A semiprofissional quarta divisão do futebol português está passando por uma situação inusitada – para não dizer surreal. Acusado de ser desleal em campo e de ameaçar e intimidar jogadores, membros de comissões técnicas e árbitros, o Canelas vem ganhando seus jogos por WO, já que 12 de seus 13 adversários anunciaram que não comparecerão aos jogos contra a equipe (quatro deles já cumpriram a promessa). O caso deve ser encaminhado nos próximos dias à Federação Portuguesa de Futebol.

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Em Portugal, a quarta divisão é disputada em uma série de campeonatos distritais, organizados por ligas locais. O Canelas pertence à Associação de Futebol do Porto (AFP), que realiza a competição oficialmente denominada de Série 1 da Divisão de Elite.

O problema é recorrente, mas só há duas semanas os dirigentes da maioria dos clubes filiados à AFP resolveram tomar uma medida. Cansados de ver seus jogadores literalmente apanhando em campo e temendo pela segurança de atletas, técnicos e árbitros – e até de familiares dessas pessoas –, eles anunciaram a medida drástica: a partir de então, 12 times pagam a multa de 750 euros e dão três pontos de graça ao adversário a cada vez que a tabela marcar um jogo contra o Canelas.

Maia Lidador, Serzedo, Valadares, Gondim Maia, Oliveira Douro, Varzim, Leça, Lavrense, Pedrouços, Rio Tinto, Grijó e Padroense são os clubes que subscreveram a medida e já começaram a cumpri-la. Apenas o Candal não aceitou o protesto e disse que jogará normalmente.

Apesar do nome sugestivo para o caso, o Canelas é assim batizado porque fica na região de mesmo nome dentro da cidade de Vila Nova de Gaia, na área metropolitana do Porto. Fundado em 2010, o clube mudou de status em 2012, com a chegada de Fernando Madureira. Desde então, subiu quatro vezes de divisão dentro das competições da AFP e, nesta temporada, tem boas chances de garantir o acesso para o Campeonato de Portugal, que equivale à terceira divisão do país.

Fernando Madureira, conhecido como Macaco, atualmente com 41 anos de idade, é uma figura muito conhecida no futebol lusitano. Ele é o presidente da Super Dragões, a principal torcida organizada do Porto. Até por isso, a “carreira” de jogador de futebol não é sua prioridade. Tanto que, embora haja outros colegas de torcida no time, ele é o único que tem autorização para faltar a treinos e jogos do Canelas para assistir partidas do Porto.

As acusações

Um vídeo que vem circulando pela internet mostra uma edição dos “melhores momentos” de um jogo em que os atletas do Canelas mostraram todo seu potencial “bélico”. Entradas duras e faltas sem bola são comuns.

A deslealdade em campo não é a única queixa dos adversários. Segundo eles, o time de Vila Noiva de Gaia também intimida os árbitros, que acabam deixando de coibir a violência e pensam duas vezes antes de acusar o clube nos relatórios das partidas. Coincidência ou não, 90% dos juízes da AFP declararam-se indisponíveis para apitar os jogos do time – a entidade precisou buscar árbitros de outras ligas.

As denúncias também dão conta da intimidação a adversários. Manuel Gomes, presidente do Grijó e espécie de porta-voz dos 12 clubes que tomaram a medida, chegou a falar em “clima de terror e intimidação”. Relatos trazidos pela imprensa portuguesa nos últimos dias, com jogadores que pediram anonimato, deram conta de ameaças a familiares. O presidente do Balasar, José Cancela, contou que teve de convencer seus atletas a voltarem para o segundo tempo de uma partida em que venciam o Canelas por 2 a 1. Para tanto, Cancela os autorizou a tirar o pé das divididas. O Balasar retornou a campo e tomou a virada: 4 a 2.

“Isso vem ocorrendo há vários anos. Não tem havido força suficiente para tomar esta medida. Ou não houve empenho. É uma medida muito forte. Os atletas recusam-se a jogar, e nós quase que os obrigamos a jogar. Depois não disputam qualquer lance, e isso tem sido visível nos jogos contra o Canelas. Não queremos excluir o Canelas, queremos integrá-los. Não queremos que eles deixem de jogar futebol. Queremos que respeitem as regras, tudo igual para todos”, disse Manuel Gomes.

Para piorar o clima, dois episódios ocorridos depois do anúncio de que os times não enfrentariam mais o Canelas deram contornos ainda mais tensos ao caso. Primeiro, uma parte do gramado do campo do Grijó foi incendiada, com o uso de gasolina. Depois, duas vans do Pedrouços ficaram completamente destruídas ao serem incendiadas dentro da sede do clube. Os casos estão sendo investigados. A direção do Canelas negou qualquer participação e prometeu retirar o time do campeonato caso seja provado que algum membro do clube esteve por trás dos incêndios.

A defesa

No Canelas, ninguém nega que o estilo viril é uma marca do time em campo. Por outro lado, não há quem admita deslealdade ou as ameaças e intimidações que os adversários acusam. O presidente do clube, Bruno Canastro, disse que a situação está tomando “proporções inacreditáveis”.

A presença do líder da Super Dragões no time também ajudar a pôr ainda mais luz sobre o caso. Ainda que não haja qualquer evidência contra ele ou os demais torcedores organizados do elenco, inevitavelmente eles foram lembrados quando os adversários do Canelas fizeram as denúncias.

Fernando Madureira não se nega a aparecer, nem a falar sobre o assunto. Em recente entrevista coletiva com a presença de todo o elenco, ele sentou-se ao lado do presidente. O capitão defende o estilo de jogo duro, mas minimiza as acusações. Em relação à arbitragem, por exemplo, diz que o time toparia árbitros estrangeiros ou até robôs para apitar seus jogos. “Aceitamos o que eles quiserem, menos mudar o nosso DNA dentro de campo”.

Na prática, apesar de liderar o campeonato e de ter quase sempre os três pontos garantidos daqui para a frente, o Canelas vem sendo prejudicado pelo boicote. Sem entrar em campo, o time limita-se a treinar nos horários em que deveria estar jogando (e faturando).

Para minimizar custos, a AFP não obriga o ritual de abrir o estádio aos torcedores, entrar em campo e dar o pontapé inicial para que o WO seja caracterizado. O bar do clube, que lotava nos dias de jogos, agora vive às moscas. Patrocinadores e jovens jogadores já não querem mais ser ligados ao time que é acusado de práticas que depõem contra o espírito esportivo e que não disputa um jogo oficial desde 23 de outubro.

E agora?

A Federação Portuguesa de Futebol não costuma se envolver nas questões relacionadas aos campeonatos das ligas distritais, até porque essas associações são órgãos independentes. Porém, sem qualquer resolução do caso junto à AFP, os 12 clubes reuniram-se no sábado (12) e tomaram a decisão de levar formalmente a situação até a federação.

O caso é tão complexo que fica impossível fazer uma projeção de como será seu final. De um lado, as denúncias dos 12 times são fortes e merecem ser apuradas. É natural pensar que eles não inventariam um problema dessas proporções. Do outro, não apareceram provas cabais de que o Canelas realmente tem culpa no cartório. Não há, por exemplo, uma gravação que comprove as ameaças ou um depoimento detalhado de alguém que tenha sido intimidado.

Enquanto a situação não se resolve, semanalmente a bola continua rolando nos muitos jogos semiprofissionais da quarta divisão portuguesa. Menos nas partidas do Canelas: o time que, culpado ou inocente, põe medo nos rivais e ganha suas partidas sem entrar em campo.