Cillessen e Krul: um ano depois, destinos diferentes

Destaque ao defender cobranças da Costa Rica na Copa, goleiro do Newcastle estagnou na temporada, enquanto arqueiro do Ajax evoluiu bastante

Salvador, Fonte Nova, 5 de julho de 2014. No fim de tarde na capital baiana, as quartas de final da Copa do Mundo mostravam um duelo (in)tenso. Mesmo com o 0 a 0 no placar, com a partida já na prorrogação, a Holanda era francamente mais ofensiva, e tinha chances a granel para definir a vitória e a vaga nas semifinais. Só que a Costa Rica, de história já entronizada como o grande conto de fadas da Copa, resistia bravamente, amparada numa defesa extremamente entrosada – e quando ela não era suficiente, no goleiro arrojado que Keylor Navas vinha sendo.

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No meio dos 15 minutos finais do tempo extra, os reservas holandeses vão para o aquecimento. E a transmissão oficial de tevê flagra o preparador físico ensaiando os reflexos de Tim Krul, terceiro goleiro da Oranje no Mundial. Ninguém entende muito bem aquilo. Basta dizer que, entre todas as transmissões brasileiras do jogo, somente Milton Leite, narrador do SporTV, cogitou a hipótese que se confirmaria.

Enquanto isso, Jasper Cillessen, o camisa 1 holandês, estava totalmente concentrado no jogo. Antes mesmo de fazer importante defesa num chute à queima-roupa de Marco Ureña, num contra-ataque costarriquenho, Cillessen via o que ocorria fora do campo. E um pensamento passou a lhe corroer, conforme Cillessen revelou à NOS, emissora holandesa de tevê, em dezembro passado: “Eles não vão fazer o que eu acho que eles vão fazer”. Iam.

Corta para o início da tarde daquele sábado, pouco antes da delegação holandesa deixar o hotel rumo à Fonte Nova. O preparador de goleiros da seleção, Frans Hoek, chama Krul para uma rápida conversa. O conteúdo dela foi contado por Krul, também à NOS, também no final de 2014: “Hoek veio até mim e disse que era grande a chance de eu entrar em campo, caso viessem os pênaltis. Eu não fiquei chocado, e pensei ‘não vai acontecer, vamos ganhar deles no tempo normal’. Mas à medida que o jogo correu e chutávamos bolas na trave, comecei a me arrepiar. Se eu não defendesse nenhum, eu seria um babacão. E a pressão estava nos olhos dos outros, também”.

Voltemos à Fonte Nova. Sabe-se o que aconteceu: Krul entrou nos acréscimos da prorrogação em lugar de Cillessen, que não fora avisado da possibilidade pela comissão técnica – e foi para o banco de reservas chutando o que visse pela frente. Mas o camisa 23 justificou a aposta de Frans Hoek e Louis van Gaal, defendendo as cobranças de Bryan Ruiz e Ureña e sendo o herói da classificação holandesa às semifinais da Copa.

A decisão que completa um ano neste domingo foi das mais controversas da história das Copas. Van Gaal foi tido como gênio, por alguns, pela ideia da entrada de Krul, esfriando a empolgação dos Ticos. Para outros, foi até mau-caráter, ao esconder a decisão de Cillessen. Também no ano passado, o titular comentou a conversa que teve com o treinador e o preparador de goleiros, após o jogo: “Eu não sabia de nada, não reagiria daquele jeito se soubesse. Não sou um jogador birrento. As coisas seriam diferentes [se eu soubesse de tudo]. Falei isso também a Van Gaal e a Hoek. Por quê? O conteúdo da conversa eu prefiro guardar para mim”.

Com a permanência do titular na decisão por pênaltis contra a Argentina (e o fracasso dela), o maniqueísmo exagerado visto após as quartas de final só aumentou. Krul era um goleiro decisivo, com porte físico de respeito, que se impunha na hora da decisão. Não à toa, era titular do Newcastle, atuava no Campeonato Inglês. Cillessen passou a ser visto como um guarda-metas que podia até ser regular, mas não impunha respeito, não fazia nada impressionante, não merecia confiança nas horas cruciais de um jogo. Podia ser verdade, até então. Hoje, não mais. Porque a temporada atual deu destinos diferentes a ambos.

Krul saiu da Copa prometendo decolar definitivamente, mas não foi o que aconteceu. Continuou no Newcastle, que fez péssima campanha na Premier League. E seguiu perturbado por seu ponto fraco, a fragilidade física: ficou de fora de seis rodadas, vitimado por uma lesão no tornozelo, sofrida no final do ano passado. Além disso, ao contrário da temporada passada, voltou sem ritmo de jogo, cometendo falhas contra Manchester United e West Ham. Por fim, mesmo tendo recebido uma chance no amistoso contra o México, não passou perto de tornar-se titular definitivo da Oranje.

Já Cillessen cresceu na adversidade. Para usar números: em percentagem, foi o goleiro que mais defesas fez no Campeonato Holandês 2014/15. Foram 119 defesas em 161 chutes a gol contra os Ajacieden nas 34 partidas da Eredivisie – ou seja, 81,7 por cento de arremates defendidos. Não é à toa que o Ajax teve a defesa menos vazada da temporada, menos até do que o campeão PSV. Nem que o arqueiro tenha sido escolhido pela torcida do Ajax o Jogador do Ano no clube. Afinal, se estabeleceu como um goleiro capaz de defesas difíceis (o clássico contra o Feyenoord, no primeiro turno, foi a prova), com poder de liderança sobre o elenco. Numa temporada apagada dos Amsterdammers, as palavras de Frank de Boer são definitivas: “Ele é um dos poucos [do elenco] a ter feito uma temporada constante e muito boa. Provavelmente é o único”. Finalmente, nas dez partidas em que Guus Hiddink comandou a seleção, o guarda-metas só não foi o camisa 1 em dois amistosos.

Para terminar, mesmo tendo renovado o contrato com o Ajax até 2018, Cillessen é apontado com frequência cada vez maior como possível reforço do Manchester United, caso David de Gea deixe Old Trafford. Segundo a imprensa holandesa, o Ajax já até trabalha secretamente com uma lista de substitutos. E o principal interessado em contratar Cillessen seria… Louis van Gaal, justamente o técnico que negou ao goleiro a chance de brilhar em Salvador, há exatamente um ano. Como diz o popular meme da internet, parece que o jogo virou.