A pequena cidade de Rosarno acostumou-se a ver a sua população de aproximadamente 15 mil habitantes variar de acordo com o número de imigrantes que conseguem atravessar o Mediterrâneo e trocar a África pelo sul da Itália. Não foi um processo desprovido de tensões. Em 2010, o assassinato de dois trabalhadores negros motivou violentos protestos, com dezenas de feridos. A situação acalmou-se um pouco com o tempo, a ponto de o padre Roberto Meduri, da paróquia de Bosco, criar um clube de futebol especialmente para abrigar e integrar os africanos que foram à Europa em busca de uma vida melhor, mas ainda vivem em tendas, trabalham debaixo de um cruel sol colhendo laranjas e precisam lidar com a ignorância das pessoas.

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O Koa Bosco foi fundado em 2013. “Koa” significa “Knights of the Altar”, ou “Cavaleiros do Altar”. Semana passada, conseguiu a promoção da terceira divisão da Calábria, o equivalente à nona divisão local, para a segunda em apenas duas temporadas.“Esses rapazes conseguiram uma grande vitória, mas claramente a vida cotidiana deles segue em frente. O fundamental, para nós, é o sorriso desses rapazes que se empenham e se sacrificam”, disse o diretor-geral do clube Domenico Bagalà à Calcio Magazine. Um feito esportivo notável, realmente, para uma equipe que trabalha no campo a semana inteira e joga futebol apenas aos fins de semana. O primeiro objetivo, além dos méritos do campo, era servir como uma distração durante esse difícil período de adaptação e integrá-los à sociedade.

“Esse projeto era dirigido aos jovens para ajudá-los a se sentirem cidadãos. No princípio, não acreditavam que fosse funcionar porque tinha medo de se sentirem vulneráveis. Mas agora estamos felizes. Recuperaram alguma dignidade e se sentem orgulhosos quando são cumprimentados na rua”, disse o padre Meduri ao jornal Publico, de Portugal. A comunidade local abraçou o time e organizou a coleta de cobertores e roupas de frio para eles, embora contribuições financeiras sejam escassas. Além da recuperar a frágil auto-estima desse povo, sempre sujeita a ser golpeada pelos idiotas, a grande vitória vem sendo se tornar um símbolo da luta do futebol italiano contra o racismo.

Os casos foram se acumulando nos últimos anos. Balotelli, Kevin-Prince Boateng e Kevin Constant foram alguns alvos. Cada país tem a sua particularidade para explicar (nunca justificar) a ignorância, e no caso da Itália, é uma mistura de ódio contra imigrantes, presente em altos escalões da política, resquícios do fascismo e a cultura hiper-regionalizada de um país que foi conhecer o conceito de nação apenas em 1861. Tudo chega ao futebol, no qual a Itália tem um presidente de federação que uma vez disse que “Opti Pobá (nome fictício) antes comia banana e agora é titular da Lazio”. Carlos Tavecchio, o dirigente em questão, foi suspenso por seis meses pela Uefa por conta desse comentário.

Roberto Meduri, o padre que idealizou o Kao Bosco (Foto: AP)
Roberto Meduri, o padre que idealizou o Kao Bosco (Foto: AP)

Naquele senso de oportunismo que os dirigentes de futebol foram aperfeiçoando ao longo dos anos, a Federação Italiana convidou os jogadores do Koa Bosco para o lançamento da sua campanha contra o racismo “Racistas? Uma raça feia”, em abril do ano passado. Menos cara de pau, Pavel Nedved, diretor da Juventus, convidou o elenco para visitar o museu do clube e trocou camisa com eles. Duas formas de atrair atenção nacional para o caso. Porque não deve ser fácil colocar-se em evidência quando pedras estão vindo em sua direção. Muitas vezes, literalmente.

Foi o que aconteceu em março, na partida contra o Vigor Paravati, que estava empatada por 1 a 1 antes de ser paralisada. De acordo com o Corriere della Calabria, a confusão começou na marcação de um pênalti contra o Koa Bosco, que motivou um dos jogadores a tentarem agredir o árbitro. Batalha campal, oito expulsos e ofensas racistas, segundo relato dos imigrantes posteriormente. Pedras foram lançadas das arquibancadas. O tribunal deu a derrota para os dois times e impôs multas. “Nosso problema é que os árbitros aqui em Bosco sempre decidem contra a gente. Sempre pensamos em vencer, mas é difícil”, disse Ali Trauri, um dos jogadores, ao Guardian.

Fora de campo também é difícil. A maioria ainda vive em tendas de imigrantes e não há emprego para todos. O futebol é capaz de mágicas, mas nem sempre de milagres. A vitória na terceira divisão calabresa é espetacular e minimiza os perrengues pelos quais esses jovens passam. E só. “É tarde demais para nós”, disse o capitão do time, o marfinense Yaya Diallo, também ao Guardian. “Já estamos aqui, mas não quero que venha mais ninguém. Se tivesse trabalho, tudo bem, mas não há. Não tem nada para fazer aqui. Então é melhor que fiquem em casa”.