O mercado de transferências na Itália ganhou um impulso governamental nesta temporada, mesmo que a ajuda tenha acontecido apenas por vias tortas. Desde abril, vigora no país o chamado “Decreto Crescita” – como bem explicaram os amigos da Calciopédia. A lei tenta incentivar o crescimento econômico e reduz os impostos a qualquer empresa que decide contratar um profissional que passou ao menos os dois últimos anos morando em outro país, desde que ele se comprometa a atuar por dois anos na Itália. A intenção é atrair mão de obra qualificada e ampliar os salários de funcionários com alto grau de especialização, sobretudo na área científica. No entanto, o Decreto Crescita também influencia o pé de obra qualificado. Ficou mais interessante contratar jogadores ou técnicos que vêm fora do país.

Com o incentivo promovido pelo governo, os clubes italianos passaram a gastar menos com os ordenados desses novos contratados. Há uma redução de metade dos impostos relativos ao salário líquido. Assim, os dirigentes conseguem aliviar o impacto em suas finanças e podem oferecer salários mais polpudos aos jogadores. Os times da Serie A tornam-se mais competitivos no mercado de transferências, especialmente para convencer jogadores em fim de contrato ou cortejados por mais de um time.

Obviamente, a nova legislação possui seus efeitos. Ela acaba tornando mais atraente a contratação de jogadores estrangeiros ou italianos que estejam fora do país, o que impacta diretamente no desenvolvimento das categorias de base – já uma questão muitas vezes problemática na Serie A, mesmo antes de tais facilidades nos impostos. Por isso, o congresso incluiu uma taxa extra de 0,5%, que será direcionada a um fundo estatal para a formação de novos jogadores. Um caminho para atenuar o entrave, embora a abertura às promessas ainda dependa de um comprometimento contínuo dos clubes.

É difícil calcular o real impacto da nova legislação no futebol, mesmo observando os números do mercado de transferências após seu encerramento. Os investimentos em contratações cresceram €60 milhões em relação à temporada passada, um salto percentual de 5,3%, que não necessariamente indica um benefício imediato. Em compensação, o número de jogadores trazidos dos clubes de fora do país se manteve no mesmo patamar, um a menos em relação aos 101 que aportaram durante a janela de verão em 2018/19. No momento, os pontos positivos são impressões qualitativas. E isso se traduz olhando para os jogadores contratados.

A Juventus, por exemplo, se tornou mais competitiva para assegurar atletas badalados no mercado, como Matthijs de Ligt, enquanto arrebatou Aaron Ramsey e Adrien Rabiot após não renovarem com seus antigos clubes. A Internazionale, ainda que tenha investido no “italianismo” de seu elenco, movimentou-se bem ao pinçar astros como Romelu Lukaku ou Diego Godín. Da mesma maneira, o salário de Antonio Conte recebe isenção de impostos por conta do retorno do treinador após um período no exterior. Já o Napoli contratou menos que namorou, mas conseguiu fechar com uma promessa do calibre de Hirving Lozano. Os três principais candidatos ao título exemplificaram como foi possível melhorar.

A redução dos impostos, logicamente, não significou uma loucura no mercado e contratações de baciada. Os clubes ainda precisam encaixar as possibilidades em suas próprias contas e saber de suas limitações. O Milan, por exemplo, ainda teve que responder ao Fair Play Financeiro. Mas, com um pouco mais de mobilidade nas propostas, as diretorias puderam completar acertos mais ousados. A Fiorentina talvez seja o melhor caso, contando com o dinheiro de seu novo presidente, o magnata Rocco Comisso. A Viola nem gastou muito em transferências, mas havia bala na agulha para bancar os salários de Franck Ribéry e de outros atletas experientes.

Dentro dessa impressão deixada pela nova realidade, boa parte dos clubes médios e pequenos da Serie A elevaram suas expectativas na tabela. Contrataram bem e de maneira consistente para elevar o nível de seu elenco. Futebol não é matemática para garantir que o dinheiro empreendido vá necessariamente se transformar em resultados. Ainda assim, o Campeonato Italiano começa um pouco mais interessante, pelos novos jogadores que desembarcaram e também pela qualidade que já se notou nas primeiras rodadas.

Abaixo, destacamos os mercados de cinco clubes que foram figurantes na última temporada (ou seja, que não se classificaram às competições europeias), mas que terminam com um saldo positivo na janela de transferências. Equipes que podem melhorar suas pretensões, a partir do que contrataram, inclusive com alguns reforços ajudados pela nova lei – não necessariamente todos. Confira:

Fiorentina: com dinheiro e ousadia

Sim, a compra da Fiorentina pelo magnata ítalo-americano Rocco Comisso ajuda a entender o mercado abastado que se viveu no Artemio Franchi. Ainda assim, o novo proprietário da Viola optou por gastar mais na folha salarial do que propriamente em transferências. E todos os setores receberam importantes reforços para a sequência do trabalho. Franck Ribéry é o nome que mais chama a atenção, enquanto o ataque também ganha o centroavante Pedro. Na Inglaterra, os florentinos buscaram o atacante Bobby Duncan, promessa de 18 anos do Liverpool, e o ponta Rachid Ghezzal, emprestado pelo Leicester. E os olheiros também pinçaram o lateral Aleksa Terzic, de 19 anos, que surgiu no Estrela Vermelha.

Já entre os que não cumprem os pré-requisitos para garantirem o desconto nos impostos, há mais tarimba à Fiorentina com Kevin-Prince Boateng, Milan Badelj e Martín Cáceres, além de titulares em potencial como Erick Pulgar e Pol Lirola. Ao todo, foram 13 novas peças entregues ao técnico Vincenzo Montella. Natural que se aguarde uma campanha bem melhor que a do último ano, quando os violetas beiraram o rebaixamento. O talentoso Federico Chiesa (que decidiu ficar, a despeito de outras propostas) não precisará mais fazer chover sozinho, como aconteceu frequentemente ao longo dos últimos meses.

Bologna: bons no Football Manager

O Bologna começou a temporada lidando com a difícil situação de Sinisa Mihajlovic, que passa pelo tratamento de uma leucemia. De qualquer maneira, o treinador recebeu diversos jogadores para dar sequência ao seu trabalho, depois da guinada na última temporada. E até parece que os dirigentes rossoblù jogam Football Manager, com jovens jogadores estrangeiros que costumam ser valorosos no game. A lista de novatos que vêm de fora do país inclui o zagueiro japonês Takehiro Tomiyasu, o meio-campista argentino Nicolás Domínguez (que só chega no meio da temporada) e o atacante dinamarquês Andreas Skov Olsen, todos com muito futuro. Há ainda garotos menos badalados, como o finlandês Lassi Lappalainen (emprestado ao Montreal Impact) e o holandês Jerdy Schouten. Mas é fato que o sistema de olheiros trabalhou bastante.

O Bologna também acrescentou jogadores mais rodados, a exemplo do volante Gary Medel – este, outro que veio de fora. Além do mais, os rossoblù terminaram de repatriar a dupla Roberto Soriano e Nicola Sansone, que já tinham sido emprestados pelo Villarreal durante o primeiro semestre. Já entre as negociações vindas da própria Serie A, a maior aposta foi feita no jovem Riccardo Orsolini, de 22 anos, ponta que estava no Renato Dall’Ara desde antes e foi contratado em definitivo junto à Juventus. Nem todos os novatos devem se firmar de cara no time titular, mas a diretoria demonstra que não pensou apenas nas urgências para encorpar o plantel.

Cagliari: um atrativo pouco esperado

O Cagliari não se coloca necessariamente como o primeiro destino a jogadores que almejam atuar na Europa. Ainda assim, o clube da Sardenha soube utilizar suas possibilidades para fechar com bons nomes, inclusive alguns que vieram do exterior. O grande acerto dos rossoblù aconteceu mesmo com Nahitan Nández, que talvez pudesse ter pretensão de jogar em uma equipe maior. Destaque do Boca Juniors e titular da seleção uruguaia, o meio-campista assinou por €9 milhões. Chega ao lado de Christian Oliva, outra promessa uruguaia. Após despontar no Nacional, o volante veio por €5 milhões.

No mais, a bonança do Cagliari se valeu de outros atletas que já estavam na Itália. E muitos jovens valores nesta lista. Alberto Cerri foi comprado em definitivo, enquanto também desembarcaram de outros clubes do país Giovanni Simeone, Luca Pellegrini, Federico Mattiello e Marko Rog. O goleiro Robin Olsen tentará refazer sua fama, após decepcionar na Roma. De qualquer maneira, o grande nome é mesmo o de Radja Nainggolan, que voltou ao antigo clube por empréstimo, para que sua esposa fique mais próxima da família durante o tratamento de um câncer.

Genoa: contratando em volume

A janela de transferências do Genoa foi bastante movimentada pela enorme quantidade de contratações realizadas pelo clube. Entre compras em definitivo, empréstimos e novas peças, o Grifone fechou 21 contratos. Assim, há a expectativa de que o técnico Aurelio Andreazzoli mude mais da metade de seu time titular. A pedra angular neste novo momento é Lasse Schöne, que deixou o Ajax após grandes serviços prestados e aceitou a mudança ao Marassi. A lista de estrangeiros ainda inclui Kevin Agudelo, promessa colombiana comprada junto ao Atlético Huila. Antonio Barreca veio do Monaco, mas não se enquadra na redução de impostos, assim como o meio-campista Lukas Lerager, que já estava em Gênova.

Já o grosso dos reforços perambulava na própria Itália. Stefano Sturaro vem em definitivo após a cessão da Juventus, enquanto Cristián Zapata deve ser o novo dono do miolo de zaga. Na criação, Riccardo Saponara parece um bom investimento. Já o nome que mais promete é Andrea Pinamonti, atacante vinculado à Internazionale, mas que estava emprestado ao Frosinone. Aos 20 anos, fez muito sucesso com a seleção no Mundial Sub-20 e agora ganha a chance de se firmar com uma camisa tradicional na Serie A.

Sassuolo: a remontagem

O Sassuolo é um dos clubes que mais revelam jogadores na Itália. Em consequência, precisa lidar com as seguidas dilapidações de seu elenco, uma constante nos últimos anos. E já que as perdas custaram titulares em posições vitais, os pequeninos renovaram o seu armário para tentar ficar na primeira divisão. Observaram na Itália, mas também em outros países. Dentre as compras domésticas, Manuel Locatelli deixou o Milan de vez. Enquanto isso, o rodado Francesco Caputo veio ao ataque após acumular gols no Empoli durante as últimas temporadas.

O Sassuolo também tenta recuperar Jeremy Toljan, lateral que não deu certo no Borussia Dortmund e chega por empréstimo. Também buscou para o setor Mert Müldür, já contabilizando as primeiras convocações à seleção turca. Mas em termos de expectativas, ninguém se compara à dupla formada por Pedro Obiang e Hamed Junior Traoré, que garantem dar mais dinâmica ao meio-campo. Enquanto o primeiro deixou o West Ham, retornando à Itália após quatro anos, o segundo é mais um jovem valor que surgiu no Empoli, emprestado até o final da temporada. Não dá para saber se será suficiente à salvação, mas a diretoria se movimentou quando necessário.