Quando os dois times de Manchester fossem adversários na Premier League, a expectativa era que saísse faísca no dérbi da cidade. Não era para menos: são dois candidatos ao título, que investiram bastante na janela de transferências e trouxeram técnicos competentes, famosos e notórios adversários. Quis a tabela que o duelo acontecesse logo na quarta rodada e, apesar de a temporada ainda estar no começo, Old Trafford assistiu a um bom espetáculo, do qual o City saiu mais feliz que o United. Com gols de De Bruyne e Iheanacho, venceu por 2 a 1. Ibra descontou para os Diabos Vermelhos.

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Teve uma equipe que jogou futebol no primeiro tempo, e outra que correu atrás da bola. O Manchester City dominou o dono da casa em todos os aspectos, naturalmente, também na possessão, com 65,5% nos 45 minutos iniciais. E não foi aquele domínio estéril, sem objetivo. Colocou o adversário em apuros, mesmo com poucas chances criadas, e mereceu abrir 2 a 0, em duas jogadas de De Bruyne.

Enquanto o City demonstrou um bom futebol coletivo, o United sofreu com atuações individuais abaixo da média, especialmente Blind e Lingard, e uma ideia de jogo que não funcionou em Old Trafford. Com exceção de um chute de Pogba da entrada da área, aos 7 minutos, Claudio Bravo mal teve sobressaltos no começo da sua estreia pelos azuis de Manchester. Participou do jogo apenas com os pés, tabelando com os zagueiros na construção ofensiva.

Os visitantes, por outro lado, controlaram as ações. E, embora os gols tenham saído em lances isolados, foram frutos do bom jogo coletivo. Iheanacho escorou um lançamento para De Bruyne, que foi esperto para se antecipar a Blind, avançar à área e abrir 1 a 0, aos 15 minutos. Depois, inventou um espaço para finalizar, de dentro da área, e acertou o pé da trave. Iheanacho pegou o rebote e conferiu.

A questão para o Manchester United era tentar voltar para o jogo de alguma forma, e a encontrada foi por meio de um erro do geralmente seguro Claudio Bravo. O goleiro chileno saiu atrapalhado do gol para agarrar uma bola aérea, mas havia um Stones no meio do caminho, e Ibrahimovic não perdoou o vacilo. O sueco ainda teve outra oportunidade, em uma segunda saída em falso do substituto de Joe Hart, só que desta vez não acreditou na jogada e bateu fraco, facilitando o corte da defesa.

A estreia de Bravo foi bastante ruim. Até para um goleiro experiente como ele, 33 anos, estrear em um clássico desta magnitude não é nada fácil. Falhou no tento do United, mostrou-se nervoso em muitas saídas do gol e se atrapalhou até mesmo ao sair jogando com os pés, um dos motivos pelo qual foi contratado pelo Manchester City. O outro, o principal, é por ser, no geral, um goleiro perfeito para a filosofia de Guardiola.

O gol deu novo ânimo para o Manchester United, e Mourinho tentou aproveitá-lo com duas mudanças no intervalo. Em uma mudança técnica, trocou o inoperante Lingard por Rashford. Em uma mudança tática, colocou Ander Herrera na vaga de Mkhitaryan. Reforçou o meio-campo, que passou a ter o espanhol ao lado de Fellaini e Pogba. Guardiola respondeu com Fernando no lugar de Iheanacho.

A troca de um atacante por um volante poderia indicar retranca, mas não foi isso que aconteceu. O espanhol buscou superioridade numérica no setor que tanto ele quanto Mourinho sabiam que seria chave para a partida. Contra o trio do Manchester United, o City passou a ter Fernando, Fernandinho, Silva e De Bruyne. Manteve a linha de defesa avançada, com Stones e Otamendi na altura do meio-campo, e a bola no pé.

Mas o Manchester United havia acordado e conseguiu, além do xadrez tático, equilibrar a partida no segundo tempo. Rashford foi muito mais incisivo pela ponta esquerda do que Lingard. Chegou até a criar jogada que terminou em gol, mas a bola desviou em Ibrahimovic, impedido, enganando Bravo, e o árbitro assinalou impedimento. O sueco, aliás, fez tudo que pode pelo seu time, sempre levando perigo ao adversário quando conseguia ter a bola.

O City, porém, também teve boas chances para ampliar uma partida que ficou aberta na etapa final. E quase conseguiu. Fernando, de cabeça, exigiu defesa brilhante de De Gea, em uma cobrança de escanteio. Depois, Sané lançou o infernal De Bruyne, nas costas da zaga, mas desta vez o chute do belga acertou o pé da trave e caminhou tranquilamente pela linha de meta até sair.

Mourinho adotou uma tática arriscada dos dez minutos finais, ao trocar Luke Shaw por Martial. Blind virou lateral esquerdo, e Bailly atuou praticamente sozinho na zaga. Foi muito bem, salvando dois contra-ataques que seriam mortais do Manchester City. Vale destacar sua ótima atuação ao longo de toda a partida, principalmente em contraste com o dia ruim de Blind, que falhou no primeiro gol azul e não foi muito bem no segundo.

Não funcionou a pressão do Manchester United, apesar dos longos cinco minutos de acréscimo que fizeram a transmissão oficial mostrar Alex Ferguson na arquibancada (lembram-se do Fergie Time?). Com muita intensidade, chances de gol, variações táticas e bons personagens, o clássico da cidade chegou ao fim com a vitória do City e um bom prenúncio do duelo que deve permear a temporada entre duas equipes que brigarão pelo título da Premier League.