A seleção mexicana possui uma predileção por jovens talentos. Em quase todas as Copas do Mundo, surgem prodígios que se candidatam a carregar El Tri a momentos memoráveis. Nem sempre eles se concretizam. Mas em uma noite de lenda em Moscou, aquele apontado como o futuro também fez o presente acontecer. Hirving Lozano tem 22 anos, menos de dois deles aparecendo nas convocações da equipe nacional. Logo se tornou um jogador essencial no esquema de Juan Carlos Osorio. É o garoto do drible, que causa o desequilíbrio, que promove a algazarra na defesa adversária. Justamente o que o Chucky aprontou. Aterrorizando o lado direito da defesa da Alemanha, o camisa 22 acabou com o jogo. Anotou o gol que garantiu a vitória por 1 a 0, naquele que pode ser considerado o maior resultado do México na história dos Mundiais.

O apelido de Chucky é bastante sugestivo. Sim, ele faz uma referência direta ao Boneco Assassino. Quando chegou às categorias de base do Pachuca, aos 11 anos, o adolescente adorava pregar peças nos companheiros. Escondia-se sob a cama e puxava as pernas de supetão. O pavor causado por “Chucky” nos outros meninos foi o que se viu em Moscou, neste domingo. Os germânicos simplesmente não sabiam como fechar os espaços na avenida que se abria pelo lado direito, para conter o ponta. Até que o lance fatal saísse aos 35 do primeiro tempo.

E não que Lozano seja um desconhecido, longe disso. A partir de 2013, ele se firmou no time principal do Pachuca. Conquistou o Clausura em 2016, até que o ápice acontecesse em 2017, ao faturar a Concachampions como principal jogador dos Tuzos. Era um orgulho, mas também uma perda, já que logo assinou como o PSV. Ao mesmo tempo, começava a se destacar pela seleção. Convocado desde 2016, participou da Copa América Centenário. Também esteve presente na Copa das Confederações, mas ganhou a primeira chance como titular apenas na rodada final da fase de grupos. Mostrou a que veio, com o gol que valeu a vitória sobre a Rússia e ratificou a classificação. Então, permaneceu em campo apenas por 45 minutos nas semifinais. O “time B” da Alemanha dava um baile sobre os mexicanos e o esforço do garoto era inútil.

Lozano teve um ano para dar a volta por cima. E cresceu muito neste período. Pela seleção, foi fundamental na reta final das Eliminatórias. Deu assistências nas vitórias sobre Panamá e Trinidad e Tobago, encaminhando a classificação do México ao Mundial. Já no clube, não precisou de tempo para se adaptar na Europa. Seu desempenho no Campeonato Holandês foi simplesmente espetacular, sobretudo no primeiro turno. Anotou 17 gols e ofereceu 11 assistências em 29 jogos pelo PSV. Não seria exagero colocá-lo como principal jogador dos Boeren na campanha que valeu o título da Eredivisie. Chegava em ótima forma à Copa.

Durante os amistosos preparatórios, Lozano ainda frequentou o banco de reservas. Mesmo assim, parecia a escolha perfeita para a ponta esquerda contra a Alemanha. O Nationalelf acumula naturalmente seu jogo pela direita, a partir das subidas de Joshua Kimmich. Com o lateral no ataque, a recomposição às suas costas ficava sob a tutela de jogadores lentos. A deixa para que o Chucky metesse medo nos alemães. Quase todos os contragolpes mexicanos saíam a partir de suas arrancadas. Avançava, entrava na área, entortava os marcadores. Nos primeiros 25 minutos, criou várias oportunidades ao time. E em sua jogada característica, cortava de fora para dentro, mas suas primeiras tentativas acabaram bloqueadas.

Faltava ao México saber o que fazer com a bola, quando as brechas surgiam na área. E diante da falta de proteção da Alemanha, eles foram frequentes. Chicharito Hernández, em especial, vinha se enroscando nas próprias pernas. Mas, aos 35 minutos, Lozano aprontou aquilo que seus companheiros não vinha conseguindo. Uma recuperação na defesa permitiu o contragolpe ao México. Kimmich esperava a bola já como um ponta, e não teve tempo para voltar. Sami Khedira, o desarmado, estava caído em campo. Havia um corredor a Chucky e, mesmo partindo bem atrás, ganhou de Mesut Özil na velocidade. Então, Chicharito rolou para o ponta. Marcado pelo camisa 10 alemão, deu um corte seco. E de frente para o crime, fez o que nenhum outro mexicano foi capaz no restante do tempo: desferiu um chute no gol, certeiro, no canto inferior de Manuel Neuer. O goleiro tocou na bola, incapaz de salvar.

Lozano vibrou, cerrou os punhos, deslizou de joelhos. Soltou um grito de seu âmago, de quem sabe a importância daquele momento. No banco de reservas, os seus companheiros saíam correndo para abraçá-lo. A torcida, que transportou o Luzhniki para o coração de Tenochtitlán, urrava enlouquecidamente nas arquibancadas, fazendo o vulcão entrar em erupção. E a Cidade do México, que tantas vezes sofreu com terremotos, provocou um com as próprias pernas. Os pulos de êxtase foram registrados até mesmo pelos sismógrafos da capital. Era a apoteose de um povo que ama futebol, e aguardou por tanto tempo uma vitória com este peso. Que seja a estreia, já representa demais. É a glória.

O México, todavia, teria mais 65 minutos para trabalhar intensamente. Foi o que fez. Lozano não parava, mesmo sem a bola. Era parte importante do sistema para dar o combate e atrapalhar a vida de Kimmich em suas insistentes subidas. Além disso, tornava-se cada vez mais uma alternativa aos contra-ataques. No entanto, aos 21 minutos do segundo tempo, Juan Carlos Osorio optou por tirá-lo. Preferia um atacante de força, com a entrada de Raúl Jiménez. Do banco de reservas, o jovem foi mais um na multidão de mexicanos, torcendo com fé por aquela vitória. Mais um que se misturou à festa após o apito final. Eram apenas dezenas em campo, entre atletas e comissão técnica, que se ampliavam a milhares nas arquibancadas e a milhões em casa, eternizando na memória o triunfo inesquecível.

Pelo que apresentou contra a Alemanha e pelo elenco que tem, o México pode sonhar nesta Copa do Mundo. Pode imaginar uma campanha que, enfim, vá além do trauma insistente nas oitavas de final, que se repete desde 1994. Lozano é um desses que podem dar uma pimenta a mais a El Tri, para que fuja do Brasil e consiga ambicionar alto. Chucky estará lá para tocar o terror.