Clube da comunidade turca em Munique, o Türkgücü confirmou o acesso à terceirona da Bundesliga

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A quarta divisão do Campeonato Alemão definiu seus acessos por antecipação, sem concluir a temporada. Diferentemente do que aconteceu nas divisões acima, a maioria das entidades responsáveis por organizar as ligas regionais (que compõem a chamada Regionalliga no quarto nível) avaliou a inviabilidade de completar esta edição e preferiu proclamar seus vencedores através da média de pontos. Nesta segunda-feira, a DFB (a federação alemã) ratificou a promoção das três primeiras equipes à terceirona de 2020/21, enquanto Lokomotive Leipzig e Verl definirão a quarta vaga em playoffs. E a presença do Türkgücü Munique, clube ligado à comunidade turca na Baviera, é a que mais chama atenção.

Os outros dois times que subiram são mais tradicionais. O Saarbrücken é um dos clubes mais importantes do sudoeste da Alemanha e viu o acesso coroar sua grande temporada, em que já tinha sido semifinalista da Copa da Alemanha. O Lübeck, por sua vez, figurou algumas vezes na segunda divisão durante a virada do século e ascende para tentar fazer frente ao Holstein Kiel, seu grande rival no extremo norte do país. Distintamente destes, o Türkgücü Munique surgiu apenas em 1975 e passou a maior parte de sua história figurando em níveis amadores.

Times ligados à comunidade turca na Alemanha não são novidade. Os mais conhecidos foram criados em Berlim, a partir da década de 1960, quando o movimento migratório se intensificava em busca de mão de obra. Pioneiro no futebol alemão, o Türkspor Berlim chegou a disputar a terceira divisão nos anos 1990. Já a grande potência de origem turca era o Türkiyemspor Berlim, que levava multidões às arquibancadas e ficou a um ponto de conquistar o acesso à segundona em 1990/91. Ambos foram importantes para que o limite ao número de estrangeiros aumentasse na Bundesliga. Porém, não mantiveram o sucesso e caíram de nível com o passar dos anos – sobretudo à medida que o Campeonato Turco começou a ser transmitido na Alemanha, o que diminuiu o interesse do público em Berlim por suas equipes nas divisões de acesso.

Contemporâneo dos berlinenses, o Türkgücü Munique surgiu através de trabalhadores turcos que moravam na Baviera, mas ganhou força mesmo com o apoio de empresários turcos na década de 1980. O clube também passou pela terceira divisão na virada dos anos 1980 para os 1990, quando desfrutou de notoriedade na região e atraía milhares de torcedores. A competitividade não se manteve, atrapalhada também pela abertura a jogadores alemães, o que diminuiu a identificação com os torcedores da comunidade turca e reduziu o comparecimento do público. Ainda assim, os bávaros apresentavam sua capacidade para revelar talentos. Futuro ídolo da seleção turca, Ilhan Mansiz começou sua carreira por lá, assim como a agremiação serviu de porta de entrada ao brasileiro Cacau na Alemanha. Porém, com problemas financeiros, o time acabou dissolvido e refundado em 2001.

O início do século seria difícil ao Türkgücü, com campanhas ruins e o rebaixamento da quinta para a nona divisão. A luz no fim do túnel veio em 2009, quando a equipe se fundiu com o ATA Spor, outro representante da comunidade turca na Baviera que figurava na oitava divisão. Ressurgido como SV Türkgücü-Ataspor em 2009/10, o time escalou os níveis aos poucos. A real disparada aconteceu a partir de 2016, com os investimentos de Hasan Kivran, empresário de origem turca que chegou a atuar no clube como jogador amador. Desde 2017/18, a equipe comemorou três acessos consecutivos, saindo da sexta divisão para retornar à terceira após três décadas de ausência. Uma ascensão meteórica que também gera críticas, com acusações sobre a artificialidade da estrutura. As regras do 50+1 são respeitadas na mesa decisória, mas Kivran possui 99% das ações do Türkgücü e isso explica o crescimento econômico acelerado.

Embora tenha mantido grande parte de seus jogadores quando subiu da sexta para a quinta divisão, nesta temporada o Türkgücü atravessou uma ampla renovação. A chegada da seguradora AON como patrocinadora aumentou as receitas e permitiu os investimentos. O clube garimpou diversos jogadores, sobretudo nas divisões de acesso da Alemanha. A maior parte do plantel é composta por atletas de origem germânica, mas há um bom número de futebolistas com origens turcas. Sete atletas têm nacionalidade turca, todos eles nascidos em cidades alemãs. Entre eles está o capitão Yasin Yilmaz. Já os destaques da campanha foram o austríaco Patrick Hasenhüttl (sim, filho de Ralph, técnico do Southampton) e o bósnio Kasim Rabihic. Para o comando, chegou o treinador Reiner Maurer, com ampla trajetória no Munique 1860.

Desfrutando de uma folha de pagamentos acima da média para o seu nível e com uma estrutura já totalmente profissional, o Türkgücü Munique fez uma excelente campanha na Regionalliga da Baviera. Suas únicas três derrotas na quarta divisão aconteceram nas 11 primeiras rodadas. Os bávaros vinham em uma sequência invicta de 12 partidas até a paralisação do campeonato. Além disso, o ataque se destacava bastante, com 51 gols anotados em 23 partidas. Com nove pontos de vantagem sobre o segundo colocado, mesmo com 11 jogos restantes, o Türkgücü ganhou o acesso sem muitas contestações. A Regionalliga da Baviera, entretanto, resolveu terminar a atual campanha no segundo semestre (sem os campeões, mas valendo uma vaga nos playoffs de acesso em 2020/21) e só então iniciar a próxima temporada.

O maior desafio do Türkgücü Munique na terceira divisão é mesmo em sua estrutura. Embora o acesso tenha sido confirmado, o clube ainda não ganhou a licença da federação para disputar a terceirona. É preciso apresentar garantias financeiras. Diretor da agremiação, Max Kothny declarou que os últimos meses “não foram fáceis por causa da pandemia”, mas que estão analisando o cenário e decidiram exercer o direito de pleitear a licença. Outro time que poderia subir na quarta divisão, líder de sua liga regional, o Rödinghausen preferiu abrir mão do acesso por avaliar que não conseguiria readequar suas contas à terceirona.

Além disso, outra questão é sobre o estádio a ser usado pelo Türkgücü na terceira divisão. Sua casa, o Forever Sportpark Heimstetten, não atende os requisitos mínimos. Uma possibilidade é dividir o Estádio Grünwalder com o Munique 1860 e com o Bayern II, que também figuram na terceirona. Porém, com o excesso de compromissos no local (a liga estabelece um limite de 50 jogos por estádio a cada temporada), era preciso achar uma alternativa. Vale lembrar que os arredores de Munique ainda contam com o Unterhaching na terceira divisão, o que exige um pouco mais de logística do poder público.

O presidente do Türkgücü até declarou sua intenção de transferir o clube a outro estado da Alemanha, mas acabou impedido pela federação. A solução, a princípio, deverá ser a permanência em Munique. A prefeitura da cidade autorizou a utilização do Estádio Olímpico em oito partidas do Türkgücü, enquanto não começar o inverno mais intenso. Assim, será possível conciliar o uso com Grünwalder. Será a primeira vez que o histórico palco será utilizado regularmente para jogos do Campeonato Alemão desde a inauguração da Allianz Arena, em 2005. Outra alternativa para os novatos é usar a Wacker Arena, em Burghausen, a 110 quilômetros de Munique.

A reabertura do Estádio Olímpico pode atrair visitantes, mas o Türkgücü também precisa criar seu público cativo para se tornar mais sustentável – embora se valha dos bons contatos comerciais de seu presidente. A média de torcedores na quarta divisão durante a atual temporada foi baixa, com apenas 450 espectadores por partida. Competir ao mesmo tempo com o Munique 1860 e o expressinho do Bayern na terceirona não ajuda muito, sem poder captar o público paralelo dos dois clubes mais tradicionais da cidade. Em compensação, o Türkgücü tem seu apelo na enorme comunidade turca e pode fazer mais para ganhar esses torcedores. Quem sabe, para alcançar aquilo que seus antecessores não conseguiram: selar o inédito acesso à segunda divisão da Bundesliga.