A tecnologia chegou ao futebol para ajudar. E, de fato, o VAR consegue reduzir os erros. No entanto, há também outras discussões atreladas ao sistema que geram insatisfação. Um dos pontos mais importantes se refere à padronização das decisões, o que é problema em diferentes países que se valem do auxílio do vídeo. Se minimiza as falhas, o VAR por outro lado acaba expondo mais os erros que ainda são inescapáveis – e, de certa maneira, os ratifica. Algo que se tornou discussão nesta quinta-feira, na Premier League, após a vitória do Newcastle por 2 a 0 sobre o Sheffield United.

O lance polêmico da partida aconteceu no segundo gol dos Magpies em Bramall Lane. Após um lançamento da defesa, Andy Carroll deu uma casquinha de cabeça na bola e Jonjo Shelvey saiu de frente para o gol. O assistente levantou a bandeira e o time inteiro do Sheffield United parou, mas o árbitro não apitou. Até mesmo Shelvey pareceu titubear, mas seguiu o lance e não teve trabalho para superar o goleiro Dean Henderson. Ao final, a revisão no VAR confirmou a posição legal de Carroll e validou o tento, o que gerou insatisfação das Blades.

A recomendação da Premier League é que os jogadores não parem. Todavia, em uma reação natural, os atletas do Sheffield United seguiram a indicação do bandeira – que também deveria ficar com seu instrumento abaixado em caso de dúvida. Na saída do estádio, o técnico Chris Wilder analisou de maneira ampla o impacto que o VAR gera no futebol, indicando certo enfado.

“O jogo mudou num piscar de olhos. O futebol é completamente diferente do que experimentei quando era um garoto de 16 anos, ainda na base. Não sei para onde está indo, mas está sugando a minha vida. Sugou a vida dos meus jogadores e, mais importante, de 30 mil torcedores do Sheffield United”, declarou Wilder. “Acho que já treinei por quase mil partidas e o jogo mudou. É um novo esporte para mim, estamos aprendendo a lidar com isso”.

Wilder, inclusive, se queixou da maneira como as decisões do VAR dominam a própria pauta: “Eu deveria estar realmente curtindo minha passagem pela Premier League, e estou, com um time que me deu uma ótima chance. Mas essa parte de dar entrevistas, quase sempre é baseada nas decisões do VAR, antes e depois dos jogos. Quero falar sobre nossa primeira temporada na Premier League. Quero falar sobre tentar superar um time como o Newcastle. Falar sobre futebol de novo, e não outra vez sobre o VAR”.

A falta de padrão do VAR foi um assunto nas declarações do treinador. Wilder refletiu sobre a maneira como os posicionamentos mudam e dificultam a vida das equipes. “O VAR está se tornando difícil a todos. Não acho que alguém sabe onde eles estão, com o que estão lidando. Precisamos aprender isso durante o trabalho. Não sei se alguém sabe o que acontece com qualquer decisão. As coisas mudam a cada semana. Ninguém sabe o que fazer”, reforçou.

Além do mais, Chris Wilder preferiu não colocar a culpa em seus jogadores. Afirmou que agiram de uma maneira natural, mesmo com as recomendações passadas pela Premier League no início da temporada. Em contrapartida, discutiu a maneira como o assistente se portou.

“Se eu sou um defensor e o assistente levanta a bandeira, o árbitro está prestes a apitar, então acho que é natural parar. É um jogo diferente agora, em que todo mundo precisa se adaptar. Estou um pouco esgotado com isso, um pouco triste com a maneira como está acontecendo”, afirmou. “Eu poderia criticar meus jogadores por não jogarem até o apito, mas quando nos disseram no início da temporada que o assistente manteria sua bandeira abaixada, e todos ouviram isso, até Jonjo me deu a impressão que pensou estar em impedimento”.

“O assistente precisa aprender a manter sua bandeira abaixada. Há muitas coisas que um jogador na Premier League precisa pensar – jogar com a bola, sem a bola, atuar diante de 30 mil. Mas o assistente apenas precisa manter sua bandeira baixa. Falaremos com os rapazes e é uma dura lição a aprender. Mas também foi uma lição dura contra o Tottenham fora de casa, dura quando uma falta não foi revista contra o Leicester. Temos muito a avançar. Essa foi só uma noite e a próxima também pode ser assim”, concluiu.

Apesar das queixas contra a arbitragem, o Sheffield United faz uma temporada acima das expectativas em seu retorno à Premier League. Ocupa a nona colocação, com 19 pontos. Só não pode dar margem ao erro. Se está a quatro pontos da zona de classificação à Liga Europa, aparece cinco acima da zona de rebaixamento.