Propositor do estilo de jogo técnico, ofensivo e repleto de conceitos táticos inovadores que levaram o Flamengo a um tricampeonato carioca e ao seu primeiro título nacional, na virada da década de 1970 para a de 1980, Cláudio Coutinho completaria 80 anos neste sábado. O legado do treinador, no entanto, extrapola seu período no comando do clube: foi sob a inspiração de suas ideias que o time subiria outros degraus até o título mundial.

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Além das fronteiras cariocas, o trabalho de Coutinho é conhecido quase só por seu período à frente da Seleção, no qual sempre recebeu críticas (em especial da imprensa) de “engessar” o estilo de jogo intuitivo brasileiro em esquemas, de tentar torna-lo “europeu” ao máximo. Até mesmo de burocratiza-lo. Mesmo o fundamental e incensado “A Pirâmide Invertida”, do inglês Jonathan Wilson, reserva pouco espaço (e algum desdém) ao técnico, citado apenas por seu trabalho na Seleção Brasileira como preparador físico e treinador.

Num momento em que tanto se comenta o atraso tático do futebol brasileiro em relação não só ao europeu como até aos vizinhos sul-americanos, é até irônico observar a imagem que ficou de um dos maiores estudiosos do futebol no país. De um treinador que observou muitas vezes “in loco” o contexto mundial do jogo e levou a cabo as ideias que extraiu dele dentro da estrutura ainda mais conservadora do esporte no país naquele momento, em que “teórico” era um epíteto não muito abonador a um treinador de futebol.

Coutinho também morreu jovem, o que o impediu de – décadas depois, com a poeira baixada, os ânimos menos exaltados e sob a luz de um outro enfoque histórico – expor seus motivos, esclarecer temas espinhosos, reconhecer equívocos e reparar injustiças. Quanto à Seleção, é claro. No caso do Flamengo, não há nada a ser explicado. Trata-se de um dos maiores treinadores rubro-negros em todos os tempos e do grande formatador do esquadrão mais vitorioso na história do clube da Gávea, onde seu prestígio sempre foi e segue intocável.

O início

Nascido na cidade gaúcha de Dom Pedrito (próxima à fronteira uruguaia) em 5 de janeiro de 1939, mas criado no Rio de Janeiro desde os quatro anos de idade, Coutinho sempre foi apaixonado por esportes em geral. Sua história no Flamengo, clube de seu coração, começou como jogador de vôlei, sendo tricampeão carioca da modalidade entre 1959 e 1961. Na mesma época, iniciou sua carreira militar, pela qual se graduou em Educação Física em 1965 e passou seis anos trabalhando como instrutor de futebol e vôlei na Escola de Educação Física do Exército.

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Seu salto de projeção viria no fim da década: fluente em cinco idiomas, entre eles o francês, seria indicado como representante num congresso de medicina esportiva na França, onde conheceria Kenneth Cooper, que vinha trabalhando num método revolucionário de preparação física. Da amizade entre os dois, surgiria o convite para um estágio de um ano na NASA, onde Cooper trabalhava. De lá, Coutinho voltaria com uma vaga na comissão técnica da Seleção Brasileira de futebol, que se prepararia para a Copa do Mundo do México.

Em gramados mexicanos, o time brasileiro voaria do ponto de vista do condicionamento físico, mesmo com a temida altitude, e complementando as invejáveis qualidades técnicas de jogadores como Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino. Coutinho, porém, não se limitava à preparação física: ainda na primeira metade dos anos 70, ao afastar-se inteiramente da carreira militar, acumularia passagens como supervisor na própria Seleção Brasileira (durante aquela Copa), no Vasco, no Botafogo e até no Olympique de Marselha e treinaria a seleção peruana.

Em 1976, receberia de última hora uma missão especial: dirigir a Seleção Brasileira olímpica nos Jogos de Montreal, depois que Zizinho se desentendera com dirigentes da CBD e deixara o cargo. O Brasil nunca havia feito bons papeis no torneio olímpico de futebol, mesmo tendo contado com bons jogadores. Desta vez, havia o goleiro Carlos (Ponte Preta), o zagueiro Edinho (Fluminense), o volante Batista (Internacional) e dois do Flamengo: o lateral Júnior e o ponta Júlio César.

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Com Coutinho, a Seleção conseguiu seu melhor resultado até então: chegou às semifinais, mas parou nas fortes seleções do bloco socialista, que levavam o que tinham de melhor. O time perdeu para a Polônia de Lato, Deyna e Szarmach e em seguida terminou em quarto, ao também cair na decisão do bronze para a União Soviética de Oleg Blokhin. Mas o bom desempenho do time renderia frutos ao treinador dentro de pouco tempo.

Em setembro de 1976, o Flamengo havia acabado de demitir o técnico Carlos Froner, após quase um ano no cargo. Para o posto, tentou Zagallo, que não conseguiu se desvencilhar de um contrato no Kuwait. Tentou Oswaldo Brandão, técnico da Seleção principal, mas não conseguiu a liberação por parte da CBD. A entidade, porém, fez uma contraproposta: “emprestaria” ao clube, até o fim do ano, o treinador das equipes de base, Cláudio Coutinho.

Consultado pelos dirigentes rubro-negros, Júnior, que havia trabalhado com Coutinho nos Jogos Olímpicos, deu seu aval: era um treinador jovem – 37 anos – e cheio de ideias novas, ainda sem a mesma experiência de outros nomes, mas ideal para um trabalho de médio ou longo prazo. Algumas de suas ideias e conceitos, burilados por suas obcecadas leituras e observações do futebol europeu de então, eram explicadas pelo treinador em entrevista ao Jornal do Brasil, sua primeira após assumir o cargo na Gávea. Entre outras coisas, afirmava:

“É preciso que algum clube comece a atuar de uma forma mais moderna para que os outros sejam forçados a mudar. O problema é que ninguém quer ser o primeiro. Por isso passamos algum tempo estagnados. No futebol de hoje, tem que haver uma participação total, durante os 90 minutos, quase como no basquete. O jogador que chuta em gol deve ajudar imediatamente na marcação, e vice-versa. Passou a época do jogador que só ataca ou só defende”.

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Coutinho estreou no comando do Flamengo em 12 de setembro, numa boa vitória de 3 a 0 sobre o Sport no Maracanã pelo Brasileirão, mesmo sem contar com Zico (lesionado) e Luisinho Lemos (suspenso). Partindo de um 4-3-3 básico, fez alterações sutis no posicionamento da defesa – com Jayme atuando na sobra, como uma espécie de líbero, enquanto Rondinelli ia para o combate – e pediu ao trio de meio-campo para se aproximar mais do ataque.

Aos poucos, graças à sua facilidade no diálogo sempre aberto com os jogadores, o time assimilaria suas ideias. Faria ótima campanha na competição (a segunda melhor na soma de todas as fases), mas ficaria de fora das semifinais por um ponto. O início promissor motivou o clube, passando por mudanças administrativas profundas, a contratá-lo em definitivo na virada do ano. Mas uma grande ironia despontava no horizonte. “Emprestado” pela Seleção ao Flamengo em 1976, o treinador logo se veria na situação inversa.

A chegada à Seleção: surpresa, novidades e polêmicas

Em 26 de fevereiro de 1977, Oswaldo Brandão anunciava sua saída do comando da Seleção, em meio a uma crise técnica – agravada pelo empate em 0 a 0 com a Colômbia em Bogotá na estreia das Eliminatórias da Copa do Mundo, considerado desastroso – e de relacionamento com os atletas. Heleno Nunes, presidente da CBD, nem titubeou: convidou imediatamente Coutinho para o posto, inicialmente em regime temporário, visando motivar os jogadores para o segundo jogo contra o mesmo adversário, no início de março, agora no Maracanã.

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A atuação na goleada de 6 a 0 sobre os colombianos, obtida com dois gols de Roberto Dinamite, dois de Marinho Chagas, um de Zico e um de Rivelino, refletiu muitas diferenças entre o estilo dos dois treinadores: o time estático, taticamente antiquado e ofensivamente hesitante de Brandão deu lugar a uma equipe de muita movimentação e troca de posições, especialmente no meio-campo, abafando a saída de bola do adversário e com bastante apoio pelos lados. E o placar elástico já foi construído ainda no primeiro tempo.

Em seguida, o Brasil enfrentaria duas vezes o Paraguai naquele mesmo Grupo 1, no qual uma seleção avançava para a segunda etapa das Eliminatórias, um triangular popularmente conhecido como “Mundialito de Cali”, a ser realizado na cidade colombiana para definir os classificados para a Copa do Mundo, bem com o time que seguiria para a repescagem com os europeus. O time de Coutinho venceu os guaranis em Assunção por 1 a 0 (com gol contra) e empatou em 1 a 1 no Maracanã (Roberto Dinamite marcou), o suficiente para se garantir no torneio extra.

Mesmo com o bom começo, a passagem de Coutinho não foi exatamente marcada pela calmaria. Ainda inconformada com sua nomeação para o lugar de Brandão, a imprensa de São Paulo não poupava críticas – o que reabriu pela enésima vez toda uma extensa e estéril discussão sobre bairrismo. Enquanto isso, dentro do elenco, alguns jogadores reclamavam de falta de oportunidades. Curiosamente, o treinador, que acreditava que ficaria apenas durante aquela primeira etapa das Eliminatórias, não pretendia seguir no comando da Seleção.

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“Não aceito trabalhar em tempo integral. Além disso, nesses poucos dias à frente da Seleção, já ganhei muitos inimigos gratuitos. Imagine se permanecer até a Copa de 78? Certamente terei inimigos de morte. Até agora, mesmo ganhando, venho recebendo críticas contundentes. A partir do dia 21, segunda-feira, só quero pensar no Flamengo”, afirmou após a difícil vitória sobre o Paraguai no Defensores del Chaco. Mas tudo mudaria em breve.

No desembarque após o jogo, o treinador foi convidado a permanecer e acabou aceitando. Dividiu-se entre o comando de Seleção e clube até o fim de setembro, quando o Flamengo perdeu o título carioca para o Vasco – que levantou os dois turnos, o segundo deles nos pênaltis em jogo extra. A partir de então, passou a ser exclusivo da CBD, com Jaime Valente, ex-zagueiro rubro-negro dos anos 60, assumindo o posto em caráter definitivo na Gávea.

Efetivado, dirigiu a Seleção numa maratona de amistosos em junho de 1977, antes de carimbar a classificação para a Copa com duas vitórias no Mundialito de Cali, no mês seguinte: 1 a 0 sobre o Peru, gol de Gil, e 8 a 0 sobre a Bolívia, com quatro gols de Zico, um de Roberto Dinamite, um de Gil, um de Cerezo e um de Marcelo. Daí em diante, o técnico passou a enfrentar turbulências, criticado por suas escolhas, por suas inovações e até por seu vocabulário.

Coutinho costumava usar no dia a dia expressões extraídas ou adaptadas da literatura esportiva – em geral escrita em outros idiomas – para sintetizar situações de jogo. A imprensa, por sua vez, fazia piada de termos como “overlapping” (que nada mais era do que a passagem do lateral no apoio pelo corredor aberto quando os pontas fechavam pelo meio), ”ponto futuro” (ou, o local onde o jogador deveria estar para receber a bola num lançamento) e “polivalência” (atribuída ao atleta versátil, capaz de executar mais de uma função em campo).

A Copa de 1978: um controvertido terceiro lugar

O treinador sabia que o Mundial argentino seria marcado pelo jogo duro e físico, campos pesados e sem concessões ao futebol mais vistoso. Por isso, decidiu recorrer a jogadores de força em várias posições do time e no elenco, mas mantendo em seu centro Rivelino como nome mais experiente e um trio talentoso que despontava, com o rubro-negro Zico e os atleticanos Cerezo e Reinaldo. Entretanto, a ausência de Falcão, excluído dos planos do técnico ainda durante as Eliminatórias por motivos nunca esclarecidos, renderia a grande polêmica.

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Na Argentina, porém, foram muitos os problemas. Na estreia contra a Suécia, a Seleção empatou em 1 a 1 e não chegou a merecer resultado melhor, mas poderia ter saído com a vitória não fosse a decisão polêmica do árbitro galês Clive Thomas de anular o gol de Zico ao encerrar o jogo após a cobrança de escanteio de Nelinho. Em seguida, outra péssima atuação no 0 a 0 com a Espanha, em que Amaral salvou sobre a linha um gol certo dos ibéricos.

Rivelino se lesionara na estreia. Zico e Reinaldo, com problemas físicos, sofriam no péssimo gramado do estádio de Mar del Plata, em que placas de grama se desprendiam, prejudicando o toque de bola. Era preciso mexer no time para tentar a classificação, que só viria com vitória sobre a Áustria. Foi quando Jorge Mendonça e Roberto Dinamite (que só havia sido convocado para o Mundial devido à lesão de Nunes), dois jogadores de mais porte físico entraram na equipe.

Nem mesmo nesse momento Coutinho foi poupado: como as alterações foram anunciadas oficialmente à imprensa pelo presidente da CBD, o almirante Heleno Nunes, após uma reunião a portas fechadas com o técnico logo depois do jogo contra a Espanha, elas entraram para a história como resultado de um gesto impositivo do dirigente (e torcedor do Vasco, clube de Roberto Dinamite) ao qual o técnico, por inexperiência e falta de pulso, teve de ceder.

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O falecido jornalista Oldemário Touguinhó, que cobriu aquele Mundial para o Jornal do Brasil, expôs outra versão em seu livro “As Copas que eu vi”: segundo seu relato, Coutinho havia antecipado a ele as mudanças no time numa rápida entrevista quando o técnico se encaminhava para os vestiários, onde aconteceria a reunião com Heleno Nunes. “Com esse piso, não podemos trocar passes nem fazer jogadas no chão. Vou mudar. Vamos fazer jogadas aéreas”, afirmou o treinador a Touguinhó enquanto deixava o campo.

No fim das contas, foi com um gol de Dinamite em jogada aérea que o Brasil bateu a já classificada Áustria e avançou à etapa seguinte. Livre do vexame da eliminação precoce, o time deslanchou e venceu o Peru por 3 a 0 na abertura da segunda fase. Contra a Argentina, no jogo que entrou para a história como a “Batalha de Rosário”, empatou em 0 a 0, mas poderia ter vencido: Zico deixou Dinamite por duas vezes na cara de Fillol, mas o gol não saiu.

O Brasil terminou o Mundial invicto, mas sem chegar a convencer. A taça ficou com os anfitriões, que enfrentaram suspeitas de ter tido sua classificação à final facilitada pelos peruanos, goleados por 6 a 0 na última rodada da segunda fase. Depois de bater a Itália por 2 a 1 e terminar em terceiro, Coutinho defendeu sua equipe lançando outra expressão que marcaria sua passagem pela Seleção: “Nós somos os campeões morais desta Copa”.

Depois das críticas, a afirmação

A frase não repercutiu bem nem entre a imprensa brasileira nem entre a torcida. Ao retornar da Copa, o treinador voltaria ao Flamengo, onde reconstruiria sua reputação. Manteve muitas de suas convicções táticas, mas reformulou algumas e abdicou de outras (como a utilização de laterais ofensivos nas pontas). Esta segunda parte de sua passagem no comando rubro-negro seria a mais bem-sucedida de sua carreira. Nela, faria história.

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Das ideias táticas que fervilhavam na cabeça do treinador, algumas tinham outras modalidades como inspiração. O boxe, por exemplo. Para ele, a equipe deveria pressionar o adversário desde o início e tentar definir a partida o quanto antes, de modo a não possibilitar uma reação. “Se você acerta um soco no cara, tenta o segundo, o terceiro, para derrubar logo. Se esperar que ele se recupere, pode levar um daqui a pouco. Fez um gol, massacra para fazer outros e resolver logo o jogo”, explicou Zico no livro “1981”, de André Rocha e Mauro Beting.

O basquete também moldava a filosofia de jogo de Coutinho, que gostava de times agrupados, compactos, criativos, com as linhas de marcação alta e que trabalhassem a bola com paciência. Quando a jogada tentada por uma das pontas não se concretizava, a ordem era voltar a bola até a defesa e recomeçar a saída pelo outro lado. Nada de tentar alçar bolas na área infindavelmente a esmo. Para isso, é claro, era necessário o domínio completo dos fundamentos, algo também exigido e apurado cotidianamente pelo treinador.

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“Coutinho pregava que os fundamentos do futebol tinham que ser exercitados diariamente, porque todo dia o jogador iria usá-los quando fosse tocar na bola. Não importava qual treinamento, tático, técnico ou coletivo. Em todos eles, teríamos de colocar em prática passes, chutes, cabeçada, domínio de bola, criatividade”, relembra Júnior no mesmo livro. Assim, bastou apenas uma excursão à Europa, em agosto de 1978, para que o time rubro-negro chegasse na ponta dos cascos para a disputa do Campeonato Carioca.

O Flamengo repetiu o que o Vasco havia feito no ano anterior e venceu os dois turnos, sagrando-se campeão sem a necessidade de finais. No primeiro, que valia a Taça Guanabara, liderou de ponta a ponta e faturou o caneco mesmo perdendo o Fla-Flu da última rodada. No segundo, somou dez vitórias e apenas um empate em 11 jogos, superando o Vasco na última rodada por 1 a 0, com o gol histórico de Rondinelli, encerrando quatro anos de frustrações.

O ano derradeiro na Seleção

Coutinho também seguiu seu trabalho na Seleção em 1979. E iniciaria um processo de renovação muitas vezes esquecido ou ignorado. Em maio daquele ano, quando o escrete entrou em campo para seu primeiro jogo oficial desde a Copa, lá estava um quarteto de estreantes que se firmaria no time pelos anos seguintes: Falcão, Júnior, Sócrates e Éder. Com eles, o Brasil arrasou o Paraguai por 6 a 0 em amistoso no Maracanã, com três gols de Zico, dois de Nilton Batata e um de Éder). Semanas depois, golearia também o Uruguai (5 a 1) e o Ajax (5 a 0).

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Os jogos valeriam como preparação para a Copa América daquele ano, disputada sem sede fixa, em partidas de ida e volta e por vários meses. O Brasil havia sido sorteado no complicado Grupo 2, ao lado dos argentinos campeões do mundo – e que apresentavam um novato chamado Diego Maradona – e dos bolivianos, que tinham como trunfo a altitude de La Paz. Mas no fim das contas acabou avançando, com direito a uma vitória (2 a 1 no Maracanã) e um empate (2 a 2 no Monumental de Núñez) diante da Albiceleste.

Nas semifinais, disputadas em outubro, o adversário seria o Paraguai, que vencera duas vezes o Equador e empatara os dois jogos com o Uruguai pelo Grupo 3. Chegava com um time bastante diferente do que havia sido goleado pelo Brasil meses antes. A Seleção, por sua vez, tinha um sério desfalque: por ter sido expulso junto com Gallego no empate com a Argentina, Zico já ficaria de fora do primeiro jogo. Mas como havia sofrido lesão num jogo contra o Goytacaz pelo Carioca, que o tirara de ação por vários meses, também não jogaria a volta.

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Na vaga do Galinho, Coutinho testou o colorado Jair no primeiro jogo e o corintiano Palhinha no segundo. Mas o Brasil acabou sendo derrotado por 2 a 1 no Defensores del Chaco e cedeu o empate em 2 a 2 no Maracanã depois de estar duas vezes em vantagem. Os guaranis avançariam à final e conquistariam a Copa América pela segunda vez em sua história. Já o treinador brasileiro deixaria de vez o comando da Seleção em fevereiro do ano seguinte, quando o novo presidente da recém-criada CBF, Giulite Coutinho, anunciou Telê Santana para o cargo.

Tri estadual com o Fla

O ano de 1979, no qual ocorreria a muito protelada fusão das federações carioca e fluminense de futebol, também foi marcado pela divergência entre os clubes grandes e pequenos sobre quantas e quais equipes disputariam o estadual daquele ano, e o que levou, no fim das contas, à disputa de dois torneios num mesmo ano. Se não faltou bagunça fora de campo, também sobrou bola ao Flamengo, que levantou os dois títulos de modo inquestionável.

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No primeiro, denominado “Campeonato Especial”, com 10 clubes jogando turno e returno entre fevereiro e abril, o Fla repetiu o que havia feito em 1978: venceu as duas etapas e foi campeão direto, sem finais. E com um bônus: o título veio de forma invicta (o primeiro de um time carioca na era Maracanã), com 13 vitórias e cinco empates. Já o segundo, que ficou conhecido como “Estadual” e disputado entre maio e o início de novembro, foi mastodôntico.

Dividido em três turnos, contou com 18 equipes jogando o primeiro deles (que valeu a Taça Guanabara), dez no segundo (com os oito piores jogando uma repescagem em paralelo) e oito no terceiro. Novamente, o Flamengo conquistou os três turnos mesmo perdendo Zico – que então já havia marcado impressionantes 60 gols em 43 jogos, somando os dois campeonatos – por mais de um turno inteiro, com a lesão sofrida contra o Goytacaz.

Como se não bastasse o excesso de jogos nos dois torneios, a agenda do Fla também andava cheia pelos amistosos e excursões marcados para aquele período. Em uma delas, à Espanha, o time de Coutinho brilhou na conquista do Torneio Ramón de Carranza. O adversário na estreia seria o Barcelona, que acabara de vencer a Recopa europeia e contava com nomes como Asensi, Migueli e Rexach, além do austríaco Hans Krankl e do dinamarquês Allan Simonsen.

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Pelo lado do Flamengo, havia outra preocupação: o desgaste físico e psicológico. Na quinta-feira à noite, cinco atletas (Toninho, Júnior, Carpegiani, Zico e Tita), além do próprio técnico Cláudio Coutinho, estavam em Buenos Aires, onde participaram do empate em 2 a 2 com a Argentina pela Copa América. De lá, o grupo pegou um voo de 20 horas de duração até Cádiz, chegando à cidade espanhola na tarde de sábado, horas antes da estreia.

Quando a bola rolou, o cansaço foi deixado de lado e o que se viu foi um domínio completo do Flamengo, que marcou duas vezes ainda no primeiro tempo, criou chances para golear e até ensaiou um olé, antes de o Barça descontar no fim. O time de Coutinho saiu de campo aplaudido de pé e aclamado pela imprensa espanhola. No dia seguinte, com direito a gol relâmpago, abrindo o placar na saída de bola, o Fla bateu o Ujpest por 2 a 0 e levantou a taça.

Passo seguinte para a confirmação do poderio daquela equipe, o título brasileiro teve que ser adiado. Na espremida e caótica edição de 1979, o time vinha fazendo boa campanha, mas acabou eliminado antes das semifinais pelo Palmeiras de Telê Santana, que veio ao Maracanã precisando do empate, mas saiu com algo ainda melhor, com uma goleada de 4 a 1 que ficaria atravessada nas gargantas rubro-negras. Porém, não por muito tempo.

No ano seguinte, a primeira conquista do Brasileiro finalmente chegaria e com direito a uma saborosa revanche diante de um Alviverde que repetia dez dos 11 jogadores da vitória de quatro meses antes e, por ironia, estreava o velho Oswaldo Brandão no comando. Mordido, o Fla chegou a abrir 5 a 0, antes do Palmeiras descontar duas vezes. Mas Nunes, o novo camisa 9 da equipe no lugar de Cláudio Adão, ainda deixaria o seu para fechar a goleada histórica em 6 a 2.

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O Fla, que estreara no campeonato batendo o Santos no Morumbi e também já havia vencido o tricampeão Internacional no Maracanã, eliminou um ótimo time do Coritiba nas semifinais antes de decidir o título numa final épica com o Atlético Mineiro. E Nunes, trazido por indicação de Coutinho depois da tentativa malsucedida de repatriar Roberto Dinamite (então no Barcelona), seria o autor do gol que daria o pontapé inicial à escalada para conquistar o mundo.

Após o título brasileiro, o Flamengo ainda levantaria a Taça Guanabara (naquele ano, novamente disputada como um torneio à parte do Estadual) e voltaria a excursionar pela Europa, voltando com mais algumas taças. Mas, sucumbindo ao cansaço, à pressão para manter o ritmo de vitórias e até à autossuficiência, o time perdeu o tetra carioca e entrou em crise. Estafado, Coutinho deixou o comando, seguindo para o Los Angeles Aztecs.

No primeiro semestre de 1981, o Flamengo ainda enfrentaria turbulências, comandado pelo antigo ídolo Modesto Bria e mais tarde por Dino Sani. Mas voltaria a reencontrar o caminho das conquistas com a ascensão de Paulo César Carpegiani – capitão e organizador do time nos tempos de Coutinho – ao cargo. Ainda que com alterações pontuais em nomes e na formatação do setor ofensivo, a equipe que conquistaria o mundo ao fim daquele ano preservava essencialmente a filosofia de jogo do time de Cláudio Coutinho da virada da década.

O adeus precoce

No fim de novembro, no desembarque da delegação rubro-negra no Rio após a conquista da Libertadores, Coutinho – que havia acabado de assinar contrato para treinar o Al Hilal, da Arábia Saudita – encontrou por acaso seus ex-comandados no aeroporto do Galeão e vaticinou: “Agora só falta o Mundial”. O treinador, porém, não chegaria a ver o time que criou alcançar o topo do planeta. Três dias depois, morreria no mar de Ipanema, aos 42 anos.

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Na manhã daquele dia 27, Coutinho saíra para praticar outro de seus esportes favoritos: a pesca submarina. Havia prometido trazer um peixe para um jantar com amigos, entre eles Júnior. Mergulhava em apneia, ou seja, sem a ajuda de cilindros de oxigênio. Quando conseguiu arpoar uma garoupa, não percebeu que o ar inspirado na superfície se transformara em gás carbônico em seu corpo. Perdeu os sentidos e se afogou. Morreu sem sentir.

A notícia caiu como uma bomba entre jogadores, dirigentes e comissão técnica do Flamengo, que se preparava para disputar a decisão do Estadual contra o Vasco, a começar dentro de dois dias. Carpegiani, trazido pelo treinador à Gávea em 1977, chorou convulsivamente. Entre os jogadores, o clima era de incredulidade geral. O clube decretou luto oficial de três dias. A morte, porém, não comoveu apenas os rubro-negros, mas o futebol brasileiro como um todo.

“Sempre recebi as maiores atenções do Coutinho. Inclusive, ele me colocou à disposição o seu arquivo sobre futebol internacional e me prestou todas as informações sobre a Seleção Brasileira, quando o substituí”, lembrou Telê Santana. Então goleiro do Grêmio, Leão comentou: “Acho que o futebol brasileiro pode ser dividido em duas etapas. Antes e depois de Cláudio Coutinho. Ele foi um treinador que viu muito além daquilo que se julga comum”.

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Ao velório, realizado na antiga sede do Flamengo no Morro da Viúva, estiveram presentes colegas treinadores como Carlos Alberto Silva e Oswaldo Brandão, que viera de São Paulo especialmente para se despedir. Milhares de torcedores rubro-negros seguiram o cortejo até o cemitério do Caju, onde Coutinho foi enterrado com a bandeira do clube. A torcida que melhor o compreendeu não lhe poupou carinho e emoção na despedida.

Os torcedores do Flamengo no enterro de Coutinho

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.