A hierarquia corre risco. Pela primeira vez em muito tempo, clubes secundários da Premier League parecem fortes o bastante para tentar ameaçar os lugares cativos dos seis primeiros colocados, auxiliados pela transição do Arsenal e os problemas de Manchester United e Chelsea. Leicester, Wolverhampton, Everton e, quem sabe, West Ham conseguirão romper a barreira do sétimo lugar? Nada que deva incomodar os líderes Liverpool e Manchester City, preparados para novamente buscar os 100 pontos, o que parece ser a exigência hoje em dia para ser campeão inglês. Clube a clube, da ponta da tabela à rabeira, por ordem alfabética, aproveite o Guia Trivela da liga mais badalada do mundo, cuja nova edição começa nesta sexta-feira.

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Arsenal

Largando à frente

Lacazette e Aubameyang fizeram uma bela dupla pelo Arsenal (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Emirates (60.000 pessoas)
Técnico: Unai Emery
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar pela Champions
Principais contratações: Nicolas Pépé (Lille), Gabriel Martinelli (Ituano), Dani Ceballos (Real Madrid), William Saliba (Saint-Étienne), Kieran Tierney (Celtic), David Luiz (Chelsea)
Principais saídas: Laurent Koscielny (Bordeaux), Petr Cech (aposentado), Danny Welbeck (fim de contrato), Stephan Lichtsteiner (fim de contrato), William Saliba (Saint-Étienne), Aaron Ramsey (Juventus), David Ospina (Napoli), Takuma Asano (Partizan), Carl Jenkinson (Nottingham Forest), Eddie Nketiah (Leeds)

O torcedor do Arsenal foi pego de surpresa pela saudade dos tempos em que a piada era que o clube terminava todas as temporadas em quarto lugar na Premier League. Atualmente, essa classificação representaria sucesso no segundo ano de Unai Emery no norte de Londres porque devolveria os Gunners à Champions League. E depois de um verão em que esse objetivo pareceu difícil, a reta final da janela de transferências deu ao Arsenal a dianteira em relação aos seus principais competidores.

A situação era boa para arrebatar a quarta vaga na última temporada, quando caminhava para ter a sua melhor campanha como mandante na Premier League, superando os Invencíveis, mas perdeu do mediano Crystal Palace e empatou com o ainda mais mediano Brighton, nos últimos dois jogos no Emirates. Somou apenas sete pontos nas sete rodadas finais, e essa foi a maior frustração. Dois pontos extras nessa sequência seriam suficientes para superar o Tottenham e jogar a Champions League. Havia uma última chance, por meio da Liga Europa, mas o Chelsea passeou em Baku, deixando bem clara a quantidade de trabalho que Emery tem pela frente.

A temporada havia terminado. Os problemas, não. O grande gargalo foi a campanha fora de casa, apenas a oitava da tabela, e uma das causas foi uma defesa incapaz de resistir a pressões. Apenas uma vez, em 19 viagens, o Arsenal voltou para casa sem ser vazado – contra o Watford, que teve um jogador expulso aos 11 minutos do primeiro tempo. Era de se esperar que a prioridade do mercado fosse reforçar a retaguarda, mais ainda quando o capitão Laurent Koscielny, o mais próximo de um grande zagueiro que o Arsenal tinha, recusou-se a viajar aos Estados Unidos e deixou clara sua vontade de voltar para a França.

Houve um esforço infrutífero para convencê-lo a continuar. A dois dias do fechamento da janela, Koscielny foi anunciado pelo Bordeaux, e o que deveria ter sido prioridade tornou-se obrigação. Como bom procrastinador, o Arsenal tentou resolver a lição de casa no ônibus e, pelo contexto, não se saiu tão mal. Leva uma nota 6,5 pela contratação de David Luiz, pelo preço baixo e por se tratar de um zagueiro vitorioso, experiente e com habilidade para se encaixar ao estilo de Emery, em que pesem a falta de confiabilidade e as falhas espetaculares que de vez em quando ele comete. Pior que o Mustafi ele não pode ser.

Luiz é uma solução emergencial para a defesa, enquanto o Arsenal espera que William Saliba, contratado do Saint-Étienne, desenvolva-se em sua temporada emprestado de volta ao clube francês, e que algum jogador mais dominante apareça em boas condições no mercado. Depois de passar a janela inteira barganhando com o Celtic, Kieran Tierney foi contratado por um preço bem convidativo (£ 25 milhões), especialmente considerando que Alex Iwobi acabou sendo vendido ao Everton por mais do que isso. Lateral esquerdo de apenas 22 anos, já tem 170 partidas pelo Celtic e potencial para se dar bem também contra adversários mais complicados na Premier League.

Mesmo com esses dois jogadores, a urgência era por mais reforços para a defesa, mas a cúpula do Arsenal não viu dessa maneira e guardou o maior investimento da janela para o ataque. Apesar de ter um grande poder ofensivo, o time de Emery foi o 12º que menos driblou na última Premier League, com média de oito por partida. A busca foi por jogadores especialistas nesse fundamento, e a primeira tentativa foi WIlfried Zaha. O Crystal Palace se mostrou irredutível. O Lille, por outro lado, muito mais receptivo à proposta parcelada em oitocentas vezes sem juros para caber no orçamento restrito do clube para este mercado.

O recorde de transferências foi quebrado por Nicolas Pépé, veloz, habilidoso e com faro de gol. Ele fará um excelente trio de ataque com Aubameyang e Lacazette, os dois jogadores mais confiáveis que Emerey teve à disposição. Pode até ser improvisado mais como ala, pela direita, em um esquema com três zagueiros. Ceballos foi uma reposição inteligente a Ramsey, ainda muito jovem e com espaço para evoluir. O brasileiro Gabriel Martinelli, uma aposta para compor elenco. Um reforço caseiro pode ser Mesut Özil, caso ele decida voltar a jogar futebol.

O clube com folha salarial de Champions League e orçamento de Liga Europa, como disse seu vice-presidente, conseguiu, dentro do possível, resolver alguns dos seus problemas durante a janela de transferências. Pelo menos, mais do que os seus competidores. O Chelsea perdeu Eden Hazard e, sob embargo de transferências, precisará apostar em jovens ainda pouco testados no alto nível. O Manchester United foi assolado por uma inércia mercantil que o impediu de reforçar o meio-campo e o ataque, mesmo perdendo Romelu Lukaku.

O Arsenal tem um treinador comprovadamente melhor e mais experiente do que Frank Lampard e Ole Gunnar Solskjaer, um trabalho que caminha para o segundo ano e por pouco não ficou com a vaga na Champions já na temporada passada. Reforçado, larga na pole position para finalmente consegui-la de volta.

Aston Villa

“Fazendo o Fulham”

Wesley é a esperança de gols do Aston Villa (Foto: Getty Images) 

Cidade: Birmingham
Estádio: Villa Park (42.600 pessoas)
Técnico: Dean Smith
Posição em 2018/19: 5º colocado na Championship
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Wesley (Club Brugge), Tyrone Mings (Bournemouth), Douglas Luiz (Manchester City), Matt Targett (Southampton), Ezri Konsa (Brentford), Marvelous Nakamba (Club Brugge), Trezeguet (Kasimpasa), Anwar El Ghazi (Lille), Tom Heaton (Burnley), Björn Engels (Stade Reims), Jota (Birmingham) Kortney Hause (Wolverhampton)
Principais saídas: Richie De Laet (Antwerp), Tommy Elphick (Huddersfield), Albert Adomah (Nottingham Forest), Micah Richards (aposentado), Ross McComark (sem clube), Alan Hutton (sem clube), Glenn Whelan (sem clube), Mile Jedinak (sem clube), Gary Gardner (Birmingham), Russian Hepburn-Murphy (Tranmere Rovers), James Bree (Luton Town), Andre Green (Preston North End), Scott Hogan (Stoke City), Mark Bunn (sem clube), Birkir Bjarnason (sem clube)

Vamos ouvir a voz da experiência: “Gastamos muito dinheiro, mas (o rebaixamento) mostrou que nem sempre isso é tudo que importa. O time não se encaixou rapidamente, porque foi como se todos aqueles jogadores tivessem chegado na véspera do começo da temporada”. Esse é Tom Cairney, jogador do Fulham, que aproveitou os cofres recheados pelo acesso à Premier League para contratar mais de uma dezena de jogadores, e o resultado foi, digamos, bem abaixo do esperado.

O paralelo com o Aston Villa está frequente nas redes sociais porque o campeão europeu adotou uma estratégia parecida, mas a comparação pura e simples ignora, por exemplo, que o Wolverhampton se deu muito bem fazendo quase a mesma coisa e as próprias particularidades do caso do Villa. Começando que, realmente, o Fulham trouxe muitos jogadores no dia do fechamento da janela, enquanto a equipe de Birmingham concretizou seus negócios uma semana antes da estreia.

Em seguida, bom sublinhar que o Aston Villa não é o Fulham, mas o maior clube da segunda cidade mais populosa da Inglaterra, a única, além de Londres, com 1 milhão de habitantes. Campeão europeu, sete títulos do Campeonato Inglês, mais sete da Copa da Inglaterra e havia disputado todas as temporadas da Premier League, desde a fundação, até cair em 2015/16. Tem história e tradição. Não é um convidado na primeira divisão. Pertence a ela.

E era meio necessário. Foram contratados 12 jogadores e nove mais ou menos relevantes foram embora. A maioria, como Ross McComack, Micah Richards, Ritchie De Laet, Mark Bumm e Tommy Elphick, mal atuou ou sequer fez uma partida pelo Aston Villa na última temporada. Outros, como Glenn Whelan e Albert Adomah, eram reservas. O único titular mesmo que saiu foi Allan Huton. Todos têm mais de 30 anos, com exceção de Gary Gardner, que estava emprestado ao rival Birmingham e foi trocado pelo espanhol Jota. O núcleo que conquistou o acesso foi mantido, e a necessidade de renovar o elenco foi alinhada com a de qualificá-lo. Nenhum melhor momento para fazer isso do que quando você pode oferecer a Premier League no pacote.

Três jogadores repõem saídas diretamente. Matt Target, ex-Southampton, vira opção para a lateral esquerda, com a perda de Hutton. Wesley Moraes substitui Tammy Abraham, artilheiro do time que voltou ao Chelsea. Ezri Konsa, revelação inglesa, destaque das categorias de base, bem cotado pelo que fez no Brentford, ocupa a vaga de Axel Tuanzebe, que estava emprestado pelo Manchester United. Outros três– Tyrone Mings, Anwar El-Ghazi e Kortney Hause – já estavam no Villa, emprestados, e foram contratados em definitivo. Ex-Bournemouth, Mings, particularmente, foi um dos destaques da arrancada na reta final que garantiu vaga nos playoffs. Não são novidades. Para o treinador Dean Smith, nem Ezri Konsa e Jota, com os quais ele trabalhou no Brentford. Ele sabe o que está comprando.

O perfil dos reforços também é diferente. O Fulham contratou jogadores mais velhos como Schürrle e Babel, ou de clubes maiores, como Olympique Marseille, Borussia Dortmund, Atlético de Madrid e Sevilla. Muitos emprestados. Para a maioria deles, a Premier League pelo clube londrino era uma oportunidade de jogar bem e conseguir um novo contrato ou uma transferência para outro lugar. Não necessariamente compraram a causa de um pequeno clube à beira do Tâmisa.

O Villa está trazendo jovens famintos, de centros como a Bélgica e a Turquia ou mesmo da própria Championship. A média de idade dos reforços é de 24,5 anos. Tirando Heaton, 33, e Jota, 28, os dois fora da curva, cai para 23 anos. Isso, evidentemente, é uma faca de dois gumes. O que o mercado do Villa sobra de energia peca em experiência. Apenas três pisaram a grama em um jogo de Premier League: Mings (17 jogos), Targett (43) e Heaton (96). Claro que quem for bem tem o direito de ambicionar uma rica transferência, mas todos terão a oportunidade de construir suas histórias em um clube importante da Inglaterra.

Como está fazendo Jack Grealish. O Villa pode contratar quantos jogadores quiser que o líder do time será o seu capitão. Grealish, 23 anos, foi formado no clube de Birmingham e nele está desde antes do rebaixamento. Soma 145 jogos pelo campeão europeu e fez a diferença na última temporada. Com ele campo, foram 17 vitórias, nove empates e cinco derrotas, aproveitamento de 64% dos pontos. Sem ele, lesionado em dezembro, três vitórias, sete empates e cinco derrotas. Aproveitamento de 35%.

O acesso veio antes do esperado. Uma sequência de dez vitórias na reta final da Championship colocou o clube nos playoffs, nos quais passou pelo West Brom, nos pênaltis, e pelo Derby County. A equipe apresentou problemas, especialmente na defesa. Sofreu 61 gols, mais do que Stoke City (52) e Birmingham (58), que ficaram na parte de baixo da tabela. Tanto que a maior parte dos reforços é para aquele setor: Mings, Targett, Konsa, Hause, Björn Engels e Heaton, além dos volantes Marvelous Nakamba e Douglas Luiz.

Quando caiu à segunda divisão, o Villa tentou “fazer o Fulham” – antes de o próprio Fulham fazer o Fulham, então talvez foi o Fulham quem fez o Aston Villa – e gastou € 85 milhões em 15 reforços para tentar retornar o mais rápido possível. O resultado final foi um decepcionante 13º lugar e restrições ao mercado enquanto a Football League analisava suas finanças. Caberá a Dean Smith, fervoroso treinador do clube, encaixar bem as novas peças com as que continuam no elenco, mas o mero fato de que o diretor de futebol do Villa assinou muitos contratos nesse verão não é garantia de fracasso e nem de sucesso.

Bournemouth

Estagnação é o objetivo

Fraser (e) cruza, Wilson marca, e o Bournemouth ganha (ou leva três gols e perde) (Foto: Getty Images)

Cidade: Bournemouth
Estádio: Vitality Stadium (11.300 pessoas)
Técnico: Eddie Howe
Posição em 2018/19: 14º
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Arnaut Danjuma (Club Brugge), Philip Billing (Huddersfield), Lloyd Kelly (Bristol City), Jack Stacey (Luton Town), Harry Wilson (Liverpool)
Principais saídas: Tyrone Mings (Aston Villa), Lys Mousset (Sheffield United), Connor Mahoney (Millwall), Marc Pugh (QPR), Emerson Hyndman (Atlanta United), Sam Surridge (Swansea), Harry Arter (Fulham)

Eddie Howe é o treinador mais longevo da Premier League, ao lado de Sean Dyche, do Burnley. Ambos estão em seus clubes desde 2012. Na última temporada, seu trabalho apresentou sinais de estagnação: algumas vitórias sobre os seis primeiros, alguns jogos malucos, muitos gols marcados, ainda mais sofridos. Isso levou alguns a pensar que a Era Howe, que levou o Bournemouth da terceira divisão à elite, pode estar chegando ao fim, mas, neste caso, estagnação é justamente o objetivo.

O clube que 20 anos atrás precisou coletar dinheiro em baldes no centro da cidade, teve pontos deduzidos por problemas financeiros, ficou muito próximo de deixar a Football League (o que poderia ser um pulo para o semi-profissionalismo ou semi-amadorismo, dependendo de você ser um otimista ou um pessimista) e que nunca havia chegado à elite do futebol inglês prepara-se para a quinta temporada consecutiva na Premier League e quer garantir que haverá uma sexta.

Por isso, a corretora de imóveis de Eddie Howe pode continuar suas longas férias. As casas de aposta colocam-no como o terceiro menos cotado a ser o próximo demitido do Campeonato Inglês, à frente apenas de Pep Guardiola e Jürgen Klopp que, se quiserem, nunca mais precisarão procurar outro emprego. Em algumas, Nuno Espírito Santo, do Wolverhampton, aparece no mesmo patamar, mas o importante aqui é que não há homem melhor que Howe para o serviço.

Especialmente porque ele consegue manter o Bournemouth na primeira divisão, confortavelmente, sem que o processo seja terrivelmente enfadonho. Muito pelo contrário. Os corações de seus torcedores são frequentemente testados com partidas como o 3 x 5 contra o Crystal Palace, ou os 3 x 3 com Southampton e Watford, e de vez em quando dá para fazer uma grande festa goleando o Chelsea (4 x 0) ou fazendo 4 a 3 no Liverpool. Os riscos são evidentemente grandes, mas, até agora, o pior que a estratégia entregou foi a salvação a cinco pontos da degola, na primeira temporada na elite, e o melhor, o nono lugar em 2016/17.

O problema na última temporada foi temporal. O Bournemouth começou muito bem, com seis vitórias e dois empates nas primeiras dez rodadas, praticamente metade dos pontos que somaria até o fim do campeonato, e depois foi derrotado 17 vezes nas 28 rodadas finais. Perder praticamente uma vez por semana entre novembro e maio, com exceção de um abençoado mês de janeiro em que conseguiu duas vitórias seguidas, inclusive a goleada sobre o Chelsea, não passa uma sensação exatamente muito agradável.

O Bournemouth precisa espalhar seus pontos ao longo do calendário de maneira mais igualitária, assim como precisa equilibrar o ataque e a defesa. Foi pela primeira vez o time que mais fez gols além dos seis primeiros, com 56, mas a defesa levou 70 e só foi menos esburacada do que a dos lanternas Fulham e Huddersfield, apesar das boas atuações de Nathan Aké. Pelo menos, não pode ser culpado de inconsistência porque manteve a média desde que subiu à elite: já são 265 gols sofridos em 152 partidas de Premier League, ou 66 por temporada.

Seguindo o perfil de reforços do clube, os homens que vão tentar ajudar a resolver o problema vieram das divisões inferiores: o lateral esquerdo Lloyd Kelly, ex-Bristol City, da Championship, e o direito Jack Stacey, ex-Luton Town, campeão da League One. O dinamarquês Philip Billing foi contratado do Huddersfield, pelo qual mostrou talento, dentro do possível que dava para mostrar em um time com problemas em todos os setores, até se desentender com o treinador Jan Siewert e ser afastado.

O outro negócio da janela foi o jovem ponta Arnaut Danjuma, que colecionou bons números na segunda divisão holandesa pelo NEC Nijmegen e estava se destacando no Club Brugge quando sofreu uma lesão no tornozelo que atrapalhou sua temporada. Os € 53 milhões gastos foram amortizados pelas vendas de Tyrone Mings e Lys Mousset, dois reservas, por € 34 milhões.

Gastos modestos. O Bournemouth não pode errar muito, tanto que cresce a pressão para que jogadores caros como Jordon Ibe, Dominic Solanke e Diogo Rico, contratados por € 54 milhões combinados, comecem a entregar o que se esperava. A equipe ainda é muito dependente de seus dois principais jogadores. Ryan Fraser deu 14 assistências na última Premier League, atrás apenas de Eden Hazard, metade delas para Callum Wilson, autor de 14 gols, segundo maior artilheiro da liga dos mortais, atrás de Vardy, com 18. No meio-campo, o jovem David Brooks apareceu bem, e Jefferson Lerma se firmou como um jogador confiável. A novidade caseira pode ser o promissor Lewis Cook. Contratado em 2016 do Leeds, campeão mundial sub-20 e com convocação para a seleção principal, sua temporada passada foi encerrada em dezembro por uma séria lesão.

Uma boa medida do quão bem um clube pequeno está se saindo é o interesse dos maiores pelos seus jogadores. Fraser foi especulado no Arsenal, Wilson, no Chelsea, até renovar seu contrato em julho, e Aké surgiu como possibilidade de reposição para Harry Maguire no Leicester. Aqui vale o velho chavão: o principal reforço do Bournemouth é conseguir manter seus principais jogadores. E Eddie Howe.

Brighton

Esse Dalai Lama é um cara bem esperto

Graham Potter pensando em uma futura encenação do Quebra-Nozes (Foto: Getty Images) 

Cidade: Brighton
Estádio: Amex Stadium (30.000 pessoas)
Técnico: Graham Potter
Posição em 2018/19: 17º colocado
Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Adam Webster (Bristol City), Leandro Trossard (Genk), Neal Maupay (Brentford), Matt Clarke (Portsmouth), Aaron Moy (Huddersfield)
Principais saídas: Richie Towell (Salford), Alexis MacAllister (Boca Juniors), Percy Tau (Club Brugge), Viktor Gyökeres (St. Pauli), Billy Arce (Barcelona-EQU), Jan Mlakar (Queens Park Rangers), Christian Walton (Blackburn), Anthony Knockaert (Fulham), Leo Östigard (St. Pauli), Ales Mateju (Brescia), Bruno (aposentado), Matt Clarke (Derby), Markus Stuttner (Fortuna Düsseldorf),

Sorte do Brighton que havia três times piores do que ele na última Premier League porque o esforço para voltar a disputar a Championship foi monumental. Deu para ficar dois pontos acima do Cardiff graças a três empates arrancados na reta final contra Wolverhampton, Newcastle e Arsenal. Terminou a competição em queda livre, com três vitórias nas últimas 23 rodadas e decidiu fazer mudanças. Quem rodou foi o técnico Chris Hughton, que estava desde 2014 no cargo. Com a aposentadoria do veterano e capitão Bruno, ex-Valencia, começou uma nova era no Amex Stadium.

Essa era leva o nome de Graham Potter, e o quanto ela durará dependerá do sucesso das abordagens pouco ortodoxas do treinador que, entre os que aceitariam treinar um favorito ao rebaixamento, foi o melhor que o Brighton poderia contratar. Mais do que em reforços, recai nele a esperança de uma terceira temporada consecutiva na Premier League. O currículo conta a seu favor, especialmente a longa passagem pelo Östersund, que foi levado da quarta divisão à elite da Suécia.

Com o título da Copa da Suécia, em 2017, ganhou uma aventura pela Europa e a aproveitou como poucos. Eliminou Galatasaray e Paok nas fases preliminares, passou em segundo do seu grupo, empatado em pontos com o Athletic Bilbao, e chegou a derrotar o Arsenal, por 2 a 1, no jogo de volta no Emirates Stadium. De lá foi para o País de Gales tentar recuperar o Swansea e conduziu uma boa temporada, com o décimo lugar e chance de playoffs até as rodadas finais. Marcelo Bielsa elogiou como seu time, geralmente com três zagueiros, movia a bola e tentava construir o jogo a partir da defesa, mas, quando disse que Potter tem novas ideias, ele talvez não soubesse o quão novas elas são.

A mais diferente, batizada de “academia cultural”, envolve os jogadores prepararem e executarem apresentações, como shows de música e, uma vez, o balé Lago dos Cisnes, em nome da união do grupo. Em certa ocasião, emprestou um livro do Dalai Lama para um de seus jogadores que tinha dificuldades em superar os erros que cometia – “Esse Dalai Lama é um cara bem esperto, não é?” – e perguntou aos seus comandados como eles queriam morrer antes de quase eliminar o Manchester City da Copa da Inglaterra (estamos tentando confirmar relatos de que todos eles responderam que não era jogando uma partida de futebol).

Potter pendurou as chuteiras pelo Macclesfield Town, em 2005, mas, enquanto ainda jogava, formou-se em ciências sociais e depois fez um mestrado em liderança e inteligência emocional na Universidade de Leeds. Seu estilo de liderar baseia-se em cinco valores: transparência, visão de longo prazo, sinceridade, consistência e profissionalismo. E na ideia de que os jogadores são pessoas antes de serem jogadores. “Há algo muito gratificante neste trabalho porque você está, na verdade, ajudando as vidas das pessoas. Pensam que treinar é ganhar jogos de futebol – e claro que é -, mas, ao longo da minha carreira, também pude ajudar pessoas a melhorarem, a serem mais capazes de lidar com a vida e terem mais sucesso na vida, dentro e fora de campo. Isso também é muito poderoso”, disse, ao Guardian.

Agora, o torcedor não vê a hora de descobrir se uma cópia de “Quem Mexeu no Meu Queijo?” será suficiente para que os jogadores do Brighton comecem a fazer gols. Foram apenas 35 em 38 rodadas, o que, juro pelo Dalai Lama, representou uma evolução em relação aos 34 da temporada anterior. Apenas os rebaixados Cardiff, Fulham e Huddersfield colocaram menos bolas nas redes. Glenn Murray ter marcado 13 é quase um milagre, considerando que ninguém mais conseguiu passar dos cinco e que o único que chegou a cinco foi um dos zagueiros. O fato de que o veterano de 34 anos foi novamente o artilheiro do time é parte do problema.

Murray ocupa o vácuo deixado pelos reforços contratados por bastante dinheiro, para os padrões do Brighton, que não conseguiram corresponder às expectativas. Jozé Izquierdo, Jürgen Locadia, Florin Andone e Alireza Jahanbakhsh custaram um combinado de € 50 milhões e entregaram, juntos, 11 gols na Premier League. Izquierdo não marca pela liga inglesa desde abril de 2018. Locadia, dezembro. Alireza, o famoso Artilheiro do Holandesão, ainda não abriu contagem, independentemente da competição. E sabe-se lá por que Anthony Knockaert, uma das poucas torneiras do deserto ofensivo do Brighton, foi emprestado ao Fulham.

As novas tentativas são o centroavante Neal Maupay, autor de 25 gols em 43 partidas pelo Brentford na última Championship, e o ponta Leandro Tossard, que vem de 22 tentos em todas as competições pelo Genk. Um pouco de qualidade chegou na última hora com o empréstimo de Aaron Moy, ex-Huddersfield. Com qualidade e experiência de elite, o australiano de 28 anos pode ajudar bastante. O mais caro foi para a defesa. O recorde de transferências foi quebrado para tirar Adam Webster do Bristol City. Ele se junta aos sólidos Lewis Dunk e Shane Duffy em um time que precisará compartilhar da criatividade do seu técnico para se manter na elite.

Burnley

Trabalho em equipe

Drinkwater drinks water (Foto: Getty Images)

Cidade: Burnley
Estádio: Turf Moor (22.000 pessoas)
Técnico: Sean Dyche
Posição em 2017/18: 15º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Jay Rodríguez (West Brom), Bailey Peacock-Farrell (Leeds), Erik Pieters (Stoke), Ryan Cooney (Bury), Danny Drinkwater (Chelsea)
Principais saídas: Tom Heaton (Aston Villa), Stephan Ward (Stoke City), Anders Lindegaard (Helsingborg), Aiden O’Neill (Brisbane Roar), Ntumba Massanka (Chorley FC), Peter Crouch (aposentado), Nahki Wells (Queens Park Rangers)

Dizem que quando os Deuses querem nos punir, eles atendem as nossas preces. O Burnley conseguiu o melhor resultado que poderia na Premier League de 2017/18, o sétimo lugar, campeão dos mortais, e retornou às competições europeias pela primeira em mais de 50 anos. Acontece que, de um ponto de vista estritamente racional, pela nova configuração da janela de transferências inglesa e pelo orçamento apertado do clube, as preliminares da Liga Europa não passaram de uma distração que prejudicou o seu começo de temporada.

O Burnley não tem muito dinheiro para contratar e não faz loucuras. Um calendário europeu, com pelo menos seis jogos a mais no primeiro semestre, poderia levá-lo a inchar um pouco o elenco, mas, quando a janela de transferências da Inglaterra fechou, o clube ainda não sabia se sobreviveria às fases preliminares. Precisou disputar duas competições em agosto com grupo para apenas uma.

Foi legal a caminhada, com vitórias sobre Aberdeen e Istambul Basaksehir. Contudo, quando ela terminou, pelas mãos do Olympiakos, no fim de agosto, o Burnley já tinha seis partidas competitivas a mais do que o resto da tabela. Desgaste físico considerável a um time que tem como principal força a entrega e o jogo coletivo. A recuperação demorou alguns meses.

O Burnley perdeu quatro das primeiras cinco rodadas e chegou ao Boxing Day, contra o Everton, com apenas três vitórias e na zona de rebaixamento. A derrota por 5 a 1 no dia seguinte ao Natal foi o ponto de inflexão. Aquele jogo marcou o fim do primeiro turno, e a campanha no segundo foi bem melhor. Começou com uma sequência de oito jogos sem perder, com cinco vitórias. Quatro derrotas seguidas assustaram, mas outra mini-série de invencibilidade, com três triunfos e um empate, valeu pontos suficientes para a permanência na elite.

Houve algumas mudanças naquele momento. Joe Hart foi barrado, e Tom Heaton reassumiu as metas. Estava bastante claro que, para um clube econômico, três goleiros de seleção inglesa eram um luxo exagerado, e Heaton foi negociado com o Aston Villa. Mas Hart não deve ganhar outra chance. O titular mais provável será Nick Pope, responsável por grandes defesas na campanha que levou o Burnley à Liga Europa. O jovem Bailey Peacock-Farrell chegou do Leeds United para compor o grupo de arqueiros.

Em janeiro, Sam Vokes foi negociado com o Stoke City, deixando o Burnley mais dependente ainda da sua dupla de ataque formada por Chris Wood e Ashley Barnes. O mercado minimizou esse problema com a chegada de Jay Rodríguez, de volta ao Turf Moor, onde foi formado. Ele não retornou ao melhor nível que apresentou quando defendeu o Southampton, mas teve duas temporadas competentes pelo West Brom, com 33 gols em 90 jogos, sendo 22 na última Championship.

O Burnley também contratou o lateral esquerdo Erik Pieters, ex-Stoke, e o direito Ryan Cooney, do Bury, para compor elenco. Um salto de qualidade da equipe pode vir pela ponta esquerda. O jovem Dwight McNeil foi uma das mudanças de Dyche após o Boxing Day. Titular contra o West Ham, retribuiu a confiança marcando um dos gols da vitória por 2 a 0 e seguiu atuando com frequência até o resto da campanha. Foi dispensado da base do Manchester United aos 14 anos e pode explodir na próxima temporada.

Caso Danny Drinkwater ainda lembre como se joga futebol, a contratação do meia campeão inglês pelo Leicester pode acrescentar experiência a um time que utilizará melhor as suas características. Completamente fora dos planos de Maurizio Sarri, não entra em campo desde que disputou meia hora da Supercopa da Inglaterra em agosto do ano passado. Segue misteriosa a identidade de quem decidiu pagar € 37 milhões por um jogador que disputou 1.181 minutos pelo Chelea, mais ou menos uns sete ou oito filmes da Marvel.

Sonhar com o sétimo lugar novamente, com candidatos mais ricos como Everton, Leicester e Wolverhampton, pode ser demais, mas o Burnley continua com as mesmas armas de sempre para se aproximar do meio da tabela. Depende da coesão da sua equipe, que começa com James Tarkowski na defesa, passa por Jack Cork, Jeff Hendrick e Ashley Westwood no meio-campo e termina em Wood e Barnes, e essa coesão poucas vezes o deixou na mão.

Chelsea

O retorno do filho pródigo

Cadê os zagueiros que estavam aqui? (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Stamford Bridge (41.631 pessoas)
Técnico: Frank Lampard
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar por Champions League
Principais contratações: Christian Pulisic (Borussia Dortmund), Mateo Kovacic (Real Madrid)
Principais saídas: Eden Hazard (Real Madrid), Ola Aina (Torino), Tomas Kalas (Bristol City), Ethan Ampadu (RB Leipzig), Todd Kane (QPR), Eduardo (Braga), Gary Cahill (Crystal Palace), Lewis Baker (Fortuna Düsseldorf), Matt Miazga (Reading), David Luiz (Arsenal)

Como fazer seu filho comer vegetais? Ajuda se não houver mais nada no prato. As promessas do Chelsea ficaram cansadas de fazer e desfazer malas para cumprir os empréstimos que o clube lhes arranjava. Agora, não haverá alternativa. Sob embargo de transferências, a utilização de jovens será obrigatória, o que, por um lado, é sempre interessante de acompanhar. Por outro, coloca nas costas de Callum Hudson-Odoi, Mason Mount e Tammy Abraham a responsabilidade de transformar em sucesso uma temporada que promete ser bem complicada.

A melhor maneira de analisar o momento do Chelsea é partir do patamar do qual ele saiu. Maurizio Sarri provou ser um treinador de primeira linha na Inglaterra. Com poucas mudanças no elenco, imprimiu seu estilo de jogo, conseguiu vaga na Champions League em terceiro lugar, atrás apenas dos anormais Liverpool e Manchester City, e, como bônus, conquistou a Liga Europa. Tudo isso foi realizado graças à qualidade inestimável de Eden Hazard, que, com 16 gols e 15 assistências, contribuiu diretamente para o ataque da sua equipe mais do que qualquer jogador da última Premier League. E nenhum dos dois continua em Stamford Bridge.

A saída de Sarri para a Juventus foi recebida com uma estranha naturalidade, como se todos a esperassem. Até mesmo com um pouco de felicidade. Os ótimos resultados não apagaram o que os torcedores consideraram um futebol chato e previsível. Críticas duras demais, mas também é verdade que Sarri nunca se conectou com as arquibancadas, e o mesmo realmente não pode ser dito do seu sucessor. Frank Lampard construiu uma relação de profunda paixão com a torcida do Chelsea e retorna, como filho pródigo, para ser o escudo de Roman Abramovich contra as adversidades.

E haja adversidades. Começando pelo fato de que o bilionário russo segue distante do dia a dia do clube, desde que teve problemas para renovar seu visto britânico e tirou passaporte israelense. Mesmo que ainda morasse em alguma cobertura no oeste de Londres, não poderia gastar suas libras com uma reposição para Hazard por causa do embargo de transferências e, nesse contexto, a convocação de Lampard é astuta.

Qualquer pessoa normal seria triturada pela máquina de moer treinadores do Chelsea, uma das mais afiadas da Europa. Um antigo ídolo como Lampard pelo menos garante alguns meses a mais de paciência da torcida, mesmo se tudo der errado. O lado negativo da contratação é que ninguém ainda sabe se o ex-jogador é bom ou ruim como treinador. Tem apenas um ano de ofício: pegou um Derby County que havia terminado a temporada passada em sexto lugar e o entregou em sexto lugar, antes de perder a final dos playoffs para o Aston Villa.

A seu favor está o conhecimento de alguns jogadores que estavam na Championship e com os quais agora terá que contar, especialmente Mason Mount, peça chave do Derby que treinou. Auxiliado por Jody Morris, que passou quatro anos na base do Chelsea antes de seguir o chefe para o ex-clube de Brian Clough, Lampard também tem conselhos inestimáveis para passar à juventude, mas precisará ir além das lembranças dos bons e velhos tempos para resolver os problemas.

Começando pelo maior deles: não sobrou ninguém que faz gol. Sarri chegou a admitir que o seu time estava com dificuldade para agredir quando se aproximava da área, e isso quando ainda contava com Morata ou Higuaín e com Hazard, que tirou uma série de coelhos da cartola para chegar a 21 tentos em todas as competições. Depois do belga, os artilheiros foram Olivier Giroud e Pedro, com 13 cada. A contratação de Christian Pulisic, fechada ainda em janeiro, preenche um pouco do vácuo deixado no ataque, mas o americano nunca fez mais do que quatro gols em uma única edição da Bundesliga. Que triplique esse total, não chegará à contribuição de Hazard.

Muito útil em certas situações, Giroud nunca se provou um goleador e, com o retorno de Higuaín à Itália, a camisa 9 está novamente vaga. O Chelsea torce para Tammy Abraham ocupá-la, animado pelos 25 gols que o jovem de 21 anos marcou pelo Aston Villa na última Championship. Outra opção seria Michy Batshuayi, que foi razoável no empréstimo ao Crystal Palace, com cinco gols em 11 partidas, e terá outra oportunidade em Stamford Bridge.

O meio-campo deve passar por mudanças porque Lampard prefere o 4-2-3-1 ao rígido 4-3-3 de Sarri e não exige que o primeiro volante seja o organizador de jogo que o italiano sempre utiliza. Assim, Kanté pode retornar à função na qual conquistou duas vezes a Premier League e foi eleito o melhor jogador de uma delas e Jorginho espera ter mais espaço para criar, depois de anos sendo o responsável pela saída de bola de Sarri. Kovacic ficou em definitivo porque foi registrado durante o empréstimo, antes da punição da Fifa, e ainda há Loftus-Cheek e Ross Barkley para a posição mais avançada, além do já citado Mount.

O que alguém ainda precisa me explicar é por que um clube sob embargo de transferências permitiu que três zagueiros fossem embora. Kurt Zouma foi mantido, apesar das tentativas do Everton para levá-lo de volta, mas David Luiz, Ethan Ampadu, emprestado, e Gary Cahill se mandaram, o que deixou Lampard com Zouma, Andreas Christensen e o propenso a lesões Antonio Rüdiger. Além deles, há Kenneth Omeruo, desde 2012 no clube sem ter feito um jogo de time principal pelo Chelsea, e Michael Hector, 27 anos, outro que nunca sentiu o cheiro da grama pelos adultos dos Blues.

O Chelsea trocou um treinador excelente por um novato, perdeu seu principal jogador, que havia contribuído diretamente para 31 gols, não tem um centroavante comprovado em alto nível e apenas três jogadores confiáveis para a zaga. É verdade que existe potencial no elenco para preencher esses espaços. Tammy Abraham pode virar um grande artilheiro. Pode ser que o salto que Pulisic certamente um dia dará aconteça nesta temporada. Pode ser que os jovens que ganharão boas oportunidades se mostrem especiais. Pode ser que Lampard se revele um grande estrategista e organizador. Ou pode ser que nada disso aconteça e, nesse caso, o escudo ficará muito riscado.

Crystal Palace

Eu quero ver gol. Por favor

A felicidade no olhar de quem conseguiu, mais uma vez, manter Wilfried Zaha (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Selhurst Park (25.456 pessoas)
Técnico: Roy Hodgson
Posição em 2018/19: 12º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Jordan Ayew (Swansea), Stephen Henderson (Nottingham Forest), Gary Cahill (Chelsea), James McCarthy (Everton), Victor Camarasa (Real Betis)
Principais saídas: Aaron Wan-Bissaka (Manchester United), Alexander Sörloth (Trabzonspor), Pape Souaré (Troyes), Jason Puncheon (Pafos FC), Julián Speroni (sem clube), Bakary Sako (sem clube)

Uma cena típica do fechamento do mercado inglês são os repórteres estacionados diante de estádios ou centro de treinamentos, como se hoje em dia a apuração de reforços de última hora fosse com o porteiro, e não pelo Whatsapp. Serve praticamente como cenário para entradas ao vivo e para interceptar o carro do treinador que gostaria muito de conseguir chegar ao trabalho em paz. Roy Hodgson abaixou a janela do motorista para dar a notícia que todos os torcedores do Crystal Palace queriam ouvir: Wilfried Zaha fica.

Faz tempo que o sucesso ou o fracasso do Palace, caminhando para sua sétima temporada consecutiva na elite, depende do atacante marfinense. Na última Premier League, os quatro jogos em que ele não esteve em campo terminaram em duas vitórias e duas derrotas, uma melhora em relação à anterior quando o clube perdeu as nove partidas sem o camisa 11. Indo um pouquinho mais longe, aqueles seis pontos foram os únicos conquistados pelo Palace dos 45 em disputa nas rodadas das quais Zaha não participou desde o começo de 2017. Embora as estatísticas não sejam tão chamativas, com dez gols e cinco assistências na campanha passada, ele sofreu cinco pênaltis, cavou muitas faltas e sua velocidade foi essencial para a transição de uma equipe que depende muito do contra-ataque para castigar os adversários.

O ciclo é quase sempre o mesmo. O mercado começa e os pretendentes sondam o Palace. A diretoria responde com valores muito altos, desta vez chegando a € 100 milhões, e ninguém topa pagar. As negociações não avançam, e Zaha acaba ficando um pouco a contragosto. E acaba renovando contrato para que o sorriso volte a habitar o seu rosto. O último foi assinado em agosto do ano passado, com validade até 2023, chegando a um merecido salário de estrela, pela importância que tem ao Palace. A questão no momento é como mais uma frustração impactará o seu futebol e sua atitude – e fica a dica: se quiser mesmo sair, uma boa ideia seria parar de estender o seu compromisso com o clube.

“O problema dele é com o presidente e os donos do clube porque ele queria sair e eles não receberam a proposta que achavam suficiente para o liberar”, afirmou Hodgson, com um dos pés na embreagem. “Ele tem que lidar com isso. Quando você assina um contrato longo, espera-se que ele seja honrado e esperamos isso dele. Ele não estava com cabeça boa, então o mandei para casa, mas o aguardo amanhã (sexta-feira) e espero que ele lide bem com o fato de que tem mais uma temporada pelo Crystal Palace. Ele é um profissional e tem um bom contrato conosco. É um jogador que respeitamos muito e acredito que ele nos respeita”.

Hodgson, de longe o mais velho treinador da Premier League, queria “mais corpos” para o seu elenco e ganhou três. O experiente zagueiro Gary Cahill terminou a vitoriosa passagem pelo Chelsea para se juntar à defesa liderada por Mamadou Sakho e James Tomkins. O meio-campo em que Luka Milivojevic e James McArthur dominam recebeu os acréscimos de James McCarthy, ex-Everton, e Victor Camarasa, emprestado pelo Betis. Eles se juntaram a Jordan Ayew, contratado em definitivo do Swansea após um ano emprestado, e o goleiro Stephen Henderson. Sem uma reposição para Aaaron Wan-Bissaka, ganhou mais em número do que em qualidade, mas não há muito espaço para investimento, com uma pesada folha salarial que representou 78% do faturamento do clube na temporada 2017/18 – antes da renovação de Zaha e da chegada de Max Meyer.

O promissor alemão de 22 anos chegou do Schalke 04, ao fim do seu contrato, e o que não precisou ser gasto com taxa de transferência ficou para o salário. Ele ainda não correspondeu, com uma primeira temporada apagada, em que atuou até que bastante, mas fez apenas um tento e deu duas assistências. Precisa melhorar, mas os números baixos não são tanto culpa dele porque ninguém faz gol no Crystal Palace. O artilheiro da temporada foi o volante cobrador de pênaltis Milivojevic, com 12, seguido por Zaha. Os cinco de Batshuayi, que retornou ao Chelsea, farão falta porque o Palace não o repôs com nenhum atacante e ainda torce para Christian Benteke ajustar o seu GPS para reencontrar o caminho do gol. Ele fez apenas um na última edição da Premier League.

O Palace segue sendo um time casca dura, organizado e com um contra-ataque que o torna o visitante mais indigesto da Premier League dos mortais e, com a sexta campanha da última temporada, melhor até que o Arsenal quando pega a estrada. Por outro lado, a dificuldade em criar espaços e colocar a bola na casinha complica os jogos no Selhurst Park, onde marcou apenas 19 vezes e conseguiu cinco vitórias. Apenas Cardiff City e Huddersfield foram piores como mandante. Enquanto não houver uma revolução nos departamentos de criação e finalização, o Palace não pode sonhar com nada além de escapar confortavelmente do rebaixamento.

Everton

Enfim, um rumo

Quanto a gente pagou no Iwobi? (Foto: Getty Images)

Cidade: Liverpool
Estádio: Goodison Park (39.595 pessoas)
Técnico: Marco Silva
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar por Liga Europa
Principais contratações: Moise Kean (Juventus), André Gomes (Barcelona), Jean-Philippe Gbamin (Mainz), Fabian Delph (Manchester City), Jonas Lössl (Huddersfield), Alex Iwobi (Arsenal), Djibril Sidibé (Monaco)
Principais saídas: Idrissa Gueye (Paris Saint-Germain), Ademola Lookman (RB Leipzig), Nikola Vlasic (CSKA Moscou), James McCarthy (Crystal Palace), Luke Garbutt (Ipswich), Brendan Galloway (Luton Town), Phil Jagielka (Sheffield United), Mateusz Hewelt (Miedz Legnica), Jonjoe Kenny (Schalke 04), Kieran Dowell (Derby), Shani Tarashaj (Emmen), Sandro Ramírez (Real Valladolid), Ashley Williams (sem clube), Harry Charsley (sem clube), Muhamed Besic (Sheffield United), Matthew Pennington (Hull City),

Houve um momento na temporada passada em que parecia que o Everton teria que começar tudo do zero novamente. Apresentou muita inconsistência na virada do ano, época em que levou 9 a 3 no agregado de Manchester City e Tottenham em uma semana, evidência do quanto estava longe de onde queria chegar. Colecionou oito derrotas e quatro vitórias entre dezembro e fevereiro. No entanto, a guinada aconteceu. Apenas uma derrota nas últimas oito rodadas e triunfos sobre Chelsea e Arsenal foram bons sinais. A goleada por 4 a 0 sobre o Manchester United, a confirmação de que, além de finalmente ter dinheiro, o Everton tem agora também um rumo.

Historicamente, o lado azul de Liverpool troca pouco de treinador, mas, desde David Moyes, o trabalho mais longevo foram os três anos de Roberto Martínez. A variação do estilo holandês de Ronald Koeman ao rústico britânico de Sam Allardyce foi a pista de que não havia muito norte nas decisões do clube. O homem desejado era Marco Silva, mas o Watford chegou a emitir comunicado pedindo que o Everton, por favor, parasse de assediar seu comandante. No começo da última temporada, ele foi contratado, junto com o diretor de futebol Marcel Brands, ex-PSV, para dar um pouco de coerência ao projeto que passara a contar com as injeções de dinheiro do novo dono Farhad Moshiri.

Essa cúpula embarca na segunda temporada, a primeira vez que Marco Silva dura tanto desde que treinou o Estoril entre 2011 e 2014, e o Everton enfim tem uma espinha dorsal novamente: Jordan Pickford, titular da seleção inglesa; os bons laterais Seamus Coleman e Lucas Digne; Michael Keane como líder da zaga; André Gomes permaneceu, contratado em definitivo do Barcelona; Gylfi Sigurdsson cresceu de produção; Theo Walcott, Richarlison e Bernard são opções de velocidade pelos lados; e Dominic Calvert-Lewin melhorou, embora ainda não pareça o centroavante do nível que as ambições exigem.

Parte do trabalho de Brands está sendo aliviar a folha salarial muito pesada do elenco. Quando chegou, em 2018, encontrou uma estrutura que gastava 77% do seu faturamento com salário (£ 145 milhões de £ 189 milhões), a segunda maior proporção da Premier League na temporada 2017/18, atrás do Crystal Palace. Não à toa, os aportes financeiros de Moshiri, por meio de empréstimos sem a cobrança de juros, já chegaram a £ 250 milhões, e o projeto do novo estádio, confirmado durante a pré-temporada, faz parte da estratégia para que o clube se torne financeiramente forte e sustentável no futuro.

Não havia tanto espaço de manobra quando Brands chegou, mas um bom primeiro passo foram as saídas de Klaassen, Funes Mori e Wayne Rooney. O barco dessa vez zarpou com o veterano Phil Jagielka e James McCarthy, além das contratações não muito bem-sucedidas de Sandro Ramírez (emprestado) e Ashley Williams. As vendas de Vlasic, Lookman e Idrissa Gueye, por um total de € 63,7 milhões, ajudaram a equilibrar o cofre. Ainda há alguns jogadores dos quais o Everton gostaria de se livrar, como Kevin Mirallas, Yannick Bolasie e Cenk Tosun.

Essa rotatividade de elenco, que contrasta com a fresca estabilidade que o time alcançou, abre espaço para Marco Silva qualificar os titulares. A lista de compras do treinador português, quando perdeu Gueye para o Paris Saint-Germain, envolvia uma reposição ao volante, um atacante, um ponta para o lugar de Lookman, um zagueiro para substituir Zouma, e um lateral direito para brigar por posição com Coleman. O substituto do senegalês foi o promissor Jean-Philippe Gbamin, ex-Mainz.

O Everton conseguiu fechar com Djibril Sidibé para reforçar a lateral direita. Remanescente do título francês do Monaco, não tomou o mesmo caminho dos seus companheiros. Lesões e queda de rendimento do clube custaram a sequência da sua carreira. Tem potência física e capacidade ofensiva para se tornar uma ameaça séria a Coleman. No apagar das luzes, deu tempo de pagar uma nota bem exagerada por Alex Iwobi, na casa das £ 35 milhões, para ser mais uma opção pelos lados.

Kean foi a melhor sacada do mercado azul. O jovem de 19 anos é cotado como uma das principais revelações do futebol italiano no momento e era de se imaginar que a Juventus estava propensa a mantê-lo sob supervisão. Sem gastar muito, o Everton conseguiu um promissor atacante, já com gols marcados pela Serie A – sete em 16 jogos pela Velha Senhora, quatro em 19 pelo Verona, no qual esteve emprestado – e também pela seleção italiana. Foi duas vezes titular de Roberto Mancini, nas Eliminatórias da Eurocopa, e retribuiu o voto de confiança deixando sua marca contra Finlândia e Liechtenstein.

O Everton espera que Kean finalmente ocupe o espaço deixado pela saída de Romelu Lukaku para o Manchester United. Desde os 26 gols do belga, em 2016/17, Rooney foi o artilheiro de uma temporada, com 11, e Richarlison e Sigurdsson lideraram a produção da última, com 14. Calvert-Lewin cresceu como um jogador útil para o ataque, mas ainda não se mostrou capaz de marcar em profusão. Kean, capaz de atuar também pelas pontas, é uma boa aposta para solucionar o problema.

O Everton acabou perdendo a liquidação de zagueiros do Chelsea, que deixou Ethan Ampadu, David Luiz e Gary Cahill irem embora, mas decidiu manter Kurt Zouma. Tentando contar com o francês até o último segundo, não houve tempo de buscar uma solução, e Marco Silva entra na temporada descoberto no setor, com apenas Michael Keane, Yerri Mina e o jovem Mason Holgate.

O meio-campo foi fortalecido pela chegada de Fabian Delph, meia de 29 anos que passou as últimas temporadas sendo lateral esquerdo improvisado de Pep Guardiola no Manchester City. Voltará à sua posição de origem em Goodison Park e, principalmente, acrescentará um pouco de casca a um clube que é o quarto maior campeão inglês, mas não conquista um título sequer desde 1996. Caso a temporada termine novamente sem troféus, será o maior jejum do Everton ao lado dos 24 anos entre 1939 e 1963, com o detalhe importante de que sete temporadas daquele período foram comidas pela Segunda Guerra.

O Everton manteve seu treinador, a maioria dos seus principais jogadores e conseguiu algumas contratações interessantes. Precisará melhorar a campanha fora de casa, que trouxe apenas cinco vitórias na última temporada, mas as boas atuações contra Arsenal, Chelsea e Manchester United na reta final, combinadas com os problemas que esses times apresentam no momento, são indícios de que os Toffees podem pelo menos sonhar com uma campanha que vá além do Troféu Sétimo Lugar (carinhosamente batizado de Everton Cup na Inglaterra).

Leicester

O passo adiante

Youri Tielemans foi contratado em definitivo para liderar o meio-campo do Leicester (Foto: Getty Images)

Cidade: Leicester
Estádio: King Power Stadium (32.273 pessoas)
Técnico: Brendan Rodgers
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar por Liga Europa
Principais contratações: Youri Tielemans (Monaco), Ayoze Pérez (Newcastle), James Justin (Luton Town), Dennis Praet (Sampdoria)
Principais saídas: Harry Maguire (Manchester United), Shinji Okazaki (Málaga), Danny Simpson (sem clube), Davide Lorenzo (sem clube), Callum Elder (Hull City)

É um pouco estranho falar de evolução no Leicester. O que seria um passo adiante para quem foi campeão inglês três anos atrás? Tendo como premissa a obviedade de que aquela campanha foi um ponto tão fora da curva que não pode entrar na conta, o clube conseguiu se consolidar entre os dez melhores do país, o que não acontecia desde o final dos anos noventa. Agora, tem as ferramentas necessárias para ir além e conseguir pelo menos o sétimo lugar, que seria sua melhor campanha desde 1976. E não podemos descartar uma ameaça ao estabelecido grupo de elite formado pelos seis clubes mais ricos.

Claudio Ranieri alcançou o maior milagre da história moderna do futebol europeu com um time que partia de dois conceitos básicos. Defendia-se bem e esticava na velocidade de Jamie Vardy sempre que possível, com o apoio de coadjuvantes competentes, a mágica de Mahrez e a resistência de Kanté. Pegou muita gente de surpresa, mas o mesmo golpe não funciona duas vezes contra um cavaleiro. Para progredir, era necessário aprimorar o estilo de jogo. Com esse objetivo, contratou o francês Claude Puel.

Experiente, Puel conseguiu iniciar a transição para um time que assume mais a iniciativa, mantém a posse de bola e não depende tanto dos espaços dos adversários para atacar. A porcentagem de tempo com a pelota nos pés passou de 44,7% na campanha campeã, a 43,7% na seguinte, com Ranieri e Craig Shakespeare, e pulou para 48,3% na primeira temporada do francês e para 50,8% na última, compartilhada com Brendan Rodgers. O problema? Era chato para caramba.

Puel conseguiu chegar ao nono lugar, mas com apenas três pontos a mais e o mesmo número de vitórias (12) do que na acidentada campanha anterior, na qual o Leicester chegou a lutar contra o rebaixamento e precisou demitir Claudio Ranieri. O time trocava 50 passes a mais em média por jogo do que aquele que foi campeão, e a torcida estava incomodada com o que considerava um futebol monótono. Terminar a Premier League com um empate e cinco derrotas, incluindo um humilhante 5 a 0 para o Palace no Selhurst Park, não ajudou o moral.

A temporada seguinte começou parecida. Resultados normais, vitórias magras e tropeços esperados, com alguns highlights, como o 2 a 1 em cima do futuro campeão Manchester City. A antipatia pelo treinador que a torcida nutria fez com que a primeira sequência realmente ruim, outra de cinco derrotas e um empate, outra que terminou em goleada contra o Crystal Palace, desta vez no King Power Stadium, culminasse com a demissão de Puel e a contratação de Brendan Rodgers.

Rodgers foi um recrutamento sensível. Trata-se de um profissional jovem, com currículo comprovado no futebol inglês, experiência em clube grande e que havia feito um grande trabalho no Celtic. Para o norte-irlandês, o momento da mudança foi bom porque sua passagem por Parkhead começava a dar sinais de desgaste. Quase imediatamente, imprimiu mais velocidade e agressividade à equipe, que terminou a Premier League com cinco vitórias, dois empates e duas derrotas.

O que o Leicester busca na próxima temporada é a consolidação desta mistura entre um futebol de mais posse de bola, que chegou a uma média de 450 passes trocados na última temporada, 100 a mais do que o time de Ranieri, com a ofensividade que teve com Rodgers. Tanto que o mercado foi ao mesmo tempo bom e discreto. Porque a espinha dorsal está lá. Começa com Wilfried Ndidi roubando as bolas no meio-campo, acompanhado por Tielemans e seus passes por trás da defesa. Continua pelos promissores ingleses James Maddison, Demarai Gray e Harvey Barnes e o competente Marc Albrighton na linha de armadores e termina na potência de Jamie Vardy.

Os cofres foram abertos para manter Tielemans, um negócio importantíssimo para o futuro do clube. O belga tem apenas 22 anos e já estava inserido na maneira de jogar do Leicester, e terá a companhia do compatriota do bom Dennis Praet, comprado da Sampdoria no dia do fechamento da janela. Ayoze Pérez tem uma carreira de altos e baixos, mas conseguiu arrancar milagrosos 13 gols por um Newcastle que pouco atacava na última temporada. Pode dar descanso a Vardy, atuar como um segundo atacante que abre espaços para o veterano – movimento necessário contra defesas fechadas – ou posicionar-se como um dos meias abertos.

Com as peças que tem à disposição, Rodgers pode montar sua equipe de muitas maneiras. A preferida foi com Ndidi de volante, Maddison e Tielemans como meias centrais, Barnes e Gray abertos e Vardy avançado. Essa formação pode variar para um 4-2-3-1, avançando Maddison, ou para uma versão mais cautelosa, com o jovem Hamza Choudhury acompanhando Ndidi na destruição, como na vitória por 3 a 0 sobre o Arsenal, melhor jogo do Leicester na reta final da Premier League. Chilwell e Ricardo Pereira, laterais que atacam muito e abrem o campo, também oferecem a possibilidade de três zagueiros.

No entanto, com a venda de Harry Maguire para o Manchester United, os cofres do clube ficaram fortalecidos, em contraste com a defesa. Lewis Dunk e James Tarkowski foram especulados, mas o Leicester não conseguiu contratar uma reposição ao jogador da seleção inglesa. Caglar Söyüncü deve ser titular ao lado de Jonny Evans, com Filip Benkovic na cobertura e o veterano Wes Morgan.

Mesmo com o sistema defensivo enfraquecido em um primeiro momento, o campeonato do Leicester será contra Everton e Wolverhampton pelo sétimo lugar, mas, com uma identidade bem definida, um treinador competente e jogadores que poderiam atuar no andar de cima, pode pensar em se infiltrar entre os seis primeiros, caso Arsenal, Chelsea ou Manchester United marquem bombeira.

Liverpool

Como melhorar uma campanha quase perfeita

Que que eu faço para passar esse Manchester City? (Foto: Getty Images)

Cidade: Liverpool
Estádio: Anfield Road (53.394 pessoas)
Técnico: Jürgen Klopp
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Sepp van den Berg (PEC Zwolle), Harvey Elliott (Fulham), Adrián (West Ham)
Principais saídas: Daniel Sturridge (sem clube), Adám Bogdán (sem clube), Connor Randall (sem clube), Alberto Moreno (Villarreal), Bem Woodburn (Oxford United), Sheyji Ojo (Rangers), Marko Grujic (Hertha Berlim), Harry Wilson (Bournemouth), Simon Mignolet (Club Brugge), Danny Ings (Southampton), Taiwo Awoniyi (Mainz), Ovie Ejaria (Reading)

Todo título é importante, mas alguns são mais importantes do que outros. O Liverpool não conquistava um da primeira prateleira desde que as estruturas do universo foram abaladas em Istambul, e Jürgen Klopp amargava uma sequência de seis derrotas seguidas em finais. O triunfo sobre o Tottenham em Madri tem o potencial de arrancar um pesado fardo das costas de todos os habitantes de Melwood, preparando-se para sua última temporada como quartel-general dos Reds. Mais leves, com pontuação suficiente para ser campeão em 116 das 119 edições do Campeonato Inglês, a milímetros de uma campanha invicta, os homens de Klopp parecem prontos para protagonizar outra disputa acirrada com o Manchester City, como os treinadores prometeram em uma troca de mensagens após a final da Champions League. A questão é: estão mesmo?

A diferença de apenas um ponto entre os dois primeiros colocados indica uma distância menor do que a maneira como ambos chegaram ao montante total. O Liverpool contou com ventos a seu favor, como o pênalti perdido por Mahrez em Anfield e o gol de Origi contra o Everton, para ficar em apenas dois exemplos, e pareceu atuar no limite das suas capacidades, derramando cada gota de sangue dos seus jogadores. A caminhada do Manchester City passou ares maiores de naturalidade, permitiu até uma fase ruim em dezembro, com três derrotas em quatro rodadas, e foi dois pontos pior do que a da temporada anterior, comprovando que os homens de Guardiola têm capacidade de ir além do que fizeram no bicampeonato.

Para não deixar a quebra do jejum de títulos ingleses que pode chegar a incômodos 30 anos nas mãos de uma improvável derrocada do adversário, Klopp precisa provar que aqueles 97 pontos também não são o teto do seu time. E, para fazer isso, conta com a evolução do novo estilo de jogo adotado ano passado, com o desenvolvimento de coadjuvantes e jovens que já estão no elenco e o retorno de jogadores que passaram muito tempo lesionados porque, ao fechamento da janela, o único adulto que o Liverpool contratou foi o goleiro Adrián para a reserva de Alisson, após a saída de Simon Mignolet.

Foi uma decisão calculada do alemão. Klopp mostrou mais de uma vez que não contrata por contratar e prefere buscar uma solução interna a trazer um jogador de fora que possa perturbar a harmonia do grupo. Quando vai ao mercado com força, busca resolver o problema, como fez com Alisson e Van Dijk. Os recursos do Liverpool concentraram-se na manutenção de seus principais jogadores. Desde abril do ano passado, Roberto Firmino, Mohamed Salah, Jordan Henderson, Sadio Mané, Joe Gomez, Andrew Robertson e Trent Alexander-Arnold assinaram extensões de contratos, garantindo a espinha dorsal pelo menos até 2023, e novas renovações podem ser anunciadas em breve.

Com uma folha corrida comprovada de conseguir melhorar jogadores com o trabalho do dia a dia, o alemão espera conseguir transformar alguns em opções confiáveis para a rotação do time titular, nenhum mais do que Rhian Brewster. Campeão mundial sub-17, o garoto de 19 anos deveria começar a ter tempo de jogo na temporada passada, mas uma séria lesão atrapalhou os planos. Ele teve boas atuações na pré-temporada e, mediante desenvolvimento, pinta como uma alternativa ao inexorável trio de ataque vermelho. Chamberlain foi um desses que Klopp conseguiu aprimorar e seu retorno de quase um ano no estaleiro também reforça as opções, tanto no ataque, quanto no meio-campo.

Divock Origi marcou gols muito importantes para dar o título europeu ao Liverpool e mantê-lo vivo na briga pela Premier League, mas foram suas atuações, no geral, que convenceram o alemão a lhe dar um novo contrato. Até segunda ordem, é o primeiro reserva da linha ofensiva, que precisará de descanso, depois de terminar tarde sua temporada por causa das competições internacionais – Sadio Mané estava jogando bola até meados de julho. Xherdan Shaqiri teve altos e baixos desde que chegou do Stoke City e precisa provar que pode voltar a apresentar, com consistência, o futebol que fez com que Klopp até mexesse no esquema tático para encaixá-lo, e o mesmo pode ser dito de Naby Keita, contratado com altas expectativas, mas que ainda parece estar se adaptando à Inglaterra.

Se o ataque e o meio-campo ainda têm jogadores que podem crescer, a defesa parece muito curta sem a contratação de um lateral esquerdo para ser reserva de Robertson, com a saída de Alberto Moreno, e, principalmente, após a séria lesão de Nathaniel Clyne. Milner e Joe Gomez podem ser improvisados pelos lados, mas o setor contará com apenas seis especialistas comprovados no primeiro semestre, e um deles, o próprio Gomez, é propenso a lesões de longo prazo. Os jovens Ki-Jana Hoever e Yasser Larouci podem ajudar a cobrir as laterais.

O Liverpool transitou do futebol heavy metal, marca registrada de Klopp, para um rock progressivo que consegue variar entre velozes riffs e solos um pouco mais lentos de guitarra. A mudança, aliada aos reforços de Alisson e Van Dijk, trouxe solidez ao time, melhor defesa da Premier League com apenas 22 gols sofridos, e inegavelmente foi bem-sucedida. Mas também reduziu a fluidez do ataque e aumentou o número de jogos travados. Klopp acredita que encontrar o equilíbrio desse novo estilo será o bastante para conquistar a Premier League, e se tem uma coisa que ele provou desde que chegou a Anfield é que, na maioria das vezes em que os críticos duvidaram, ele acabou estando certo.

Manchester City

Apenas continue o que está fazendo

Depois de 100 e 98 pontos, está claro que o City será tricampeão com 96 (Foto: Getty Images)

Cidade: Manchester
Estádio: Etihad Stadium (55.017 pessoas)
Técnico: Pep Guardiola
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar pelo título
Principais contratações: Rodri (Atlético de Madrid), Angeliño (PSV), Zack Steffen (Columbus Crew), João Cancelo (Juventus), Pedro Porro (Girona), Scott Carson (Derby)
Principais saídas: Douglas Luiz (Aston Villa), Fabian Delph (Everton), Manu García (Sporting Gijón), Pablo Marí (Flamengo), Vincent Kompany (Anderlecht), Luke Brattan (Sydney), Anthony Cáceres (Sydney), Arijanet Muric (Nottingham Forest), Philippe Sandler (Anderlecht), Zack Steffen (Fortuna Düsseldorf), Ante Palaversa (Oostende), Patrick Roberts (Norwich), Tosin Adarabioyo (Blackburn), Danilo (Juventus)

Os primeiros foram antes da Segunda Guerra Mundial. Huddersfield e Arsenal, ambos treinados por, ou sob a influência de, Herbert Chapman conquistam a Inglaterra três vezes seguidas. Cinquenta anos depois, o Liverpool fez o mesmo, na transição de Bob Paisley a Joe Fagan. O Manchester United foi o único que conseguiu duas vezes, sempre com Alex Ferguson, na era Premier League. Juntar-se a esse panteão de lendas do futebol inglês é o desafio do Manchester City de Guardiola. Como melhorar um time que praticamente anotou 100 pontos duas vezes seguidas? Mantendo tudo como está. Houve poucas mudanças no Etihad Stadium durante o verão, embora algumas tenham sido importantes.

A saída de Vincent Kompany para ser técnico e zagueiro do Anderlecht deixou a braçadeira de capitão sem um dono. Guardiola afirmou que os próprios jogadores definirão o sucessor do belga. A faixa foi para o braço de David Silva durante a Supercopa da Inglaterra e quando o ídolo do City não estava em campo na temporada passada. Tornar-se capitão seria uma maneira emblemática de se despedir do clube, uma vez que o espanhol anunciou que este será seu último ano vestindo azul na Inglaterra, mas De Bruyne, Agüero e Fernandinho são os outros candidatos.

Kompany também deixou um espaço vazio no elenco. Com Mangala fora dos planos, Guardiola conta com apenas três zagueiros adultos, e um deles é o Otamendi. O City observou o mercado, dando preferência a ingleses para cumprir as regras de inscrição que exigem um mínimo de jogadores formados no país, mas não topou pagar o que o Leicester pediu por Harry Maguire, nem se convenceu com as outras opções. Começa a temporada com a possibilidade de improvisar Fernandinho no coração da defesa, até porque o reserva do brasileiro finalmente chegou. Rodri foi a grande contratação da janela, trazido do Atlético de Madrid para ser o outro volante do elenco e descansar um pouco o titular de 34 anos.

O clube exerceu a cláusula de recompra para contratar de volta o lateral esquerdo Angeliño Tasende, titular do PSV na última temporada. O jogador de 22 anos vira mais uma opção para a única posição em que podemos dizer que há carência no Manchester City. Como Benjamin Mendy tem sérias dificuldades para ficar em forma, Guardiola foi obrigado a improvisar Fabian Delph e Oleksandr Zinchenko pela ala canhota várias vezes. A troca com a Juventus para ter João Cancelo oferece outra alternativa, porque o português pode atuar nas duas laterais, mas segue sendo um mistério por que o clube ainda não tentou solucionar a lateral esquerdo com um lateral esquerdo.

Um problema na profundidade do ataque surgiu na Supercopa da Inglaterra. Leroy Sané era especulado no Bayern de Munique, com Niko Kovac dizendo publicamente que ele era o seu reforço dos sonhos. Nem terá a oportunidade de contratá-lo porque uma séria lesão deve deixar o jovem alemão fora dos gramados por um bom tempo. Isso deixa o ataque do City com apenas Bernardo Silva, Sterling e Mahrez para as pontas, com a possibilidade de deslocar Gabriel Jesus, que atou por ali durante a Copa América, ou mesmo improvisar o ofensivo Cancelo.

Esses são apenas detalhes. O Manchester City é muito forte coletivamente e possui um técnico hiper criativo que consegue se virar muito bem com improvisações, caso seja necessário. As principais incógnitas são se Guardiola conseguirá continuar motivando os seus jogadores a buscarem novamente a excelência, dando início à sua quarta temporada no clube, momento em que as coisas começaram a degringolar no Barcelona, e como equilibrar outra briga acirrada pelo título da Premier League, se o Liverpool mantiver o alto nível, com a busca pelo cálice sagrado da Champions League. Respondidas essas questões, o City será novamente o time a ser batido na Inglaterra.

Manchester United 

Os riscos de ser ansioso

Pogba ficou, mas até quando? (Foto: Getty Images)

Cidade: Manchester
Estádio: Old Trafford (74.994 pessoas)
Técnico: Ole Gunnar Solkjaer
Posição em 2018/19:
Projeção: Brigar por Champions League
Principais contratações: Harry Maguire (Leicester), Aaron Wan-Bissaka (Crytal Palace), Daniel James (Swansea)
Principais saídas: Antonio Valencia (LDU), James Wilson (Aberdeen), Ander Herrera (Paris Saint-Germain), Romelu Lukaku (Internazionale)

A lição que o Manchester United deixou na última temporada é que não é uma boa ideia tomar grandes decisões quando você está muito triste ou muito feliz. Inebriado pela maravilhosa virada contra o Paris Saint-Germain pela Champions League, o clube efetivou Ole Gunnar Solskjaer no cargo alguns meses antes do que era necessário, em vez de esperar o fim da temporada para ter a visão completa do trabalho do seu antigo ídolo. Quando chegou a sequência péssima de resultados na reta final da temporada, os Diabos Vermelhos se viram de mãos atadas e entram na nova campanha em dúvida se Solskjaer é o treinador que perdeu uma vez em 17 jogos ou o que conseguiu duas vitórias nas últimas 12 partidas da temporada, deixando escapar a vaga na Champions.

As casas de aposta acreditam na segunda hipótese e que ele será um dos primeiros a ser demitido na Premier League, mas a verdade é que ele é os dois. Solskjaer é um iniciante na profissão que conseguiu um bom começo na base da empolgação e de ter um humor um pouco melhor do que o de José Mourinho, um critério bem amplo, mas, quando as perguntas começaram a aparecer, mostrou que ainda não tem todas as respostas. Reconstruir o Manchester United provou-se um trabalho hercúleo mesmo para profissionais experientes como Louis van Gaal e Mourinho, e não é necessariamente uma má ideia apostar em um jovem com o qual o clube pode crescer lado a lado, um aprendendo o ofício, e o outro, a viver sem Alex Ferguson, desde que haja respaldo, tempo e que o norueguês mostre potencial.

O fato de Solskajer ter dito que o título da Premier League nesta temporada seria “milagroso”, e que a reação geral tenha sido “é, realmente seria”, mostra o quanto o Manchester United se distanciou dos tempos em que conseguia ser campeão inglês quase que por osmose. O que o clube precisa fazer é conseguir integrar o talento que tem à disposição e que consegue contratar, porque tem muito dinheiro, a uma ideia coesa de jogo, com estabilidade nos bastidores, o que acaba sendo muito difícil devido às dúvidas sobre a capacidade do treinador, e também porque o maior desses talentos não parece afim de continuar trabalhando em Old Trafford.

Caso Paul Pogba fique no Manchester United até o fim da temporada, a sensação será de que foi porque ninguém apareceu com dinheiro suficiente para contratá-lo. Com a janela fechada na Inglaterra, mas aberta na maioria dos grandes centros, seria natural dizer que dificilmente o francês ainda sairá durante o mês de agosto. Por outro lado, a saída de Lukaku, sem uma reposição alinhada, deixa até isso em dúvida.

O United pareceu um pouco alérgico a fazer altos investimentos, além da óbvia necessidade de reforçar a zaga com Harry Maguire, o que é compreensível porque, dos dez reforços mais caros da sua história, nove deles trazidos desde 2013, o que mais deu certo foi Rio Ferdinand, quase 20 anos atrás – e dois acabaram de chegar. Acontece que, mesmo com a permanência de Pogba, o meio-campo precisa de mais qualidade. Conta no momento com o francês e Scott McTominay, de quem a torcida gosta por ser identificado com o clube, jovem, prata da casa, mas que ainda parece profundamente comum. Fred segue com a cabeça na Ucrânia, Andreas Pereira nunca passou confiança, e Juan Mata também não. Nemanja Matic começa a decair.

Com a saída de Lukaku, a escassez de gols no ataque ficou um pouco desesperadora. Apesar de não ter cumprido as expectativas em Old Trafford, o belga ainda era o melhor finalizador da equipe. Agora, a torcida, quase fé, é para que Rashford, com contrato renovado durante o verão, se transforme em um grande artilheiro. O que ele ainda não é. Tem um gol a cada 232 minutos em campo pelo Manchester United. A espera média por um tento de Martial, outra opção para o comando do ataque, é de 235 minutos. De Jesse Lingard, 343. Nem adianta fazer a conta com Alexis Sánchez porque ele ainda está procurando o alienígena que roubou a sua alma. O ponta galês Daniel James foi uma boa contratação, promissora, mas seria injusto colocar esse fardo no recém-chegado garoto de 21 anos, ou em Mason Greenwood, ainda mais jovem (17).

Pelo menos, agora, o United tem uma defesa. Daquelas dez contratações mais caras, duas foram Maguire e Aaron Wan-Bissaka, e ambos foram necessários. Wan-Bissaka teve uma grande temporada pelo Crystal Palace, mas, muito jovem, não podemos ter certeza do seu potencial. Ainda representa um avanço em relação a Antonio Valencia, que voltou ao Equador, e Ashley Young. Maguire foi especulado em todos os clubes ingleses que um dia precisaram de zagueiro, e o Manchester United foi o primeiro a aceitar pagar o que o Leicester pedia pelo jogador da seleção inglesa. O valor de € 87 milhões chama a atenção, mas o United precisava pagá-lo.

Jogadores bons, prontos, comprovados, com experiência nacional e internacional e propensos a mudar de clube são raros. Não há mais do que dois ou três por posição, e nenhum clube quer perdê-los. O espaço para barganhar é pequeno. Quem quiser realmente os contratar precisa pagar o que está sendo pedido. A alternativa é garimpar talentos fora do radar ou contratar jovens e desenvolvê-los. Como o Manchester United falhou todas as vezes em que tentou fazer isso recentemente, foi obrigado a quebrar a banca por um zagueiro que resolvesse o seu problema, e Maguire pode fazer isso. Além de bom tecnicamente e dominante pelo alto, ele tem potencial para ser o líder da defesa vermelha, passando confiança para os companheiros crescerem.

A base pode vir forte, e se há alguma vantagem em ter Solskjaer no comando, é que ele conhece a história do clube e sabe que um dia um grupo de pratas da casa mudou a história do Manchester United. Greenwood, Tahith Chong, James Garner e Angel Gomes provavelmente não estão à altura da Classe de 1992, mas, com poucos gols no ataque e poucas opções no meio, de algum lugar o norueguês precisará tirar algo de diferente para alcançar o objetivo de chegar entre os quatro primeiros e talvez conquistar um título que não seja milagroso.

Newcastle

De volta à realidade

Bruce e Carroll, dois geordies que tentarão manter o Newcastle na primeira divisão (Foto: Getty Images)

Cidade: Newcastle
Estádio: St. James Park (52.490 pessoas)
Técnico: Steve Bruce
Posição em 2018/19: 13º
 Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Joelinton (Hoffenheim), Allan Saint-Maximin (Nice), Jetro Willems (Eintracht Frankfurt), Andy Carroll (West Ham)
Principais saídas: Ayoze Pérez (Leicester), Joselu (Alavés), Mohamed Diamé (Al Ahli), Dan Barlaser (Rotherham), Freddie Woodman (Swansea), Jacob Murphy (Sheffield Wednesday)

Era um consenso que Rafa Benítez estava levando o Newcastle além das suas reais possibilidades, e como esse lugar, na última temporada, foi o 13º da tabela da Premier League, a 11 pontos da zona de rebaixamento, o torcedor não quer descobrir exatamente quais são suas reais possibilidades. O comando do espanhol foi um gostoso sonho de verão: um treinador vitorioso, oriundo do Real Madrid, que entendia o potencial do clube, a paixão da sua torcida, e enfrentava o vilão Mike Ashley montado em seu garanhão branco e preto, vestindo capa e escudo. Agora, o clube acordou e deu de cara com Steve Bruce.

Bruce, vitorioso ex-capitão do Manchester Untied, tem experiência. Começou carreira fazendo trabalhos sólidos com o Sheffield United e o Huddersfield, dois oitavos lugares na segunda divisão, e se destacou no comando do Birmingham. Entre 2001 e 2007, levou o clube à Premier League, manteve-se nela três vezes, caiu para a Championship e subiu de novo. No Wigan e no Sunderland, o trabalho foi parecido: dois anos na elite escapando do rebaixamento ou ficando no meio da tabela.

A passagem pelo Hull City foi uma montanha-russa, que começou com o acesso à Premier League, passou por uma final de Copa da Inglaterra contra o Arsenal, salvando-se por pouco do rebaixamento. A queda chegou na temporada seguinte, e Bruce encerrou os quatro anos de trabalho com um novo acesso, via playoffs. Foi convocado para tentar devolver o Aston Villa, também de Birmingham, à primeira divisão e não conseguiu, após duas tentativas, embora a última tenha passado bem perto, com derrota na final dos playoffs para o Fulham. Passou alguns meses no Sheffield Wednesday antes de assumir o Newcastle.

Bruce não é péssimo, teve momentos em que foi bom, mas não é um vendedor de sonhos como Benítez. Nele, o Newcastle encontrou um profissional com currículo especializado no que o clube é no momento, e não no que os seus torcedores desejam que ele seja no futuro, com experiência em ficar na primeira divisão e, caso não role, retornar rapidamente. Um geordie (apelido de quem nasceu em Newcastle), identificado com a classe trabalhadora que compõe a maior parte da torcida, que girava catraca no St. James Park quando era mais jovem.

O primeiro passo da missão de coletar pontos suficientes para permanecer na Premier League, geralmente por volta de 40, é manter a solidez defensiva que o Newcastle apresentava com Benítez. Com 48 gols sofridos, foi a retaguarda menos vazada entre os dez últimos colocados e mais confiável do que as de Manchester United e Arsenal. O segundo passo é encontrar gols porque quase todos foram embora.

O Newcastle não tem mais seus dois artilheiros. Ayoze Pérez, com 13 por todas as competições, e Solomón Rondón, com 12, combinaram para 25, mais da metade dos 47 que o time marcou como um todo na última temporada. Quando eles saem da lista, o principal goleador foi o zagueiro Fabian Schär, com quatro. A esperança recai nos ombros da maior contratação da história do clube.

A chegada de Joelinton, pelo valor recorde de € 44 milhões, causou certa estranheza porque um dos pontos de fricção entre o dono Mike Ashley e Rafa Benítez foi justamente a falta de investimento no mercado. Por que permitir que o treinador saísse e depois fazer exatamente o que ele queria? Acontece que não foi isso que Ashley fez. Ele basicamente acrescentou alguns euros aos € 33 milhões que recebeu do Leicester por Pérez e, com a chegada de Allan Saint-Maximin, do Nice, por € 18 milhões, chegou a um saldo líquido negativo de € 28 milhões, alinhado com as janelas comandadas por Benítez.

Joelinton tem 22 anos e segue a política de mercado de Ashley, garotos que podem gerar lucro no futuro. Mostrou muito potencial no Hoffenheim como um atacante completo. Tem menos força física que Rondón, mas ganha em versatilidade, velocidade e capacidade de segurar a bola mais na habilidade do que no corpo. Mas ainda precisa melhorar a pontaria. Desde que saiu do Sport e foi para a Europa, nunca anotou mais de oito gols em uma liga nacional. Fez apenas sete pelo Hoffenheim, o que representa 10% dos 70 anotados por um dos times mais ofensivos da Europa. Se ele não funcionar, restam Yoshinori Muto e Dwight Gayle como especialistas no ofício de botar a bola para dentro.

Restavam. No último dia de mercado, o Newcastle resolveu apostar em um velho conhecido. Mais de oito anos depois de sair para o Liverpool, em uma época em que contratações de £ 35 milhões ainda nos deixavam escandalizados, Andy Carroll retornou ao St. James Park. Aos 30 anos, quer provar que ainda tem mais lenha para queimar em campo do que no departamento médico, onde passou boa parte da sua passagem pelo West Ham. E que ainda sabe fazer gols, o que está longe de garantido, porque a última Premier League em que chegou a dois dígitos foi justamente a de 2010/11, quando se transferiu em janeiro.

A principal esperança é que os três jogadores que agora são os mais talentosos do ataque se entendam e cresçam ao mesmo tempo. Joelinton deve trocar muito de posição com o paraguaio Miguel Almirón, que mostrou bons atributos desde que chegou do Atlanta United, em janeiro, mas ainda não abriu contagem na Inglaterra. Pelo clube americano, fez 22 gols em 70 partidas, uma média razoável para um meia-atacante. Pelos lados, a torcida é que Allan Saint-Maximin coloque sua cabeça no lugar. Seu treinador no Nice, Patrick Vieira, chegou a dizer que o ponta de 22 anos às vezes acha que talento sem esforço é o suficiente, o que imediatamente gerou comparações com Hatem Ben Arfa, outro francês problemático que chegou a ter bons momentos no St. James Park, mas foi embora sem deixar saudades.

Uma das marcas do trabalho de Benítez foi a maneira como ele fazia o Newcastle complicar os jogos contra os grandes, e Steve Bruce terá muitas oportunidades de mostrar que consegue fazer o mesmo logo no começo da temporada. As dez primeiras rodadas envolvem duelos contra Arsenal, logo na estreia, Tottenham, Liverpool, Manchester United e Chelsea, além dos complicados Watford, Leicester e Wolverhampton. Bruce não pode começar devagar. Precisa chegar voando às primeiras curvas para não terminar outubro em uma situação bem delicada na tabela.

Norwich 

Um pedaço de Alemanha 

E não é que Pukki de repente desandou a fazer gol? (Foto: Getty Images)

Cidade: Norwich
Estádio: Carrow Road (27.244 pessoas)
Técnico: Daniel Farke
Posição em 2018/19: 1º na Championship
 Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Ralf Färhmann (Schalke 04), Sam Byram (West Ham), Daniel Adshead (Rochdale), Josip Drmic (Borussia Monchengladbach), Ibrahim Amadou (Sevilla), Patrick Roberts (Manchester City), Rocky Bushiri (Oostende)
Principais saídas: Marcel Franke (Hannover), Ivo Pinto (Dínamo Zagreb), Steven Naismith (Heart of Midlothian), Yanic Wildschut (Maccabi Haifa), Tristan Abrahams (Newport County), Nélson Oliveira (AEK Atenas), Rocky Bushiri (Blackpool), Josh Coley (Dumfermline), Carlton Morris (Rotherham), Sean Raggett (Portsmouth), James Husband (Blackpool), Aston Oxborough (Wealdstone), Masom Bloomfield (Crawley Town), Matt Jarvis (sem clube)

Se uma vez deu certo, não há motivo para não tentar novamente. Quando assumiu a diretoria de futebol do Huddersfield, depois de passagens pelos departamentos de recrutamento e observação de Liverpool e Wolverhampton, Stuart Webber buscou um jovem treinador alemão no Borussia Dortmund II, e David Wagner conseguiu o acesso à Premier League. Quando assumiu a mesma função no Norwich, voltou a recorrer ao time reserva dos Papagaios Amarelos e quem encontrou foi Daniel Farke. E Daniel Farke conseguiu o acesso à Premier League.

Essa dupla conduziu uma política de transferências coerente e barata que acabou dando tão certo que o pulo à elite do futebol inglês chegou antes do esperado. Depois de ser rebaixado, em 2015/16, o Norwich ficou duas vezes no meio da tabela, uma delas já com Farke no comando. Perdeu James Maddison e Josh Murphy, dois jogadores importantes, e a expectativa para última temporada era novamente terminar por ali ou quem sabe arrancar uma vaga nos playoffs. Foi um pouco melhor: campeão, com 94 pontos e 93 gols marcados. Números alcançados por meio de uma ideia de jogo bem definida, com posse de bola (quarto maior índice da Championship), velocidade pelos lados e muitas finalizações (15,4 por jogo, segunda marca da divisão).

E, claro, pelos jogadores que a executaram, a maioria deles garimpados onde ninguém mais estava olhando. O goleiro Tim Krul, com experiência de Copa do Mundo pela Holanda, foi uma exceção. Nas laterais, há dois pratas da casa. Jamal Lewis pela esquerda, e Max Aarons pela direita, eleito o melhor jogador jovem da Football League (entre a quarta à segunda divisão). A zaga é liderada por Christoph Zimmermann, velho conhecido de Farke do time reserva do Dortmund. Ao seu lado, o suíço de 31 ano Timm Klose, ex-Nuremberg e Wolfsburg, atuou na primeira metade da temporada, e o jovem inglês Ben Godfrey, contratado do York City em 2016, na segunda.

Alexander Tettey, nascido em Gana e naturalizado norueguês, desde 2012 no Norwich, começou o meio-campo. A influência alemã é clara no restante do setor, com Tom Trybull, contratado dois anos atrás do ADO Den Haag, da Holanda, e com passagens Werder Bremen, St. Pauli e Greuter Fürth; Moritz Leitner, com boa experiência de Bundesliga com as camisas do Borussia Dortmund, do Stuttgart e do Augsburg; e o bósnio Mario Vrancic, outro que embarcou no projeto em 2017, depois de defender Paderborn e Darmstadt.

A linha ofensiva é onde os gatos realmente começam a pular. O camisa 10 do Norwich foi Marco Stiepermann, de 28 anos, trazido da Alemanha por Webber e utilizado por Farke como lateral esquerdo na primeira temporada. Deslocado para a frente, foi uma revelação, com nove gols e oito assistências na Championship. Para o lado direito, o clube buscou o argentino Emiliano Buendía, ex-Getafe, que estava jogando pela Cultura Leonesa, da segunda divisão espanhola. Ele foi o segundo em assistências na liga, com 12, empatado com outros dois jogadores. À esquerda, esteve o cubano Onel Hernández, cuja carreira inteira foi construída na Alemanha.

A grande surpresa foi a quantidade de gols que o atacante Teemu Pukki conseguiu fazer. Chegou, após uma passagem competente pelo Brondby e foi o artilheiro da Championship, com 29 tentos em 43 partidas, números bem diferentes ao que conseguiu quando defendeu clubes da estatura de Schalke 04 e Celtic. E o grande lance da formação de time do Norwich é que ninguém custou muito caro. Dos garimpos de Webber que compuseram o time campeão, o que mais exigiu investimento foi Hernández, contratado por € 2,5 milhões do Eintracht Brauncshweig. Os outros não chegaram a € 2 milhões ou não exigiram taxa de transferência, como Pukki, Krul e Zimmermann.

A análise do time da temporada passada é importante porque é com esses caras que o Norwich tentará se manter na Premier League. Ao contrário de outros clubes que subiram recentemente com altos investimentos, como Fulham, Wolverhampton e Aston Villa, a espinha dorsal foi mantida e o mercado seguiu uma linha modesta. O destaque foi para o goleiro Ralf Färhmann, cujo empréstimo exigiu o maior desembolso de grana. As expectativas maiores recaem em Josip Drmic, jogador de Copa do Mundo que passou um bom tempo machucado nos últimos quatro anos e foi titular apenas duas vezes pelo Borussia Monchengladbach na última temporada. E Patrick Roberts, jovem promessa do Manchester City que ainda não estourou e não foi bem no seu último empréstimo, com o Girona.

Agora na Premier League, o Norwich descobrirá se o seu estilo ofensivo funciona contra defesas mais fortes e, principalmente, se a defesa resistirá a ataques muito mais agressivos. A retaguarda sofreu 57 gols na Championship, mais do que a do Stoke City, 16º colocado. E como a estreia será contra o Liverpool, o primeiro teste já será de fogo.

Sheffield United

A volta do berço do futebol inglês

Lenda da Football League, Billy Sharp tentará provar que também consegue marcar na elite (Foto: Getty Images) 

Cidade: Sheffield
Estádio: Bramall Lane (32.702 pessoas)
Técnico: Chris Wilder
Posição em 2018/19: 2º na Championship
 Projeção: Brigar contra o rebaixamento
Principais contratações: Olivier McBurnie (Swansea), Lys Mousset (Bournemouth), Callum Robinson (Preston North End), Luke Freeman (Queens Park Rangers), Phil Jagielka (Everton), Ravel Morrison (Östersund), Ben Osborn (Nottingham Forest), Dean Henderson (Manchester United), Michael Verrips (Mechelen), Muhamed Besic (Everton)
 Principais saídas: Conor Washington (Heart of Midlothian), Paul Coutts (Fletwood), Martin Cranie (Luton Town), Nathan Tomas (Carlisle United), Jake Eastwood (Scunthorpe), Ched Evans (Fleetwood), Caolan Lavery (Walsall), Mark Duffy (Stoke)

Aos 46 minutos do segundo tempo, Phil Jagielka interceptou o chutão da defesa do Middlesbrough com o peito, deixou a bola correr alguns metros e soltou um chute cruzado de fora da área. A pingada na pequena área foi demais para o goleiro Mark Schwarzer. O golaço valeu a primeira vitória do Sheffield United naquela Premier League, que um dos clubes mais antigos do país voltava a disputar após 12 anos.

Meses depois, o zagueiro precisou quebrar galho no gol contra o Arsenal quando o titular Paddy Kenny se machucou porque o treinador Neil Warnock não havia levado um goleiro reserva para o banco. Defendeu um chute à queima-roupa de Van Persie e assegurou o triunfo por 1 a 0. Apesar desses atos de heroísmo, United e Jagielka se separaram ao fim daquela temporada 2006/07. O zagueiro foi para o Everton construir uma carreira de respeito, e o clube afundou-se nas divisões inferiores da Inglaterra. Separaram-se, no entanto, apenas para se encontrarem novamente no momento em que o United retorna à elite.

A experiência de quem jogou 360 vezes pela Premier League será importante em um elenco que praticamente nunca sentiu o gosto da primeira divisão. Quando subiu à Championship, o Sheffield United buscou reunir o máximo de talento que era possível da terceirona, torcendo para que eles se mostrassem capazes de jogar bem no degrau superior. Eles foram. Agora, tenta a mesma estratégia, com a maioria dos seus reforços oriunda da segunda divisão, destaques de Swansea, Preston North End, Queens Park Rangers e Nottingham Forest. No entanto, o pulo necessário para se firmar na Premier League é mais alto, assim como o investimento. O United quebrou quatro vezes o seu recorde de transferências para um valor total superior a € 43 milhões.

Quem trouxe? Luke Freeman, meia-atacante inglês de 27 anos, estabelecido na Championship há quatro temporadas, por Bristol City e Queens Park Rangers, com um auge de 12 assistências e cinco gols em 2017/18. Callum Robinson custou um pouco mais. Meia-esquerda com partidas pela seleção irlandesa, estava no Preston North End desde 2016. Emendou três campanhas próximas aos dois dígitos em gols: 10, oito e 13. O mais caro foi Olivier McBurnie, atacante inglês que estava no Swansea e, depois de períodos por empréstimo para Newport County, Bristol Rovers e Barnsley, fez 22 gols pelos galeses de Graham Potter na última temporada da segunda divisão.

O Sheffield United rolará os dados com Ravel Morrison. “Eu pagaria para vê-lo treinar, jogar uma partida, então, nem se fala. Desde o primeiro dia que o vi, meu antigo chefe disse: ‘dê uma olhada neste garoto’. O treinador achava que Morrison era o melhor jogador que ele havia visto naquela idade (14 anos)”, disse Rio Ferdinand. O chefe a que ele se referia era Alex Ferguson, que acompanhou o crescimento do meia inglês pelas categorias de base do Manchester United.

Quando os Red Devils conquistaram a Copa da Inglaterra Jovem de 2011, a equipe contava com Paul Pogba e Jesse Lingard, mas foi Morrison quem marcou duas vezes na partida final contra, de todos os times, o Sheffield United. “Para o Manchester United, a importação francesa Paul Pogba, Ryan Tunnicliffe, Morrison e (Will) Keane brilharam. Mas Morrison foi o jogador chave, assegurando seus dois gols via um ótimo domínio antes de finalizar e uma arrancada com um chute rasteiro a 20 metros no segundo”, escreveu a BBC sobre o jogo.

A carreira de Morrison no United terminou em janeiro de 2012, quando foi vendido ao West Ham após uma série de problemas disciplinares. Ele nunca se firmou em lugar nenhum e olha que foi para vários lugares. Passou por Birmingham, Queens Park Rangers, Lazio, Cardiff e Atlas, do México. O máximo que conseguiu foram 30 partidas pelo Birmingham, quando havia acabado de sair de Old Trafford. Nos outros clubes, era um feito quando passava de 20. Antes de assinar com o Sheffield United, passou alguns meses no Östersunds, pelo qual entrou em campo apenas seis vezes.

A contratação não teve custos, tornando-a um risco calculado que, se der certo, pode acrescentar um pouco de qualidade de alto nível a um time que realmente precisa dela. Outro do qual se espera alguma coisa é Lys Mousset, que chegou ao Bournemouth como um destaque do Le Havre, celeiro francês de craques, e com passagens pelas seleções de base do seu país, mas nunca decolou na Inglaterra. Praticamente reserva nos últimos três anos, terá a oportunidade de atuar mais no United e pelo menos jogou 58 vezes na Premier League, terceiro do elenco, atrás de Jagielka e Richard Stearmann (77). Entre os outros oito jogadores com experiência na elite inglesa, nenhum passa das 37 partidas e, juntos, somam 107 jogos.

Um deles é o primeiro torcedor com o qual o Sheffield United conta para para impulsioná-lo à salvação. O capitão Billy Sharp, 33 anos, chegou a atuar duas vezes pelo Southampton na Premier League, mas sua lenda foi construída nas divisões inferiores. Pela segunda e a terceira, marcou 228 gols, por sete clubes diferentes, e soma mais nove na League Two pelo Rushden & Diamonds, infelizmente extinto por problemas financeiros porque tinha um nome muito da hora. Cria de Sheffield, seu coração sempre esteve ligado ao United, no qual foi formado e ao qual retornou, em 2015, quando ainda estava tentando se recuperar da morte do seu filho recém-nascido, Luey, quatro anos antes. “Marcar pelo Sheffield United é extra especial porque é o clube para o qual eu torcia quando era criança”, disse.

A equipe parecia presa à terceira divisão, amargando três derrotas nos playoffs. Em 2016/17, os 30 gols de Billy ajudaram, mas o que mudou a trajetória foi a chegada de outro filho de Sheffield, o treinador Chris Wilder. Ele vinha de trabalhos respeitáveis no Halifax Town, Oxford United e Northampton Town, pelo qual foi campeão da quarta divisão com 99 pontos. Assumiu o Sheffield United, do qual foi jogador quando o clube conseguiu ascender a tempo de pegar a primeira edição da Premier League, e imediatamente conquistou o acesso e o título da League One, superando a campanha que parecia insuperável do seu Northampton: 100 pontos.

Depois de ficar no meio da tabela, Wilder conseguiu uma arrancada na segunda parte da última Championship e tirou o Leeds de Marcelo Bielsa das vagas de promoção direta. Fez isso com uma equipe geralmente armada no 3-5-2, muito intensa e equilibrada: foi o quarto melhor ataque da competição e a melhor defesa. Billy contribuiu com 23 gols, Oliver Norwood trouxe a experiência de quem atuou quase 300 vezes na segunda divisão e o jovem goleiro Dean Henderson segurou as pontas debaixo das metas. Com passagens pelas seleções de base da Inglaterra, o jogador do Manchester United retornou para mais um ano emprestado ao Sheffield.

Wilder é tido como uma espécie de operador de milagres pela maneira como conseguiu alçar o Sheffield United à Premier League tão rapidamente. A cidade foi um dos berços do futebol inglês, casa do clube considerado o mais velho do mundo, o Sheffield FC, com uma história riquíssima, e merece estar na elite do país. No entanto, para continuar nela, Wilder terá que tirar mais um grande coelho da cartola.

Southampton 

O Klopp dos Alpes

Mamma, uuuuuuh, I don’t wanna die (Foto: Getty Images)

Cidade: Southampton
Estádio: St. Mary’s Stadium (32.384 pessoas)
Técnico: Ralph Hasenhüttl
Posição em 2018/19: 16º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Danny Ings (Liverpool), Che Adams (Birmingham), Moussa Djenepo (Birmingham)
Principais saídas: Matt Target (Aston Villa), Sam Gallagher (Blackburn), Charlie Austin (West Brom), Steven Davis (Rangers), Jack Rose (Walsall), Jordy Clasie (AZ Alkmaar), Harrison Reed (Fulham), Josh Sims (New York Red Bulls)

Se você, como eu, não aguenta mais ouvir Bohemian Rhapsody, desde que o filme sobre a carreira do Queen foi indicado ao Oscar, assegure-se de nunca visitar Ralph Hasenhüttl depois de uma vitória. “Bohemian Rhapsody é fantástica. Eu gosto de tocá-la. É linda”, afirmou. “Eu toco músicas do Queen, do Elton John, música clássica. Eu toco piano quando estou sozinho em casa à noite. Algumas vezes para amigos, quando estamos juntos, cantando juntos, para criar uma atmosfera legal. Eu tenho um maravilhoso apartamento em Southampton e, às vezes, depois de partidas, recebo amigos e a família, especialmente depois de vitórias”. Contra todas as expectativas, pela maneira como a primeira metade da temporada do Southampton decorreu, houve várias vitórias sob o comando de Hasenhüttl, treinador austríaco que se viu em 19º lugar quando chegou ao St. Mary’s Stadium e conseguiu a manutenção na Premier League com uma sobra de cinco pontos.

A excentricidade de Hasenhüttl, cujo apelido é Klopp dos Alpes por compartilhar da filosofia de futebol do treinador do Liverpool e por também correr que nem um maníaco pela linha lateral do gramado, transcende a capacidade de atingir as notas certas com os dedos. Quando saiu do VfR Aalen, pelo qual ganhou proeminência pela primeira vez ao salvá-lo do rebaixamento e conquistar um inédito acesso à segunda divisão alemã, pedalava entre os treinos do Borussia Dortmund e do Borussia Monchengladbach e usava um binóculo para espiar os treinamentos. “É melhor ficar anônimo porque senão as pessoas conversam com você, se elas o conhecerem, e você não consegue se concentrar no treinamento”, disse, ao Guardian. “Eu também estava na Itália quando a Alemanha se preparava para a Copa do Mundo porque era interessante para mim. Eu sou talvez, por esse ponto de vista, um pouco louco, mas me fez um treinador melhor”.

Hasenhüttl e Klopp nasceram no mesmo verão de 1967 e foram colegas de classe no curso exigido para o certificado de treinador. Ao contrário do companheiro, que já estava bem arranjado no Mainz e teve uma ascensão meteórica, Hasenhüttl teve que sofrer um pouco mais. Depois do Aalen, assumiu o Ingolstadt, em 2013, e conseguiu levá-lo à Bundesliga. A campanha de estreia do clube na elite foi confortável, em 11º lugar, e o preparou para treinar o RB Leipzig, que também chegava à elite alemã como um novato. Foi vice-campeão pelo clube apoiado pela Red Bull e conseguiu vaga na Champions League. Saiu após um sexto lugar e, em dezembro, assumiu o Southampton que lutava contra o rebaixamento, em vez de talvez esperar uma boa proposta da Alemanha, onde construiu uma reputação. Outra evidência de que é meio louco.

Mas a linha é tênue entre a loucura e a genialidade. O Southampton foi um trampolim para Mauricio Pochettino e Ronald Koeman e, desde a saída dos dois, procurava um outro treinador com a mesma promessa, depois de passar por Claude Puel, Mauricio Pellegrino e Mark Hughes. Pode tê-lo encontrado no primeiro austríaco a treinar um clube da Premier League. O Southampton reviveu sob o seu comando, tornando-se difícil de ser batido e colecionando vitórias suficientes para escapar do rebaixamento, inclusive sobre Arsenal, Tottenham, Everton e Wolverhampton. Tudo isso tentando imprimir um estilo parecido ao de Klopp. “Nós queremos jogar com alta intensidade, queremos nossos jogadores correndo muito, pressionando, e são esses elementos que tornam o jogo mais vivo e variado e deixam as pessoas animadas. Em todo lugar que trabalhei, no Aalen, no Ingolstadt ou aqui (na época, RB Leipzig), os estádios sempre estiveram cheios pela maneira como jogávamos”, afirmou, ao site da Bundesliga, ano passado.

Ele usou várias formações na última temporada. A mais frequente envolveu três zagueiros, aproveitando o apoio de Ryan Bertrand pela esquerda e Yan Valery pela direita. O meio-campo variou bastante, mas sempre teve Pierre-Emile Höjbjerg, capitão do time, Oriel Romeu, Mario Lemina ou James Ward-Prowse, que cresceu de produção sob o comando do austríaco, às vezes na linha de volante, às vezes como meia-atacante, às vezes aberto. Todas as táticas envolviam dois atacantes, dando liberdade a Nathan Redmond, com Danny Ings mais fixo. Ele terminou a temporada replicando o 4-2-2-2 que deu muito certo no RB Leipzig e, agora mais assentado, pode usá-lo desde o começo no Southampton. É o que indica o seu tímido mercado.

Caso Hasenhüttl realmente use essa formação, o ataque terá Danny Ings, contratado em definitivo do Liverpool, ao lado de Che Adams, centroavante de bom porte físico que marcou 22 gols na última Championship pelo Birmingham. Trivia: batizado em homenagem a Che Guevara: “Che Guevara estava nos jornais no momento em que eu nasci, acho que era algo sobre onde seu corpo havia sido enterrado, embora eu não tenha muita certeza. Minha mãe só gostava muito do nome”. Nathan Redmond tem lugar cativo na armação pelos lados, mas ganhou a concorrência de Moussa Djenepo, jogador de 21 anos que se destacou pelo Standard Liège.

Pela segunda vez seguida, o Southampton não teve que se preocupar com o assédio de grandes clubes pelos seus jogadores, o que por um lado é legal para manter a estrutura da equipe, e por outro evidencia que o clube não tem mais em seu elenco nomes como Sadio Mané e Virgil Van Dijk. Alguns reforços contratados com altas expectativas não deram certo, como Lemina, Sofiane Boufal e Guido Carrilo e, se dependesse do Southampton, eles seriam despachados antes do fim da janela de transferências europeia.

A zaga conta com cinco jogadores, mas nenhum realmente passa muita confiança. Com essas condições, talvez seja esperar muito que Hasenhüttl alcance resultados como os de Pochettino ou Koeman, na parte de cima da tabela da Premier League, mas uma temporada sem sustos já seria um sucesso, especialmente se ela envolvesse algumas vitórias em casa, aproveitando a lotação de estádios que, segundo ele, seu time causa. O Southampton ganhou apenas 11 das últimas 49 rodadas do Campeonato Inglês no St. Mary’s, e cinco já foram com o pianista austríaco no comando.

Tottenham

E, agora, a bonança

Com estádio inaugurado, o Tottenham tem, enfim, poder de investimento (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Tottenham Hotspur Stadium (62.000 pessoas)
Técnico: Mauricio Pochettino
Posição em 2018/19: 
Projeção: Champions League
Principais contratações: Tanguy Ndombélé (Lyon), Giovanni Lo Celso (Betis), Jack Clarke (Leeds), Ryan Sessegnon (Fulham)
Principais saídas: Fernando Llorente (sem clube), Jack Clarke (Leeds), Michel Vörm (sem clube), Vincent Janssen (Monterrey), Kieran Trippier (Atlético de Madrid), Josh Onomoah (Fulham), Cameron Carter-Vickers (Stoke City)

Mauricio Pochettino não conseguiu conquistar o título que seu trabalho merecia, mas chegar a uma inédita final de Champions League com o Tottenham rivaliza em importância com qualquer troféu – menos, claro, o da própria Champions League. Especialmente por tê-lo feito sem gastar um centavo de libra no mercado de transferências, ao mesmo tempo em que se segurava para conseguir mais uma vaga na principal competição europeia, igualando a sequência de quatro temporadas terminando entre os quatro primeiros de Bill Nicholson, a melhor da história do clube (e segue sendo porque aquela teve um título). Os cofres precisaram ficar fechados enquanto o Tottenham construía o seu novo estádio, mas, passada a tempestade, chegou a hora da bonança.

Como Pochettino havia dito que renunciaria caso fosse campeão europeu, e ninguém estava disposto a descobrir o quanto de bravata existia naquela declaração, a única boa notícia da derrota para o Liverpool em Madri é que o argentino se prepara para sua sua sexta temporada à frente dos Spurs e, se conseguiu fazer mágica com recursos modestos, a expectativa é muito alta para o que fará daqui para frente, com a possibilidade de realizar negócios como Tanguy Ndombélé, Giovanni Lo Celso e Paulo Dybala, que acabou não sendo contratado pelo Tottenham, mas o fato de ter se tornado uma possibilidade real é também um indicativo do novo patamar em que o clube se encontra: houve dinheiro suficiente para a Juventus aceitar a proposta inglesa, e Dybala se mostrou disposto a negociar, mesmo que no fim jogador e clube não tenham chegado a um acordo sobre os direitos de imagem.

Com a janela fechando na Inglaterra antes de outros centros, ainda não conseguimos saber exatamente o quanto o elenco do Tottenham se fortaleceu. Pelas movimentações, os três principais reforços chegam para repor saídas que já aconteceram ou provavelmente acontecerão. Ndombélé ocupa a vaga de Moussa Dembélé, que foi para a China, em janeiro. O talentoso belga era bem cotado nos Spurs, mas também irregular. Ndombélé, dez anos mais jovem, tem potencial de melhorar o time titular, atuando ao lado de um volante, como Eric Dier ou Harry Winks, ou mesmo com Lo Celso ou Eriksen em uma formatação mais ofensiva. Tem força física e habilidade para carregar a bola.

A chegada de Lo Celso parece preparar a sucessão de Eriksen. O dinamarquês tem sido o principal armador do time londrino, líder de assistências, mas seu contrato termina ao fim desta temporada e, aos 27 anos, ele parece propenso a abraçar um novo desafio. Existe a possibilidade de ele sair ainda nesta janela, para que Daniel Levy aproveite a última oportunidade de fazer dinheiro com uma das melhores contratações que realizou como presidente do Tottenham. Por via das dúvidas, chegou o argentino de 23 anos, por empréstimo com opção de compra. Como Eriksen, Lo Celso pode atuar como meia central ou mais avançado, pelo meio da linha de armação de um 4-2-3-1, e, no Paris Saint-Germain, chegou a ser volante em momentos de necessidade extrema, o que não é muito recomendável.

O jogador mais antigo do elenco do Tottenham é Danny Rose, com mais dois anos de contrato, mas ele foi deixado de fora da turnê asiática para “explorar oportunidades”. Em um ótimo exemplo da juventude tomando lugar da experiência, o clube já se preparou para uma possível saída do lateral esquerdo com a contratação de Ryan Sessegnon, um desejo antigo. Aos 17 anos, Sessegnon era conhecido pelo sucesso que fazia nas categorias de base da seleção inglesa e foi o craque da campanha do acesso do Fulham à Premier League. Que tenha tido dificuldades para se adaptar ao nível da primeira divisão é natural, especialmente em meio à bagunçada temporada do clube do oeste de Londres, mas nem completou 20 anos ainda e tem talento de sobra para ser lapidado por Pochettino. Pode jogar também na linha ofensiva.

O primeiro mercado do Tottenham com acesso a fundos depois da inauguração do estádio serviu, em um primeiro momento, para qualificar as opções, mais do que aumentá-las, e isso pode acabar fazendo falta. Porque em números aritméticos, o elenco que Pochettino carrega para a temporada está um pouco mais curto, principalmente se Eriksen realmente sair. Kieran Trippier foi negociado com o Atlético de Madrid, e Pochettino tem apenas Serge Aurier e o jovem Kyle Walker-Peters para a lateral direita. O zagueiro argentino Juan Foyth, ex-Estudiantes, também pode ser usado por ali.

Vincent Janssen foi um retumbante fracasso no norte de Londres, mas Fernando Llorente acabou sendo importante quando Harry Kane se machucou. Com os dois saindo, Pochettino fica sem opção de centroavante para poupar o seu capitão, a não ser que mude a maneira de o time jogar, com Son ou Lucas Moura mais avançados, como fez algumas vezes na última temporada, com muito sucesso. Depois de um empréstimo apagado ao Monaco, Georges-Kevin N’Koudou retornou ao Tottenham e, se não for repassado novamente, pode pelo menos ser um jogador a mais no setor ofensivo.

Uma variável que pode aumentar a força dos Spurs é que o sucesso da temporada passada foi alcançado sem grandes préstimos de seu principal jogador. Kane marcou 17 vezes na Premier League, sua pior marca desde que explodiu, e perdeu muitas rodadas por lesão. Caso retorno ao seu excelente nível padrão, significaria pelo menos mais uns dez gols ao time do Tottenham. Outro que tem espaço para melhorar é Dele Alli. Sua produção caiu de 22 tentos em 2016/17 para 14 e depois para sete. O errático jogador de 23 anos já mostrou muita qualidade, mas agora precisa provar que consegue apresentá-la com consistência para não virar apenas outra estrela cadente do futebol inglês.

O problema para o Tottenham é que há muito terreno para cobrir se ele quiser chegar aos líderes Manchester City e Liverpool, e essa tem que ser mesmo a sua ambição. A distância na última temporada foi de 27 pontos para o campeão, graças a uma derrocada na reta final, na qual, distraído pela Champions League, conseguiu apenas três vitórias em 12 rodadas. Talvez os primeiros grandes investimentos não sejam suficientes para brigar pelo título inglês, mas o clube segue percorrendo o caminho certo, com um crescimento moderado e sustentável, e a final europeia serviu para convencer o seu torcedor de que a paciência gera boas recompensas.

Watford 

Rara estabilidade

Deulofeu cresceu em nova função pelo Watford (Foto: Getty Images)

Cidade: Watford
Estádio: Vicarage Road (21.000 pessoas)
Técnico: Javi Gracia
Posição em 2018/19: 11º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Ismaila Sarr (Rennes), Danny Welbeck (Arsenal), Craig Dawson (West Brom), João Pedro (Fluminense, a partir de janeiro), Tom Dele-Bashiru (Manchester City)
Principais saídas: Dodi Lukebakio (Hertha Berlim), Obbi Oulare (Standard Liège), Jerome Sinclair (VVV-Venlo), Ben Wilmot (Swansea), Kwasi Sibo (UD Ibiza), Tommi Hoban (sem clube), Miguel Britos (aposentado)

Em meados de 2009, quando Brendan Rodgers decidiu encerrar seu primeiro trabalho para comandar o Reading, o cargo de treinador do Watford ficou vago. Malky Mackay assumiu-o e, com muitas dificuldades, conseguiu evitar o rebaixamento à terceira divisão, e o que torna essa história relevante é que o escocês era o último homem a conseguir emendar uma segunda temporada à frente do Watford, ainda antes de a família Pozzo comprar o clube. O espanhol Javi Gracia quebrou a sequência negativa, depois de ter comandado uma campanha surpreendente, talvez a que mais superou expectativas na última Premier League.

Alguns nomes dos que tentaram e falharam aumentam um pouco o tamanho do feito de Gracia: Sean Dyche, atual treinador do Burnley, Gianfranco Zola, Slavisa Jokanovic, líder do acesso do Fulham, Quique Sánchez Florez, Walter Mazzari, com experiência em Napoli e Internazionale, e Marco Silva, atual comandante do Everton. Quando chegou ao Watford, Gracia não apresentava nada de espetacular. Havia feito bons trabalhos na Espanha, com alguns acessos e sólidos resultados com o Málaga. Mas conseguiu administrar bem o vestiário, encontrou soluções táticas e, não fosse uma derrapada na reta final, teria terminado na parte de cima da tabela. Ah, e levou o Watford à final da Copa da Inglaterra pela primeira vez em 35 anos.

Poucos imaginariam tanto sucesso no começo da temporada porque a anterior, depois de um bom começo, havia sido acidentada pelo assédio do Everton a Marco Silva, que acabou demitido, e, já com Gracia, terminou com o Watford em 14º lugar, a oito pontos da zona de rebaixamento. O português levara Richarlison para Liverpool e o dinheiro mal fora reinvestido, com a permanência de Gerard Deloufeu sendo o principal negócio. O espanhol cresceu em uma nova função e tudo meio que encaixou. Abdoualye Doucouré e Étienne Capoue fizeram uma dupla de volantes muito forte, com Roberto Pereyra pela esquerda e Will Hughes pela direita. Deloufeu saiu das pontas para ser o segundo atacante, com liberdade para circular em volta de Troy Deeney ou Andre Gray e foi artilheiro do time com 12 gols.

Houve uma tendência de melhora tanto no ataque, que pulou de 44 para 52 gols na Premier League, quanto na defesa, caindo de 64 tentos sofridos para 59. Foi no geral uma temporada de evolução, com destaque óbvio para a campanha na Copa da Inglaterra, na qual eliminou o Wolverhampton com Deulofeu saindo do banco de reservas para fazer dois gols em uma incrível virada concretizada na prorrogação. Para continuar crescendo, o Watford fez algumas contratações interessantes, nenhuma mais do que o senegalês Ismaila Sarr, de 21 anos.

Descoberto pela mesma academia que levou Sadio Mané à Europa, Sarr despontou pelo Metz e chegou ao Rennes um ano depois da saída de Ousmane Dembélé. Teve uma boa temporada pelo clube que ganhou a Copa da França e parou apenas no Arsenal, nas oitavas de final da Liga Europa. Atuará em uma das pontas, liberando Hughes para voltar ao meio-campo. Outro reforço interessante é o zagueiro Craig Dawson, experiente jogador com 153 partidas pelo West Brom e 12 gols, o que o coloca próximo ao top 50 de defensores artilheiros na história da Premier League. E Danny Welbeck que, sem taxa de transferências, pode ajudar como uma opção tanto para a posição de segundo atacante, quanto pelos lados.

O grande problema para o Watford é que a última temporada foi mais ou menos o melhor que dá para fazer, mesmo acrescentando contratações promissoras ao elenco. Com um terceiro patamar da tabela se fortalecendo, é difícil imaginar que consiga melhorar muito a 11ª posição. Pode tentar novamente chegar a uma final de copa e torcer para não ter que enfrentar um dos melhores times que a Inglaterra já viu, mas não deve fugir muito disso. E, para um clube como o Watford, a recém-encontrada estabilidade está de bom tamanho.

West Ham 

Colocando ordem na casa

Ex-Frankfurt, Haller tem potencial para acabar com a maldição do centroavante do West Ham (Foto: Getty Images)

Cidade: Londres
Estádio: Estádio Olímpico de Londres (60.000 pessoas)
Técnico: Manuel Pellegrini
Posição em 2018/19: 10º
Projeção: Meio de tabela
Principais contratações: Sébastian Haller (Eintracht Frankfurt), Pablo Fornals (Villarreal), Albian Ajeti (Basel), Gonçalo Cardoso (Boavista), Roberto (Espanyol), David Martin (Milwall)
Principais saídas: Marko Arnautovic (Shanghai SIPG), Pedro Obiang (Sassuolo), Edmilson Fernandes (Mainz), Lucas Pérez (Alavés), Reece Oxford (Augsburg), Sam Byram (Norwich), Samir Nasri (Anderlecht), Adrián (Liverpool), Andy Carroll (Newcastle)

O West Ham adquiriu a fama de contratar todos os Jack Wilsheres que vê pela frente (inclusive o próprio). Essa definição abriga aqueles que já foram grandes promessas ou tiveram momentos de brilho, mas, por algum motivo, físico, disciplinar ou técnico, não são mais os mesmos jogadores. Não necessariamente ingleses. Podem ser o Samir Nasri também. Mas, justamente por estarem em decadência, são mais baratos e topam defender o clube londrino, que tenta recuperá-los para diminuir a distância para os grandes. A estratégia resultou em alguns mercados caóticos e pouco sucesso, e não estranha que, com a chegada de um treinador renomado, ela tenha sido interrompida.

O primeiro mercado de Manuel Pellegrini no leste de Londres ainda foi um pouco movimentado demais, com algumas dessas tentativas de dar o pulo do gato – as duas que usamos para batizar o conceito explicado acima -, mas era natural para um começo de trabalho. O ex-treinador do City e do Real Madrid precisava montar uma estrutura e garimpar alguns talentos. A mudança de curso ocorre a partir do momento em que o West Ham decidiu ser cirúrgico nesta janela de transferências, com apenas dois altos investimentos, ambos muito promissores, e alguns outros jogadores para compor elenco. Uma rara ocasião em que há uma ideia por trás das movimentações de mercado.

O passo inicial foi abrir espaço no elenco, e mesmo reduzi-lo, despachando alguns erros antigos. O quase nunca disponível Andy Caroll retornou para o Newcastle, Samir Nasri reuniu-se com Vincent Kompany no Anderlecht, e Lucas Pérez foi vendido ao Alavés. Marko Arnautovic foi o artilheiro do time na Premier League, com dez gols, mas teve sua venda sancionada para a China, na segunda vez em que tentou convencer os donos a deixá-lo sair. Pellegrini concluiu que era melhor atender ao desejo do jogador de 30 anos do que que arriscar que ele, famoso por ter personalidade errática, ficasse insatisfeito e se tornasse uma influência negativa no vestiário. E também porque passou da hora e o West Ham parar de trabalhar com quebra-galhos para o comando do ataque.

O último camisa 9 prolífico foi Carlton Cole, ainda quando o time estava na segunda divisão. Desde que subiu, em 2011/12, nenhum centroavante passou de 10 gols na Premier League, e os artilheiros costumam ser meias: Kevin Nolan, Dimitri Payet, Michail Antonio e Arnautovic, descoberto como atacante centralizado por David Moyes, um dos poucos legados que deixou. Isso não seria um problema se os tentos fossem divididos entre vários jogadores, mas, nos últimos sete anos, a média foi de 48 bolas nas redes por edição da liga inglesa – e olha que houve uma temporada fora da curva, com 65. Depois de tentar Carroll, Borriello, Sakho, Enner Valencia, Zaza, Calleri, Pérez e Chicharito Hernández, talvez o West Ham tenha encontrado o seu cara.

Os louros da temporada do Eintracht Frankfurt descansaram na cabeça de Luka Jovic, merecidamente transferido para o Real Madrid, mas parte do sucesso teve a ver com a principal característica do seu antigo companheiro de ataque. O francês Sébastian Haller, 25 anos, sabe fazer gols, tanto que anotou 20 por todas as competições pelo Frankfurt, mas, com força física para segurar a bola, inteligência e bom passe, também ajuda a colocar os companheiros no jogo, e isso pode ser particularmente importante para a legião de meias do elenco, incluindo a outra grande contratação do West Ham.

Pablo Fornals tem apenas 23 anos e é um dos destaques da nova geração espanhola. Foi campeão europeu sub-21 mostrando um bom futebol. Despontou pelo Málaga e foi bem no Villarreal, chegando a dar 11 assistências em uma temporada de La Liga. Deve atuar como meia-atacante, atrás de Haller, aproveitando os espaços que ele abrirá com sua movimentação e trabalho de pivô.

Vamos lembrar, para efeitos hipotéticos, a carreira de Andrii Yarmolenko na Ucrânia: sete ligas seguidas fazendo pelo menos 11 gols. Teve sua campanha de estreia pelo West Ham interrompida por uma séria lesão e volta com fome de bola. Felipe Anderson também alcançou os dois dígitos pela Lazio e esteve próximo dessa marca na última Premier League, com nove tentos. Manuel Lanzini chegou a fazer oito na liga inglesa. São meias-atacantes que sabem finalizar e, com um trabalho coletivo apurado e um centroavante que sabe o que faz, podem crescer bastante. Claro que tudo isso ainda é hipótese e depende do encaixa do time e da evolução nos treinos sob o comando de Pellegrini.

A defesa talvez merecesse um pouco mais de atenção. Issa Diop foi muito bem, mas Balbuena sentiu a transição para uma liga mais forte, e Angelo Ogbonna ganhou a posição após o ex-corintiano passar por cirurgia no joelho. O único reforço para a zaga foi o garoto Gonçalo Cardoso, com passagem pelas seleções de base de Portugal e meia temporada como titular do Boavista. Com 55 gols sofridos, o West Ham teve a pior retaguarda entre os dez primeiros colocados da última Premier League.

Essa é uma das missões de Pellegrini. Outra é a extrair mais boas partidas de Declan Rice, volante de 19 anos e uma das grandes revelações do futebol inglês no momento. E uma terceira, continuar a melhorar o desempenho como mandante, que decaiu desde a mudança para o Estádio Olímpico. Com 31 pontos na última Premier Legue, o West Ham conseguiu, enfim, se aproximar do aproveitamento que teve na temporada derradeira do Upton Park (34 pontos).

O clube ficou a apenas cinco pontos do Wolverhampton, com Everton e Leicester no meio do caminho. Em uma temporada em que os outros três anunciam que podem se infiltrar no top seis da Premier League, o desafio do West Ham é provar que ele também pode tentar.

Wolverhampton

O matador de gigantes

Mandou bem, hein, Nuno (Foto: Getty Images)

Cidade: Wolverhampton
Estádio: Molineux Stadium (31.700 pessoas)
Técnico: Nuno Espírito Santo
Posição em 2018/19: 
Projeção: Brigar por Liga Europa
Principais contratações: Raúl Jiménez (Benfica), Pedro Neto (Lazio), Patrick Cutrone (Milan), Leander Dendoncker (Anderlecht), Bruno Jordão (Lazio), Flávio Cristóvão (Deportivo Aves), Jesús Vallejo (Real Madrid), Renat Dadashov (Estoril)
Principais saídas: Kortney Hause (Aston Villa), Ethans Ebanks-Landell (Shrewsbury), Jack Ruddy (Ross County), Michal Zyro (Korona Kielce), Hélder Costa (Leeds), Ivan Cavaleiro (Fulham), Rafa Mir (Nottingham Forest), Will Norris (Ipswich), Renat Dadashov (Paços Ferreira), Bright Enobakhare (Wigan)

Foram quatro pontos conquistados contra Chelsea, Arsenal e Manchester United. Três contra o Tottenham e um arrancado do campeão Manchester City. O único grande que passou incólume foi o Liverpool. Na Premier League, quero dizer, porque, na Copa da Inglaterra, o campeão europeu foi despachado também. Com um gasto próximo a € 100 milhões, o Wolverhampton havia sinalizado que retornava à elite falando a sério, mas ninguém imaginava que seria tão a sério assim. Foi a pior pedra no sapato dos clubes dominantes da liga inglesa, o que lhe valeu a melhor campanha de um recém-promovido desde que o Ipswich Town foi quinto colocado em 2000/01.

O sétimo lugar foi mais do que o Wolverhampton poderia ter sonhado em sua primeira temporada na elite em sete anos, e o que faz transparecer o potencial que o clube tem de ir além são os pontos que deixou pelo caminho. O matador de gigantes teve dificuldades quando enfrentou adversários de estatura menor. Ninguém ainda sabe como, mas foi derrotado duas vezes pelo rebaixado Huddersfield, conseguiu apenas um empate contra o Brighton e chegou a perder do Cardiff e empatar com o Fulham. Foram 16 pontos desperdiçados contra os quatro piores times do campeonato, o que seria suficiente para ser terceiro colocado, à frente de United, Arsenal, Tottenham e Chelsea.

A conta, claro, considera uma campanha perfeita contra a parte de baixo da tabela, o que é difícil mesmo para clubes mais ricos. Tropeços são normais. Contudo, caso o Wolverhampton consiga minimizá-los, e continuar a incomodar os grandes, pode aproveitar a instabilidade dos integrantes do top seis para fazer uma campanha ainda melhor. Para isso, precisa aprender a furar defesas quando tem a iniciativa do jogo.

Nuno Espírito Santo arma sua equipe com três zagueiros (Conor Coady, Willy Boly e Ryan Bennett), dois alas (Matt Doherty e Jonny Otto) e um meio-campo com Leander Dendoncker ou Romain Saiss ao lado de Rúben Neves e João Moutinho, o mais criativo de todos esses. Diogo Jota e Raúl Jiménez fizeram a dupla de ataque. Foi basicamente isso a temporada inteira. Com exceção desses 11 jogadores e do goleiro Rui Patrício, o único jogador a ter mais de 1.000 minutos na Premier League foi o ponta Hélder Costa, emprestado ao Leeds United.

Com esses jogadores, o Wolverhampton adotou um estilo mais direto. Foi o 13º em posse de bola (47,4%) e em finalizações certas em média (4). O décimo em aproveitamento de passes (78,2%) e em arremates totais (12.6). Acertou mais lançamentos que todos os seus adversários (33,1 por partida). Seu jogo ofensivo baseou-se em acelerar com a bola longa e resolver rápido a jogada. Junto com uma forte defesa – 46 gols sofridos, quinto melhor sistema defensivo da Premier League, ao lado do Everton e à frente de United e Arsenal –, a estratégia é perfeita para aproveitar os espaços que os grandes concedem, mas acaba sendo menos eficiente contra times recuados e fechados.

O número limitado de jogadores utilizados por Nuno Espírito Santo também é um problema em uma temporada que prevê a disputa da Liga Europa. Por ter ficado em sétimo lugar, o Wolverhampton começou na segunda fase preliminar do torneio europeu e já fez três partidas oficiais. Há mais três no horizonte antes da fase de grupos, caso chegue a ela, quando começam a surgir as semanas com jogos às quintas-feiras e aos domingos, o que historicamente complicou a temporada de clubes ingleses. Dependendo da chave, não será possível poupar muitos jogadores se os Wolves quiserem fazer valer a tradição de enfrentar potências europeias que motivou a criação da Champions League.

O mercado não aprofundou tanto o elenco porque a maioria do dinheiro investido foi usada para as contratações em definitivo de Jiménez e Dendoncker, que estavam emprestados. Muito próximo do super-empresário Jorge Mendes, o Wolverhampton trouxe mais dois portugueses, o meia Bruno Jordão e Pedro Neto, ambos da Lazio. Garotos de 20 e 19 anos, respectivamente, somaram apenas oito jogos pelo time principal dos italianos, e não dá para saber direito o quanto poderão contribuir. O bom zagueiro Jesús Vallejo chegou cedido temporariamente pelo Real Madrid para reforçar a defesa, e a única novidade ofensiva acabou sendo Patrick Cutrone.

O atacante italiano de 21 anos tem potencial, trabalha muito duro e corre o tempo inteiro. Bem talhado para o estilo do Wolverhampton, nada indica nem que será titular, muito menos que ajudará o time a encontrar alternativas táticas. Essa difícil missão ficará com Nuno Espírito Santo e pode ser a diferença entre outra ótima campanha e uma que romperá com a hierarquia do futebol inglês.