O talento de Paulo Dybala é reconhecido por todos. O que tem sido difícil a seus treinadores é encontrar a maneira de colocá-lo em campo com consistência. Começa por sua posição. Para ser o jogador mais avançado, o time precisa de muita movimentação e toque de bola. Com ele na ponta, perde-se velocidade e linha de fundo. Atrás do centroavante, precisa haver um equilíbrio nos trabalhos defensivos, que não são exatamente seus fortes. Enfim, não é nosso trabalho resolver esse enigma. Agora, é principalmente de Maurizio Sarri, apresentado como técnico da Juventus nesta quinta-feira. 

“Eu acho que quando um jogador tem as qualidades de Dybala ou Cristiano Ronaldo, ele pode jogar em qualquer papel. O que muda é a interpretação do papel e o time precisa se adaptar a essas características, porque o centroavante é um papel chave”, disse. “Depende de nós organizar os jogadores no gramado, mas, no último terço, há jogadores com talento para fazer a diferença. Ronaldo é talentoso, assim como Dybala. Douglas Costa tem o potencial de ser um jogador de primeira linha que ainda não o mostrou consistentemente. Esses são grandes talentos e vamos ver como conseguimos construir em torno deles, o que eles podem oferecer defensivamente. Os jogadores que fazem a diferença são os mais talentosos, então é em torno deles que você constrói (o time)”. 

Acompanhe os principais trechos da entrevista de Sarri, via Football Italia

Mais recordes a Ronaldo

Eu treinei grandes jogadores ao longo dos anos, mas, com Ronaldo, eu cheguei ao próximo nível, um jogador no topo do mundo. É alguém que todos os recordes do futebol mundial e gostaria de ajudá-lo a estabelecer outro, sabendo que eu contribui para isso. Eu treinei um jogador com o recorde de gols em uma temporada da Serie A (Higuaín, pelo Napoli). Gostaria de fazer isso de novo. Seria uma satisfação enorme. 

O que fazer com Higuaín? 

O contrato de Gonzalo Higuaín ainda é com a Juventus. Ele deve retornar para uma conversa com seu novo-velho treinador, depois de passagens apagadas por empréstimo no Milan e no Chelsea.

Eu ainda não conversei com Gonzalo desde a festa depois da final da Liga Europa. Eu tinha que colocar minhas ideias em ordem sobre a Juve e este clube. Ele é um jogador da Juventus. Quando voltar de férias, teremos a oportunidade de conversar. Ele tem características que o permitem jogar com qualquer um. Eu disse que depende de Gonzalo porque eu tenho a sensação que ele não gostou da experiência pós-Juventus. Se ele conseguir uma reação forte, pode jogar mais três ou quatro anos em alto nível. 

Juventus determinada

A Juventus me deu a oportunidade e este é o momento de coroação da minha carreira que, durante 80% do tempo, foi extremamente difícil. Quando a Juventus entrou em contato comigo, a sensação foi forte. Eu nunca vi um clube tão determinado a conseguir um treinador em meus 30 anos de carreira e foi isso que me convenceu. Nunca vi tantos diretores tão determinados em conseguir um treinador. 

Eu tenho 30 anos de negociações com clubes, então acho que sei como ler as pessoas. Consigo ler quando alguém realmente acredita no que está dizendo e está totalmente convencida. Não é uma frase, é a atitude, a abordagem, o esforço que fazem para encontrá-lo. Mostra a convicção deles de que querem você, especificamente, como treinador. Isso foi o mais importante para mim. 

O fundamentalismo tático

Sarri rechaçou a noção de que não consegue se adaptar a um estilo de jogo diferente, mas reforçou que seus princípios são sempre os mesmos. 

Você não pode começar com um sistema e mandar jogadores embora ou trazê-los. Você tem que identificar os dois ou três jogadores que podem fazer a diferença. O terceiro passo é conversar com os jogadores, ouvi-los e ver qual sistema podemos usar. Em anos recentes, eu usei o 4-3-3, mas o 4-3-3 do Chelsea era muito diferente ao do Napoli. Nós tínhamos que encaixar as características de Hazard, porque ele pode mudar o jogo, mas sua presença também causava problemas defensivos com os quais precisávamos trabalhar. 

Eu joguei no 4-3-1-2 minha vida inteira antes do 4-3-3, então vamos ver. Eu acho que o objetivo de se divertir em campo não é uma antítese de vencer. Eu não vejo como eu posso ser um fundamentalista tático quando comecei no Empoli com o 4-3-1-2, mudei para o 4-3-3 no Napoli e fiz um 4-4-2 disfarçado no Chelsea. Eu honestamente não sei o que é o Sarrismo. Eu posso mudar minhas visões sobre futebol e vida ao longo dos anos, com a experiência, mas os conceitos continuam os mesmos

O que muda são as características dos jogadores. O Napoli tinha jogadores que estavam totalmente à disposição do time e moviam a bola com um ritmo rápido e decisivo. O Chelsea era provavelmente formado por jogadores superiores tecnicamente, mas com características individuais diferentes. Eles tinham pontas que queriam a bola no pé para o mano a mano. Isso leva a um estilo de jogo menos fluído de futebol porque o Napoli tinha 11 que jogavam futebol de um único toque. O Chelsea tinha sete ou oito que faziam isso e os outros eram indivíduos que poderiam fazer a diferença sozinhos. 

Sucessor de Allegri

Allegri deixa um grande legado ao qual precisamos corresponder. Sabemos muito bem que não é fácil ganhar tudo que ele ganhou nos últimos cinco anos. Seus resultados foram extraordinários. Eu gostaria de ver a mesma capacidade que o Max deu ao time de resistir à pressão por 30 minutos e ainda assim vencer. É algo que eu quase nunca fiz, talvez por causa da minha abordagem. Se você torna um time acostumado a manter a bola, e eles não a tem por um tempo, eles podem sofrer e começar a entrar em pânico. Os times do Allegri, por outro lado, pareciam sofrer, mas você sempre tinha em mente que eles poderiam vencer mesmo assim. 

Relação com o Napoli

Eu acho que passei três anos nos quais meu primeiro pensamento de manhã era como vencer a Juventus porque éramos a alternativa mais crível a eles, então meu dever moral era encontrar cada maneira que o Napoli poderia derrotar a Juventus. Eu dei 110% e não consegui fazer isso. Eu faria tudo novamente, mas foi uma rivalidade esportiva e meu profissionalismo, agora, me fará dar tudo por este clube. 

Mesmo que eu o tenha feito de maneiras que talvez fossem erradas, meus esforços foram intelectualmente apreciáveis. Se eu tenho um oponente que me faz dar tudo para derrotá-lo e fracassar, eu posso até odiá-lo, mas também apreciá-lo. Minhas escolhas foram muito lógicas, não precisa escrever um romance sobre isso. 

Em relação aos cantos racistas contra Nápoles, é a hora de isso parar na Itália. É hora de dizer chega e parar os jogos. O Napoli talvez seja o mais atingido por uma certa atitude de torcedores rivais. Chega. Chega, não podemos continuar 30 ou 40 anos atrás do resto da Europa. 

Sobre jogar contra o Napoli, quando eu deixar o San Paolo aplaudido, eu sei que é uma demonstração de amor. Se eu sair vaiado, será uma demonstração de amor. Meus sentimentos pelo povo de Napoli não mudam.