“Espalma, Schmeichel!”. A quem narra, deve ser um prazer diferente exaltar o sobrenome de um dos maiores goleiros de todos os tempos, ainda que não seja ele em campo. Mas é seu filho, são seus genes. É o orgulho da Dinamarca que permanece, vendo o camisa 1 se agigantar para garantir o resultado à sua seleção. Os dinamarqueses não fizeram uma boa partida contra o Peru – pelo contrário, sofreram pressão durante a maior parte do tempo. No entanto, foram mais eficientes no ataque e contaram com um arqueiro que se agigantou em momentos decisivos. Os três pontos essenciais conquistados em Saransk unem duas partes da história, graças ao garoto que cresceu fora do país, mas aprendeu desde cedo o valor que a camisa da seleção possui.

Kasper sempre lidou com uma carga de expectativas imensa. Era ele mais um Schmeichel, o herdeiro de uma lenda. E nunca foi fácil satisfazer aqueles que esperavam um novo monstro sob as traves. O início de sua carreira teve diversos momentos instáveis. Aliás, por toda a badalação ao redor do pai, com quem mal podia sair de casa, o menino chegou a se afastar do futebol, retomando o prazer apenas quando se mudou a Portugal. Deu os seus primeiros passos no Estoril, enquanto o pai jogava pelo Sporting. Nesta época, finalmente conheceu como era o ambiente interno do futebol, entre o companheirismo do elenco e a rotina dos treinamentos. Apaixonou-se. E também recebia os primeiros ensinamentos em casa, de quem tinha tanto a ensinar.

Em 2002, Kasper retornou à Inglaterra, para onde havia se mudado aos quatro anos de idade. Seu pai assinou com o Manchester City, o último clube de sua carreira, e o filho se integrou às categorias de base dos Citizens. Foi quando passou a gerar mais expectativas, fazendo parte das seleções de base a partir dos 17 anos. A jovem promessa se profissionalizou meses depois, mas nunca ganhou chances verdadeiras com os celestes. Rodou por diversos clubes menores até deixar Manchester em 2009, insatisfeito com o tratamento que recebia. Os novos rumos acabaram sendo decisivos à sua carreira. Enfrentou dificuldades, chegando a atuar na quarta divisão inglesa. Mas acabaria escrevendo a sua própria história, especialmente depois que foi contratado pelo Leicester em 2011.

Convocado à seleção desde 2013, Kasper Schmeichel possui o seu próprio nome no futebol. Ainda que tenha orgulho de ser o filho de Peter, dentro de campo, ele não é mais apenas isso. E o pai também prefere falar da satisfação que tem do “garoto” por seus feitos do que ouvir qualquer tipo de comparação. Ambos são muito reservados neste sentido. O camisa 1 do Leicester, afinal, possui as suas próprias façanhas com o clube, não tão condecorado quanto o progenitor, mas protagonista de uma conquista que não se repetirá tão cedo na Premier League. E que não seja tão frequente na Champions League, o que fez em 2016/17 fica marcado na memória de sua torcida.

Kasper realiza na Rússia aquele que, possivelmente, foi um sonho de criança. Quando tinha cinco anos, talvez não se lembre do pai carregando a Dinamarca rumo ao título da Euro 1992. No entanto, aos 11, vivenciou bastante o Mundial da França. Peter, aliás, também realizava seu sonho de infância há 20 anos. Em 1974, era ele o menino de 10 anos que se fascinava com Sepp Maier. Campeão da segunda divisão em 1986, ainda não faria parte da Dinamáquina de Sepp Piontek. E já se via como um George Best, craque sem Copa, até alcançar a competição aos 34 anos, em 1998. “Jogar a Copa do Mundo era tudo que eu desejava. A atmosfera era tão fantástica que, depois da eliminação, voamos de volta para Copenhague, mas retornamos à França para nos juntarmos à festa como torcedores. Depois de todo o trabalho duro que você faz ao longo do ano, é um prêmio estar no Mundial”, comentou, tempos depois. Uma das lideranças naquela campanha da seleção dinamarquesa, parou apenas nas quartas de final, no movimentado jogo contra o Brasil.

Neste sábado, chegou a vez de Kasper Schmeichel fazer o mesmo em Saransk. O goleiro foi provado em boa parte do jogo contra a seleção peruana. Correspondia com boas intervenções, mesmo que sua temporada com o Leicester não tenha sido tão boa, entre deslizes e gols defensáveis. O duelo começou nervoso, com erros dos dinamarqueses na saída de bola. O camisa 1, todavia, segurou o placar. Quando André Carrillo soltou a bomba logo aos 12 minutos, o arqueiro saltou no canto para buscar. E diante de Christian Cueva, pronto para abrir o placar na marca da cal, o camisa 1 também deu sorte ao ver o meia peruano isolar sua cobrança de pênalti.

Os melhores momentos de Kasper vieram no segundo tempo. Edison Flores encheu o pé e ele operou o seu maior milagre na noite. Depois, Paolo Guerrero tentou de cabeça e parou nos braços seguros do veterano. Schmeichel ainda barrou uma tentativa de Luis Advíncula quase sem ângulo. E terminaria de salvar em uma pancada de Jefferson Farfán, defendida com o pé quase em cima da linha. Tudo bem, os peruanos desperdiçaram chances demais em meio aos vários ataques que criaram. Mas não se nega a importância do arqueiro para que o resultado se concretizasse. Uma vitória vital para que a Dinamarca brigue pela classificação.

Esta foi apenas uma parte do serviço de Kasper Schmeichel e da seleção dinamarquesa. A equipe é limitada e os desafios se estenderão por pelo menos mais duas partidas. Além disso, a ingrata vida de goleiro não permite criar qualquer tipo de empolgação prematura. O início de sua própria história em Copas, de qualquer forma, é bastante emblemático. E talvez possa lançar sua semente também em Max, seu filho. O guri de oito anos que compartilha as mesmas sensações que o pai teve quando era garoto, lá em 1998.


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