Cinco momentos em que o futebol uniu palestinos e israelenses

O secretário geral da ONU recebeu uma cartinha de crianças palestinas. Era janeiro de 2014 e elas pediram sua bola de volta a  Ban Ki-Moon. Jogavam futebol na terra batida de Kafer Sur, na cidade palestina de Tulkarem, quando um chute forte mandou a redonda a uma zona controlada pelo exército israelense. A cerca de arame era um empecilho para que recuperassem a bola, mas não só isso. A intolerância também era. Elas só queriam jogar futebol sem restrições, mas o conflito que se prolonga por décadas na região também as impedia.

LEIA MAIS: Palestina é o melhor asiático do momento. Entenda por que isso não é nenhum absurdo

Sete meses depois, as crianças palestinas na fronteira com Israel voltaram a ser impedidas de brincar. Desta vez, quatro delas não perderam a bola, e sim a vida. Havia se passado apenas três dias da final da Copa do Mundo. E horas desde que o Hamas rejeitara a proposta de cessar-fogo dos israelenses. No meio do fogo cruzado, os meninos que chutavam a bola em uma praia na Faixa de Gaza foram atingidos por um míssil.

Sem entrar nos méritos e nos direitos que envolvem Israel e Palestina, o fato é que há muita gente perdendo nesta guerra. Muita gente inocente, muita gente morrendo. A intolerância impera dos dois lados, embora a força militar penda mais para um deles. E o resultado é o sangue derramado.

O futebol na região é marcado pelo conflito há décadas. São várias as histórias em que os dois países foram prejudicados. Mais recentemente, por exemplo, a Palestina teve seu estádio nacional destruído e os jogadores impedidos de transitarem entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza – quando muitos não foram presos. Já Israel teve que enfrentar diversas ameaças enquanto sediava o Europeu Sub-21 de 2013, mesmo contando com jogadores de diferentes origens em sua equipe.

LEIA MAIS: As hostilidades entre Israel e Palestina ficaram mais acirradas até no futebol

Mas, apesar de todo esse passado, o futebol ainda tem grande capacidade de unir. E, muitas vezes, ele conseguiu manter a paz entre Palestina e Israel. Não dá para propor algo como Joseph Blatter quis, achando que o futebol poderia sobrepor uma disputa que atravessa séculos. No entanto, dá para esperar que o esporte consiga estabelecer o mínimo de tolerância. E, neste momento, este mínimo já seria o suficiente para tentar conter o massacre que ocorre no Oriente Médio. Abaixo, listamos cinco desses exemplos de tolência:

Os árabes que aproximaram Israel da Copa

130614071043-football-israel-abbas-suan-horizontal-gallery (1)

Israel protagonizou uma excelente campanha nas Eliminatórias da Copa de 2006. A equipe ficou de fora da repescagem apenas por causa do saldo de gols, terceira colocada em um duro grupo que também contava com França e Suíça. E o sucesso dos israelenses pode ser creditado ao trabalho em conjunto de judeus e árabes. Dentre os autores dos gols decisivos, os árabes Walid Badir e Abbas Suwan. Badir, nascido em uma cidade na fronteira entre Israel e Cisjordânia. Abbas, que nasceu em uma cidade israelense de maioria muçulmana e se declarou “palestino porque tem muitos irmãos e primos nos países árabes, mas também israelense, por causa de suas terras”.

Embora ambos também tenham sido vítimas de ataques por suas origens, os dois foram colocados como exemplos da reconciliação com os ‘irmãos judeus’ em um momento simbólico. Cerca de um mês antes, havia acontecido a assinatura do acordo de paz que selou o fim da Segunda Intifada, entre palestinos e israelenses.

O clube árabe campeão de Israel

1846904900

Sakhnin é uma cidade ao norte de Israel, próxima à fronteira com o Líbano. A maior parte de seus 25 mil habitantes é de origem árabe. E o clube local se tornou respeitado no futebol de israelense, mesmo sendo um legítimo representante dos árabes. Fundado em 1991, o Bnei Sakhnin conquistou a Copa de Israel em 2004. Frequentes na elite do Campeonato Israelense desde os anos 2000, os alvirrubros terminaram a última temporada na sexta colocação. A casa do clube se chama Estádio Doha, por conta da parceria entre os governos de Israel e Catar para a construção do local.

Entre os destaques do time campeão 2004, estava Abbas Suan, que ganhou nome para ser convocado à seleção de Israel meses depois. Na defesa, Hassam Abuh Saleh nasceu em Sakhnin e jogou por clubes israelenses até 2009, quando se juntou ao palestino Hilal Al-Quds. A partir de então, começou a atuar pela seleção da Palestina e foi campeão da AFC Challenge Cup de 2014. Entretanto, ninguém representa melhor a tolerância naquela equipe do que o técnico Azmi Nassar. Cristão de origem palestina nascido em Israel, o comandante é casado com uma mulher de origem judia e treinou a seleção da Palestina em duas passagens.

Nada de divisões entre as crianças

EP-140639914

O Hapoel Tel Aviv é o segundo maior vencedor do Campeonato Israelense. E o maior incentivador do Mifalot, um grupo que reúne crianças de diferentes origens para praticar futebol. O projeto tem filiais em várias regiões conflituosas do planeta, incluindo os territórios disputados por Israel e Palestina. Para promover a união através do futebol. “Acredito que a geração mais jovem quer fazer a mudança. Eles têm a mente aberta e nenhuma inibição. Apenas capturamos o poder do futebol e o amor das crianças por ele, tentando educá-los e passar valores”, explica Yael Lee-Weiss, representante do Misfalot.

Outro projeto é levado em frente pelo Centro Peres, organização fundada por Shimon Peres, ex-presidente e ex-primeiro ministro de Israel que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por intermediar o processo de paz com os palestinos. Entre suas ações do grupo, estão aulas de futebol com meninos e meninas. “O grande problema em nosso conflito é que as pessoas não conhecem o outro lado e o demonizam. No momento em que as crianças vão a campo, todas as diferenças desaparecem”, afirma Sivan Hendel, que coordena o projeto.

Palestinos e israelenses unidos na segundona argentina

O Boca Unidos é um pequeno clube do interior da Argentina, que milita na segunda divisão nacional desde 2009/10. E, em 2012, o bicolor contou com jogadores que representavam os lados opostos no conflito do Oriente Médio. Guillermo Israilevich nasceu em Santa Fe, mas chegou a jogar no futebol israelense e a defender a seleção sub-21 do país. Já Daniel Mustafá, também argentino de nascimento, foi convocado pela seleção da Palestina por causa da origem de sua bisavó. Companheiros de equipe e exemplos da convivência.

“Falamos bastante e, assim como o resto do mundo, nos preocupamos, sentimos tristeza e amargura pela gente inocente e as crianças que morrem. Tomara que nós possamos contribuir com a paz, sei da nossa posição humilde, mas existem exemplos em que os esportistas foram importantes nessas ocasiões”, afirmou Mustafá, em entrevista à ESPN Deportes.

O aperto de mãos entre os dirigentes

2179646_FULL-LND

Apesar dos planos exagerados de Sepp Blatter, em fevereiro deste ano a Fifa conseguiu estabelecer o diálogo entre as federações de Israel e Palestina. A pauta foi o trânsito de jogadores entre os dois territórios, uma bandeira que a entidade internacional acabou abraçando para si, até mesmo pelos efeitos sobre a seleção palestina. Com o progresso nas relações, Uefa e AFC tentaram encaminhar o “Memorando do Entendimento”, para formalizar as permissões aos palestinos.

Entretanto, as conversas regrediram depois que dois jovens jogadores palestinos foram baleados nos pés e nas pernas por forças de segurança israelenses, antes de serem atacados por um cachorro – sob suspeitas de que os atiradores sabiam que os adolescentes jogavam futebol. Jawhar Nasser Jawhar, de 19 anos, e Adam Abd al-Raouf Halabiya, de 17, eram cotados como futuros convocáveis à seleção. A ação fez a Fifa ameaçar o banimento da federação israelense temporariamente, algo que não foi concretizado.