Clube da terceira divisão do Campeonato Alemão, o Chemnitzer anunciou o rompimento do contrato de seu capitão e artilheiro, Daniel Frahn. A diretoria tomou a decisão após a rodada deste domingo, quando a equipe visitou o Hallescher e sofreu a derrota por 3 a 1. Lesionado, o atacante preferiu não se juntar aos demais jogadores no banco de reservas. Ele assistiu à partida ao lado dos ultras do Chemnitzer, ligados a movimentos neonazistas. Diante da reincidência do jogador de 32 anos, a agremiação encerrou o seu vínculo com efeito imediato.

“O Chemnitzer continuará a agir consistentemente contra quaisquer ideias anticonstitucionais e os seus simpatizantes. O clube se comprometeu a ser um bastião na luta contra o radicalismo da extrema-direita, em acordo firmado por seus acionistas após os eventos do verão de 2018”, declarou o clube, em nota oficial. “Ficamos horrorizados ao perceber que nosso capitão se tornou um grande simpatizante do desumano grupo ‘Kaotic Chemnitz’ e do dissolvido NS-Boys, causando grandes danos ao clube. Há tolerância zero a este comportamento”. Não foi, afinal, o primeiro evento ligado aos neonazistas que envolveu o Chemnitzer nos últimos meses.

Em março de 2019, os neonazistas realizaram um tributo à morte do hooligan Thomas Haller antes do jogo contra o Altglienicke, pela quarta divisão do Campeonato Alemão. Haller fundou o HooNaRa (sigla para “Hooligans, Nazistas, Racistas”) grupo extremista que surgiu nas tribunas de Chemnitz durante a década de 1990 e existiu oficialmente até 2007, quando foi desmantelado pelas autoridades. Seus membros continuam monitorados pelo estado, embora se reúnam nos jogos do Chemnitzer. Na ocasião, o tributo ao indivíduo, organizado pelo Kaotic Chemnitz e pelos NS-Boys, teve anúncio no telão e nos alto-falantes do estádio, bem como um minuto de silêncio antes que a bola rolasse. Já Frahn exibiu uma camiseta durante a comemoração de seu gol, pedindo o apoio aos “hooligans locais”.

Os atos geraram enormes controvérsias na Alemanha e uma série de ações do Chemnitzer. O clube recebeu uma queixa criminal, que posteriormente seria arquivada. O Kaotic Chemnitz já estava banido das partidas em casa desde 2012, enquanto o NS-Boys (que traz referências hitleristas até no nome) decidiu se dissolver. O chefe executivo entregou seu cargo e o clube demitiu o responsável pelo departamento de comunicação, bem como o locutor do estádio. Frahn, por sua vez, foi multado e pegou um gancho de dois jogos. O atacante afirmou que não conhecia a ligação de sua camiseta com os movimentos neonazistas e que sabia que os valores das vendas seriam revertidos ao pagamento de despesas médicas de Haller.

Neste final de semana, porém, Frahn se juntou nas arquibancadas justamente aos membros do Kaotic Chemnitz. O clube declarou em sua nota oficial que o pedido de desculpas do capitão foi uma “farsa”, admitindo o seu erro em confiar nas palavras do artilheiro após o incidente anterior. O vice-presidente do Chemnitzer, Romy Polster, analisou que Frahn não cumpriu com sua obrigação como capitão. “Mais do que marcar gols ou torcer ao lado dos ultras, ele precisava de atitude”, pontuou.

Nascido em Potsdam, na antiga Alemanha Oriental, Frahn atuou por diferentes clubes da região. Defendeu o Energie Cottbus (ligado a movimentos neonazistas) e o Babelsberg (de marcante torcida antifascista), antes de uma passagem expressiva pelo RB Leipzig. Ficou cinco anos nos Touros Vermelhos, auxiliando na caminhada até a segunda divisão. Sua transferência ao Chemnitzer aconteceu em janeiro de 2016 e, apesar de viver o rebaixamento à quarta divisão, teve papel central no retorno à terceirona, conquistado durante a última temporada. Anotou 24 gols em 32 partidas na última edição da liga.

Já o Chemnitzer vive um momento delicado. O clube entrou em processo falimentar no início de 2018 e continua lidando com as dificuldades administrativas, mesmo depois do acesso à terceira divisão. Além disso, crescentes nas suas arquibancadas desde a década de 1980, os movimentos neonazistas representam uma preocupação ampla na cidade de Chemnitz. Em agosto de 2018, um festival municipal foi palco de atos de violência ligados a esses grupos extremistas, sobretudo o Kaotic Chemnitz, que atacou pessoas com “aparência de imigrante”. Um alemão de origem cubana morreu esfaqueado, enquanto outras pessoas ficaram feridas. Desde então, o clube assumiu seu compromisso expresso no combate ao extremismo. A demissão de Frahn é uma resposta e ainda deverá causar outros desdobramentos.

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