Gabriel Jesus é um jogador que vive de muitas emoções, é normalmente muito expressivo. Sua cara de choro é famosa. Jesus não conseguiu render na Copa do Mundo como no início da sua carreira na Seleção ao marcar dois gols no Equador nas Eliminatórias da Copa. Certamente chorou muito depois do Mundial por tristezas. Neste domingo, o seu choro, emocionado, tem outro significado: foi expulso de campo, mas também foi decisivo na partida. Escreveu seu nome como protagonista na história de um título do Brasil. Decisivo na semifinal e na final. Não é pouca coisa.

Jesus foi um dos mais criticados jogadores do Brasil na Copa, com atuações abaixo da média. Só não perdeu a posição na Rússia porque Tite foi teimoso. Passado o Mundial, virou reserva na Seleção. Foi assim que chegou à Copa América, disputada no Brasil, com Roberto Firmino no seu lugar.

O jogador do Manchester City conseguiu dar a volta por cima saindo do esperado. Ganhou chance atuando pela ponta, posição que começou a carreira, se recuperou, lutou muito e, na reta final, teve atuações decisivas na semifinal e final e escreveu seu nome no título da Copa América. Nem a expulsão no fim do jogo diminuiu o tamanho da sua atuação.

Gabriel Jesus é um centroavante, veste a camisa 9 e passou em branco na Copa do Mundo da Rússia. Um peso enorme para quem joga ali no centro do ataque. No Mundial, Tite colocou muitas incumbências nas costas do camisa 9, que por vezes precisou fazer um sacrifício extra porque Neymar, como se soube depois, não tinha plenas condições físicas. Isso, porém, não explica totalmente o que aconteceu. Suas atuações ficaram realmente abaixo do que se esperava, ele não conseguiu dar continuidade nas jogadas e acabou mantido no time apenas por teimosia do treinador.

Quando Gabriel Jesus volta ao time titular para ser ponta direita, foi uma surpresa. Embora ele já tenha atuado em alguns momentos nessa posição de ponta, mais pela esquerda do que pela direita. Nos primeiros jogos, Gabriel Jesus foi reserva e entrou em campo. No terceiro jogo, justamente contra o Peru, Jesus foi uma surpresa de Tite. Porque o jogador que todo mundo queria ver em campo era Éverton, que também ganhou a posição. Saíram do time titular Richarlison, que vinha atuando pela direita, e David Neres, que estava pela esquerda. Jesus virou o ponta direita, enquanto Éverton ficou pela esquerda.

Éverton era muito esperado como titular, mas Jesus também foi muito bem no jogo contra o Peru. Apesar disso, não conseguiu marcar um gol, uma sina que o acompanhava desde a Copa do Mundo. Em jogos oficiais, faltava balançar a rede. O peso de vestir a 9 e não balançar as redes era muito grande. E, pior ainda, nos acréscimos da partida desperdiçou um pênalti. O nervosismo era claro e ele mesmo admitiu ao final do jogo, dizendo que mudou a sua forma de cobrar pelo nervosismo.

Contra o Paraguai, o Brasil fez um dos seus piores jogos. Conseguiu pressionar no segundo tempo, mas o jogo ficou por um fio de uma eliminação, novamente, nas quartas de final. O filme parecia se repetir como tinha acontecido em 2011 e 2015. Só que justamente nos pênaltis, aconteceu de Gabriel Jesus ter a responsabilidade de cobrar o quinto pênalti e decidir a classificação do Brasil. Não era pouco, diante da má fase que ele vivia e de ter perdido pênalti no jogo anterior. Ele assumiu a responsabilidade e cobrou. Importante, mas ele sabia que precisava de mais.

Na semifinal contra a Argentina, veio a consagração. Marcou um gol, fez toda a jogada do segundo em uma vitória por 2 a 0. Decisivo e com uma grande atuação, ele quebrou uma seca enorme de gols: foram 676 minutos sem marcar gols em jogos de grandes competições. O desempenho do jogador já estava melhor, mas o gol era muito importante. Sendo contra a Argentina, mais importante ainda. E com atuação grande, de quem se importa, luta e briga muito.

Nesta final, Gabriel novamente foi muito bem. Um dos pontos positivos foi a melhora do seu entrosamento com Firmino, que já tinha rendido frutos contra a Argentina, quando um deu passe para o outro marcar os gols – um para o outro, o outro para o um.

Desta vez, na final, foi mais uma vez bem em dois lances decisivo. No primeiro gol, foi crucial em uma jogada individual diante de Trauco e no cruzamento para Éverton. No segundo, se posicionou bem depois de uma roubada de bola de Firmino, que tocou para Arthur e Jesus, posicionado como centroavante na ausência de Firmino da posição, recebeu para marcar um gol que aliviou o time antes do intervalo, colocando 2 a 1 no placar.

Houve ainda um episódio que poderia complicar um pouco a situação. Jesus estava há tempos se desentendendo com Zambrano e o zagueiro já tinha tomado cartão. Até que em um lance que é discutível até se foi falta, o árbitro deu o segundo cartão amarelo para o jogador – o primeiro cartão também tinha sido discutível. Gabriel deixou o campo inconformado com a expulsão, saiu chutando garrafa de água, balançou a cabine do VAR e sentou nas escadas na direção do vestiário e chorou copiosamente.

Ao final do jogo, que ainda teve mais um gol do Brasil, Jesus voltou a campo e, agora, emocionado de maneira feliz. Jesus conseguiu ter um papel importante nos momentos decisivos da Copa América, nos dois jogos decisivos, e isso tem um peso enorme para um jogador que vinha sob enorme desconfiança desde a eliminação brasileira na Rússia.

Gabriel Jesus deixa a Copa América recuperado. De surpresa contra o Peru no terceiro jogo para um titular decisivo na reta final. Deixa a competição mostrando qualidades que podem ser aproveitadas inclusive por seu técnico no Manchester City, Pep Guardiola, já que ele demonstrou ser capaz de atuar pelo lado do campo com qualidade. Jesus sai da Copa América maior, mas, principalmente, de alma lavada. As lágrimas depois da expulsão se converteram em muitos sorrisos. Desta vez, teve “alô, mãe”. E de título.

Gabriel Jesus e sua mãe depois da conquista do título (Getty Images)