O relógio acabara de passar dos 90 minutos regulamentares. O Toronto já havia cumprido a sua missão, ao reverter o placar da derrota em casa na ida, e tinha a bola do título nos acréscimos do segundo tempo. Giovinco conseguiu uma jogadaça pela esquerda, cruzou e, livre, Delgado poderia escolher o que fazer. Resolveu bater de primeira, em tiro que seria fatal, mas saiu por cima do travessão. O camisa 18 se ajoelhou no chão e lamentou. Sabia que aquele era o lance capital. O lance que custou aos canadenses o título continental. E não só este, afinal, já que foram vários e vários gols perdidos desde o jogo de ida. Por ter vencido a partida no Estádio Akron por 2 a 1, ainda assim, o Toronto levou a decisão para os pênaltis. Mas não teve psicológico suficiente. A falta de pontaria mais uma vez pesou contra e a glória se seguiu ao outro lado. Com o triunfo por 4 a 2 na marca da cal, o Chivas Guadalajara conquistou a Concachampions após uma espera de 56 anos.

As expectativas maiores estavam do lado do Toronto, óbvio. Poderia ser o primeiro time do Canadá a dominar o continente, encerraria um jejum de quase duas décadas da Major League Soccer na competição, consagraria um elenco muito forte. Mas não se pode negar a grande história que surge entre os campeões. Porque, apesar de manter a tradição mexicana no torneio, o Chivas reverteu os prognósticos. Em uma fase péssima na Liga MX, conseguiu bater o favorito e encerrou o mais longo jejum entre os mexicanos na Concachampions.

O Chivas havia sido o primeiro campeão continental, em 1962. Bateu os guatemaltecos do Comunicaciones para ficar com a taça inédita, que vinha na esteira das competições recém-criadas na Europa e na América do Sul. Depois disso, nunca mais. Outros 12 clubes mexicanos ficaram com o troféu, mas não os gigantes de Guadalajara. E as oportunidades não faltaram. O primeiro vice aconteceu logo em 1963, quando o bicampeonato foi frustrado pelo Racing Haïtien. Já em 2007, nos pênaltis, os alvirrubros perderam a decisão para o Pachuca, quando estavam nas cobranças alternadas. E isso sem contar o vice na Libertadores, sucumbindo ao Internacional em 2010.

O atual time conquistou o Clausura em 2017 e já representava uma quebra no drama recente do Chivas. O clube não conquistava uma das taças do Campeonato Mexicano desde o Apertura de 2006. Neste intervalo, foram várias crises em Guadalajara. Mudanças de técnicos, decisões equivocadas das gestões, ameaça do promédio. Nem mesmo a inauguração do moderno Estádio Akron (na época, Omnilife) impulsionou o Rebaño Sagrado. Quem parecia dar um jeito era Matías Almeyda, técnico que ajudou a impulsionar os resultados, conquistando ainda duas edições da Copa MX. Todavia, as últimas duas campanhas na Liga MX descompensaram. Os alvirrubros conquistaram raras vitórias e ficaram de fora dos playoffs em ambas.

A campanha na Concachampions surgia como um alento. E a inusitada vitória por 2 a 1 sobre o Toronto no Canadá representava demais. O Chivas achou dois gols, enquanto os anfitriões não se cansavam de perdê-los. Levariam a vantagem para casa, com o apoio da massa em Guadalajara, para segurar um oponente superior. Mas como crise pouca é bobagem, nesta semana a queda de braço entre jogadores e diretoria ficou exposta. Os atletas treinaram com as camisas do lado avesso, em protesto por causa dos prêmios referentes ao título de 2017, que ainda foram pagos. Segundo o elenco, apenas 3% do valor chegou em suas mãos.

Apesar disso, o Chivas sabia do tamanho da oportunidade que tinha nesta quarta. E, dentro de suas limitações, manteve o compromisso máximo para encarar o Toronto. Aos 19 minutos, o duelo parecia encaminhado quando Orbelín Pineda abriu o placar ao Rebaño Sagrado, aproveitando uma falha de marcação. Todavia, o Toronto mostraria sua força logo na sequência. Na base da insistência, Jozy Altidore empatou aos 24, em bola que passou por entre as pernas de dois defensores antes de entrar. Já aos 44, Giovinco fez grande jogada individual, batendo no canto do goleiro Rodolfo Cota. O camisa 10 era quem chamava o jogo para si, em grande atuação.

O segundo tempo foi aberto. Os dois goleiros trabalharam, em chances momentâneas de ambos os lados. Já os minutos finais pareciam mais favoráveis aos canadenses. Houve uma bola travada por Rodolfo Cota na pequena área já aos 44, até o referido lance de Marky Delgado. O chute que saiu por cima do travessão e tornou os pênaltis inescapáveis. Então, pesou a competência dos Chivas. Os mexicanos não desperdiçaram uma cobrança sequer, convertendo com Oswaldo Alanís, José Jesús Godínez, Alan Pulido e Ángel Zaldivar. Já pelo Toronto, apenas Giovinco e Delgado acertaram o pé. Jonathan Osorio carimbou o travessão, enquanto Michael Bradley selou a derrota ao isolar seu chute. Triunfo por 4 a 2, festa dos anfitriões.

A comemoração pelo título que não vinha desde os anos 1960 não poderia ser mais efusiva. Se gosta de proclamar o gigantismo de sua torcida, o Chivas expôs isso em meio à multidão nas arquibancadas, que depois tomou as ruas de Guadalajara. E o mais notável é que, durante o festejo dos jogadores, a massa alvirrubra demonstrou seu apoio à causa do elenco. Gritou para que a diretoria “pague os atletas”. Taça nas mãos, o Chivas expurgou as suas penúrias depois de ver tantos clubes mexicanos a levarem para casa – sobretudo o América, principal rival do Rebaño Sagrado e maior campeão da Concacaf.

Clube que contrata apenas jogadores mexicanos por filosofia, o Chivas tem alguns destaques que merecem reconhecimento. Rodolfo Pizarro é o principal condutor no meio e tem boas chances de ser chamado à Copa do Mundo, assim como o zagueiro Oswaldo Alanís, que deve seguir à Europa após o Mundial. Rodolfo Cota dá o toque de experiência na meta. Alan Pulido é uma das referências na frente. Orbelín Pineda, aos 22 anos, encabeça a qualidade entre os mais jovens. E ainda há o capitão Carlos Salcido, tão tarimbado na seleção, que aos 38 anos ergue o troféu sonhado no clube onde despontou. Coletivamente, ainda é uma equipe com várias deficiências. Mas que teve frieza o suficiente para botar a faixa no peito.

Já no banco de reservas, méritos totais de Matías Almeyda. Depois de uma belíssima carreira como jogador, o argentino repete o sucesso como técnico. Sua passagem pelo River Plate ficou marcada pelo acesso à primeira divisão em 2012, algo que ele conseguiu logo depois com o Banfield. Já no México, o comandante chegou para afastar o fantasma do rebaixamento. Terminou por levar o Chivas a alegrias que não desfrutavam faz tempo, com cinco taças conquistadas em menos de três anos. Que o desempenho da equipe não seja uniforme, prova dos fracassos da temporada na Liga MX, não é isso que inibe a euforia do Rebaño Sagrado.

E, por mais que seja outro mexicano no Mundial, será interessante acompanhar a epopeia do Chivas rumo à inédita competição internacional. Possivelmente, haverá uma mobilização massiva de sua fanática torcida. Uma invasão, como não é comum ver entre as outras equipes do México. O desafio de reverter o histórico de decepções dos compatriotas será duro, considerando a limitação em contratar estrangeiros e a própria situação financeira nebulosa do clube. Ainda assim, o Rebaño Sagrado terá o gosto de vivenciar um dos maiores momentos de sua história. Depois de 56 anos, havia um grito de afirmação entalado na garganta que finalmente ganhou os ares.