Parecia que o Manchester City sabia. E considerando que poucos estudam um jogo com tanta profundidade quanto Pep Guardiola, é muito capaz que realmente soubesse. O Real Madrid teve tremendas dificuldades para lidar com a pressão muito alta à sua saída de bola e acabou entregando, em circunstâncias diferentes, os dois gols da vitória por 2 a 1, nesta sexta-feira, no Etihad Stadium, que colocou os ingleses nas quartas de final da Champions League.

Guardiola repetiu uma escolha que havia funcionado no jogo de ida ao abrir Gabriel Jesus pela esquerda, mas adotou o mais tradicional 4-3-3, com Sterling pela direita e Phil Foden centralizado. Eles lideraram o posicionamento bem alto dos ingleses e desde o primeiro minuto Courtois e os zagueiros trocaram passes nervosos dentro da área, com muita dificuldade para chegar ao outro lado do campo.

A primeira ação ofensiva foi um chute de fora da área de De Bruyne, desviado para escanteio. A segunda foi um resultado muito concreto da estratégia de Guardiola. Aos nove, Courtois abriu curto na direita para Varane, que teve sua carteira batida por Jesus. Bastou rolar para Sterling bater ao gol vazio.

O Real Madrid continuava precisando fazer dois gols, mas para levar à prorrogação. E quando precisa de gols, quem sempre tem aparecido é Karim Benzema. Recebeu a bola de Hazard na entrada da área, dominou driblando Laporte e bateu forte da entrada da área. Grande defesa de Ederson. Aos 28 minutos, Rodrygo fez boa jogada pela direita, buscou a linha de fundo e cruzou com consciência. Benzema cabeceou firme e empatou o duelo.

O Manchester City respondeu com uma jogada bem trabalhada da direita à esquerda. O passe de De Bruyne no último momento possível encontrou Cancelo, um lateral destro atuando na esquerda. Avançou até a entrada da área, centralizando, e bateu para intervenção de Courtois. O belga, novamente com os pés, gerou outro susto para os merengues. Tentou um lançamento de média distância, mas pegou muito mal. De Bruyne interceptou e soltou com Foden, que bateu rasteiro para fora.

A combinação Rodrygo e Benzema funcionou bem novamente, com outro cruzamento da direita que encontrou o francês livre dentro da área. Livre demais, porém. Em posição de impedimento, o francês bateu em cima de Ederson, que encaixou. De Bruyne despediu-se do primeiro tempo tentando um gol olímpico. Courtois, ligado, foi ao ângulo espalmar.

No começo do segundo tempo, em mais uma aula de futebol, De Bruyne deu um passe rasteiro no corredor entre o lateral direito e o zagueiro. Colocou Sterling na cara do gol, mas Courtois desviou com a mão esquerda. No segundo escanteio derivado dessa jogada, tentou outro gol olímpico. Saiu um pouco mais curto dessa vez.

Courtois teve que fechar bem o ângulo para frustrar Sterling outra vez, em bola passada por Gündogan, que até estava em boa situação para arriscar de média distância, e Carvajal apareceu na hora certa para travar o lindo drible de De Bruyne, lançado em contra-ataque.

E aí, Varane aprontou de novo. Tinha um chutão para lidar e, primeiro, tentou cabecear para o lado e furou. A bola pingou e na segunda tentativa ele recuou para Courtois. Curto demais. Não foi exatamente resultado de pressão à saída de bola, mas Gabriel Jesus continuou eletricamente correndo atrás da bola. Chegou primeiro e tocou na saída do belga para colocar o City à frente no placar e devolvendo o Real Madrid à situação de precisar fazer dois gols.

Faltou avisar o Real Madrid. O Manchester City, ciente da maratona da qual vem na Premier League e da que virá na Champions League, meramente cozinhou o restante da partida, sem a volúpia de marcar o terceiro. No português claro, colocando o adversário na roda. E ficou confortável para fazer isso porque o Real não conseguiu sequer esboçar uma pressão para recolocar fogo na partida.

No fim, o rendimento das duas equipes desde a paralisação se refletiu. O Manchester City, sem pressão para conquistar o título, goleou e ganhou ritmo na liga nacional, enquanto o Real Madrid emendou dez vitórias consecutivas para ser campeão espanhol, mas sempre no limite. Os gols do City saíram em falhas defensivas geradas por uma estratégia tática bem sucedida e que premiaram a melhor atuação coletiva.