor no governo. O ditador, acusado de repressão e violação de direitos humanos, investiu pesado no esporte. Trouxe diversos eventos ao país, com a menção principal à final da Liga Europa. Enquanto isso, o apoio ao Qarabag surtia resultados. No final da década passada, o time conquistou duas vezes a Copa do Azerbaijão. Já o verdadeiro salto de qualidade veio a partir de 2013/14, com a equipe faturando o hexacampeonato do Campeonato Azeri.

Mais do que uma potência local, o Qarabag se tornou uma bandeira de Nagorno-Karabakh. Seu sucesso não era apenas dos azeris, mas dos refugiados. Cerca de 800 mil azeris ficaram desabrigados pelo conflito, um oitavo de toda a etnia no país, e as estimativas sobre refugiados chegam a 200 mil. As arquibancadas do clube passaram a representar um pequeno pedaço de Agdam. Os símbolos e as cores traziam referências claras às origens, como a presença do cavalo Karabakh. De qualquer maneira, o “sentido nobre” também ganhava um novo significado com a maneira como o governo se utilizou da situação.

Que a torcida do Qarabag esteja espalhada pelo território nacional, a ligação às raízes é óbvia. E com uma repercussão mais ampla, considerando as disputas com os armênios. Por mais que o cessar-fogo tenha sido assinado em 1994, isso não interrompeu a queda de braço pela região, ainda com episódios violentos. Internacionalmente, Nagorno-Karabakh continua reconhecida como parte do Azerbaijão. Contudo, a área está sob controle dos armênios desde então, na autoproclamada República de Artsakh. Nos últimos anos, Iliyev passou a exaltar as grandes campanhas do Qarabag como “vitórias do estado, da juventude e das pessoas patrióticas”, comparando triunfos nos campos de batalha ao que acontecia nos gramados.

O Qarabag começou a levar sua bandeira para os torneios da Uefa a partir de 1996/97. Já as grandes campanhas se tornaram mais frequentes com o início do hexacampeonato nacional. Em 2014/15, o Qarabag se transformou no segundo clube azeri a disputar a fase de grupos da Liga Europa – repetindo o feito do tradicional Neftchi Baku, bancado pela estatal petrolífera. Apenas por um erro grotesco da arbitragem os novatos não eliminaram a Internazionale e não avançaram aos mata-matas. Já nas duas temporadas seguintes, mais duas aparições na fase de grupos, após a queda nas preliminares da Champions.

Por fim, o Qarabag desfrutou o grande momento de sua história na Liga dos Campeões 2017/18. Após eliminar os georgianos do Samtredia, a classificação em cima do Sheriff Tiraspol foi um sinal de força. Até que a façanha fosse complementada com o triunfo sobre o Copenhague nos playoffs da Rota dos Campeões. Pela primeira vez, o Azerbaijão teria um time na fase de grupos da Champions e, por conta disso, os jogadores foram recebidos por Aliyev na sede do governo. Mesmo em uma chave cascuda, contra Roma, Chelsea e Atlético de Madrid, os nanicos arrancaram dois empates, contra os espanhóis e os ingleses. Foi uma campanha digna. Já em 2018/19, voltaram a figurar na Liga Europa, eliminados durante a fase de grupos.

Indo além da questão política, um personagem primordial para o sucesso do Qarabag é o técnico Gurban Gurbanov. Maior artilheiro da seleção azeri e antigo ídolo do Neftchi Baku, ele assumiu o comando dos alvinegros em 2008, apenas dois anos depois de pendurar as chuteiras. E, mesmo sem qualquer experiência anterior no cargo, acabou sendo um revolucionário. O seu método de trabalho preza por pressão no campo ofensivo, posse de bola, ataque intenso pelas pontas e troca de posições entre os jogadores. Não à toa, sua equipe ganhou o apelido de ‘Barcelona do Cáucaso’, por tentar emular aquilo que acontecia na Catalunha.

Muito graças ao Qarabag, o Azerbaijão passou a ganhar uma notoriedade maior nas competições europeias. O time serve de emblema às reivindicações dos azeris, diante das consequências da guerra. E, de certa maneira, também se encaixa como uma justificativa à relevância esportiva pleiteada no país, que utiliza os grandes eventos para encobrir os abusos de Aliyev. Em uma história na qual os diferentes lados têm sua culpa, todavia, o clube dos refugiados de Agdam também é vítima do conflito. Permanece no paradoxo, entre seu uso a outros propósitos do governo e a maneira como ajuda os conterrâneos a superarem as mazelas da guerra.