Após a estreia do Palmeiras nesta terça-feira, o restante dos brasileiros vai a campo nesta quarta, realizando sua estreia na Libertadores. Apesar do momento de algumas incógnitas dos times do país, alguns em reformulação, outros ainda em busca de seu melhor futebol, mais uma vez os representantes do Brasil entram cotados como alguns dos favoritos ao título. Entretanto, na competição sul-americana, qualidade técnica ou poderio financeiro não têm um peso tão inquestionável como pode acontecer em outros torneios.

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Vencer a Libertadores nunca se trata apenas de força dos times no papel. Os desafios na prática são peculiares, e fatores que, inicialmente, não entrariam na conta para as projeções de uma disputa de campeonato acabam muitas vezes moldando o desenrolar da história na competição. Listamos abaixo algumas das facetas características da Libertadores que tornam a disputa mais complicada e imprevisível do que a média dos campeonatos.

Estádios exóticos

Na Champions League, não há fator surpresa quando o assunto é estádios. Mesmo nos mais modestos estádios, de times da Romênia, da Bósnia ou da Bielorrússia, os jogadores já sabem o que esperar: um palco minimamente estruturado, com segurança garantida e algum conforto. Já a Libertadores não conta com essa mesma constância. O sorteio da fase de grupos pode tanto significar para um brasileiro que ele não terá problemas com os estádios em que jogará quanto o completo oposto. O maior exemplo da atual edição é a casa do Cobresal, em que o Corinthians faz sua estreia nesta quarta-feira. Um estádio no meio do deserto, em uma cidade de mineradores no norte do país, no deserto do Atacama, 2600 metros acima do nível do mar.

Altitude

Costumeiro 12º adversário dos clubes brasileiros na Libertadores, a altitude sempre rende pautas e guia parte da narrativa dos confrontos que acontecem em cidades consideravelmente acima do nível do mar, e não à toa. Em maio de 2007, a Fifa chegou a proibir jogos internacionais acima de 2.500 metros, mas, evidentemente, teve que voltar atrás na decisão, diante da pressão de países como Equador e Bolívia, que não aceitariam que suas seleções e equipes não pudessem jogar em seus estádios.

Anderson sofreu com a altitude de La Paz em 2015 (Reprodução)
Anderson sofreu com a altitude de La Paz em 2015 (Reprodução)

Nestes locais, jogadores costumam ter dificuldade em respirar, contando muitas vezes com uma bomba de oxigênio para aguentar o jogo até o fim. Uma das cenas mais marcantes da última Libertadores, por exemplo, foi quando Anderson, do Internacional, deixou o campo contra o The Strongest e, ainda no banco de reservas, já recorreu ao instrumento para voltar ao normal.

Zebras constantes

Se, em teoria, o fato de haver times relativamente desconhecidos do grande público pudesse implicar que as equipes mais tradicionais não teriam problemas em superar os confrontos em que há um favorito claro, na prática, o que a Libertadores mostra é que poucas competição no mundo são tão “democráticas” como ela. As zebras são tão constantes no torneio que são até mesmo esperadas, ainda que, a cada início de uma nova edição, insistamos em cravar brasileiros e outros times de topo da América do Sul como grandes favoritos, desprezando as outras equipes, mesmo que a campanha anterior tenha, seguramente, nos dado algumas lições.

A mais emblemática das zebras nos últimos anos foi a oportunidade em que o Corinthians, que contava com um elenco forte, com estrelas como Ronaldo e Roberto Carlos, caiu diante do modesto Tolima, ainda nos playoffs de classificação à fase de grupos. Já a edição de 2014, por exemplo, contou com semifinalistas inesperados, como o Nacional, que chegou à decisão contra o San Lorenzo, e o fraco Bolívar, que não foi páreo para os argentinos, mas surpreendeu chegando tão perto da decisão. Outras surpresas que já entraram para o folclore da competição, como o São Caetano finalista de 2002, o Paysandu vencendo o Boca na Bombonera e o Once Caldas campeão em 2004, eliminando São Paulo, Santos e batendo os xeneizes na decisão, também não deixam dúvidas de que a limitação técnica nunca é um fator que exclui antecipadamente os times do torneio. Essas zebras são muitas vezes impulsionadas pelo pouco conhecimento que os favoritos têm dos adversários mais fracos ou pelo papel decisivo que jogar em casa tem na Libertadores.

Viagens longas

Diferentemente da Champions League, em que a proximidade dos países diminui a distância e faz com que o Manchester City, por exemplo, tenha viajado apenas 7.274 km na fase de grupos da atual edição, a Libertadores conta, constantemente, com distâncias enormes entre as equipes, o que faz o cansaço das viagens ser um fator a mais a ser enfrentado pelos clubes brasileiros. Em 2013, por exemplo, o Corinthians enfrentou uma viagem de cerca de 17 horas até Tijuana, para enfrentar os mexicanos. Neste ano, enquanto algumas equipes tiveram sorte, como o Palmeiras, que viajará 9.400 km para jogar contra os vizinhos uruguaios e argentinos, o Grêmio, por exemplo, chegará a voar 26.600 km, com o maior deslocamento sendo até Toluca, no México.

Pressão das torcidas adversárias
El Cilindro tomado por festa da torcida do Racing (Reprodução)
El Cilindro tomado por festa da torcida do Racing (Reprodução)

A fanática torcida do Liverpool na arquibancada Kop, do Anfield, os cantantes torcedores do Celtic e a espetacular atmosfera dos aurinegros do Borussia Dortmund protagonizam belas cenas em jogos por competições europeias, mas em nenhum dos casos a pressão promovida pelos torcedores da casa é tão grande quanto em jogos da Libertadores, e a intimidação não espera o apito inicial para começar. O torcedor sul-americano começa a jogar contra o time adversário já na véspera dos confrontos, tentando atrapalhar o sono dos atletas visitantes com foguetórios do lado de fora dos hotéis em que os times costumam se hospedar.

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A força da torcida então vai para o recibimiento, a tradicional festa dos fanáticos sudacas nas entradas de campo dos times, muito bem executada pelos torcedores do Racing, e chega ao ponto de, algumas vezes, durante o jogo, se expressar com o arremesso de objetos no gramado, o que gera as tradicionais cenas de policiais fazendo a segurança dos atletas que se posicionam para uma cobrança de escanteio, algo muito comum em jogos no Defensores del Chaco, cujas arquibancadas são bastante próximas do gramado. É preciso pensar em tática e nas melhores jogadas para se vencer na Libertadores, mas lidar com os torcedores adversários também requer alguma estratégia.