Artilheiro, falastrão, autêntico. Giorgio Chinaglia não é o tipo de jogador que costuma ser unânime. Mesmo assim, conquistou multidões, a ponto de ser mitificado em dois clubes históricos. Durante o centenário da Lazio, o centroavante acabou eleito o maior ídolo a vestir a camisa biancoceleste. Não sem motivos: seus gols foram fundamentais para dar o primeiro scudetto aos laziali. Já no New York Cosmos, podia não ter o cartaz de outras estrelas, mas seu ego inflado o tornou igualmente midiático. E, no auge da forma, também compensou em campo, marcando gols a rodo. Um dos matadores mais notáveis dos anos 1970, que completaria 70 anos nesta terça, se ainda estivesse vivo.

Nascido na Itália, Chinaglia iniciou sua carreira em Gales. Diante das dificuldades econômicas vividas no país, se reconstruindo após a Segunda Guerra Mundial, o patriarca levou a família para o Reino Unido, em busca de um trabalho na indústria metalúrgica. Giorgio tinha oito anos e sentiu na pele as penúrias, vivendo em uma casa de um cômodo. Encontrou no futebol sua válvula de escape. O jovem chamava atenção pelo ótimo porte físico e, ainda na adolescência, acabou levado pelo Swansea. Dividia sua rotina entre o clube e o restaurante da família, inaugurado pelo pai após estudar gastronomia.

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Aos 18 anos, Chinaglia estreou pela equipe principal do Swansea, então na terceira divisão do Campeonato Inglês. No entanto, o centroavante durou pouco: os interesses na jogatina e na boemia minavam o seu compromisso com o clube, que preferiu liberá-lo. Já era tempo de retornar à Itália, onde cumpriria o serviço militar obrigatório. No quartel, o garoto se tornou mais disciplinado. E os treinos ajudaram a impulsionar o seu tipo físico, bem mais preparado para romper defesas. Defendeu a Massese, brilhou no Internapoli e chegou como aposta da Lazio, em 1969. Na capital, faria história.

Chinaglia não emplacou de cara nos biancoceleste. Inclusive, chegou a ser rebaixado em sua segunda temporada. Porém, o novato cresceu junto com o time. O estilo rompedor se encaixou perfeitamente, com enorme capacidade para abrir espaços e fuzilar os goleiros. O acesso veio em 1971/72. No ano seguinte, a Lazio já se colocou entre os candidatos ao título, terminando a campanha na terceira posição da Serie A. Até que a glória maior fosse alcançada em 1973/74: o centroavante anotou 24 gols, mais da metade do total da equipe, levando os laziali à conquista inédita do scudetto. Marcou, inclusive, o tento que assegurou a façanha, em pênalti convertido contra o Foggia, na penúltima rodada. O clube da capital terminou dois pontos à frente da Juventus.

A fase esplendorosa de Chinaglia o levou à seleção italiana a partir de 1972. Participou da campanha de classificação dos Azzurri à Copa do Mundo de 1974 e disputou duas partidas daquele torneio. Contudo, ao ser substituído contra o Haiti, arrumou um escarcéu com o técnico Ferruccio Valcareggi. Fez gestos obscenos ao comandante, chutou a porta do vestiário, jogou garrafas de água longe. Ali, atrapalhou sua continuidade na equipe nacional. Não coincidentemente, gravou no mesmo ano uma música chamada “(I’m) Football Crazy”. E o gênio intempestivo também prejudicava na Lazio. Com a queda de rendimento do time, arrumou as malas em 1976. Deixou os biancocelesti como segundo maior artilheiro da história naquele momento, atrás apenas de Silvio Piola – depois, superado por Giuseppe Signori. O centroavante faria América.

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A escolha de Chinaglia pelo Cosmos fazia todo o sentido. Ele era casado com uma americana e já tinha negócios no país. Ofereceu-se para defender o clube, algo que a diretoria abraçou. O italiano desembarcou em Nova York meses depois de Pelé, como a segunda grande estrela da companhia. E, ao contrário de boa parte dos reforços renomados da NASL, chegava na melhor forma. Aos 29 anos, até podia não estar exatamente no auge. Independente disso, arrebentou nos Estados Unidos.

Foram sete anos de Chinaglia na NASL. O centroavante se tornou o maior goleador da história da liga e também do clube, com 193 gols marcados em 213 partidas. Conquistou o título quatro vezes, foi artilheiro quatro vezes e recebeu o prêmio de MVP em 1981. A marra era tanta que o italiano se dava ao luxo até mesmo de desacatar Pelé. Em episódio célebre, o camisa 9 reclamou que o Rei não lhe passava a bola e ouviu do brasileiro que não havia motivos para tocar a um centroavante que tentava marcar gols de ângulos impossíveis. Pois o camisa 10 teve que ouvir. “Eu sou Chinaglia! Se eu chuto de um lugar, é porque Chinaglia pode marcar dali!”, disse, com o sotaque acentuado e sempre se referindo a si mesmo na terceira pessoa. Segundo Beckenbauer, o companheiro era um jogador brilhantes, mas “não tinha muito tino para ser diplomata”.

A autoconfiança era a característica principal de Chinaglia, que disputava os holofotes em Nova York com os astros de outros esportes – em especial, Reggie Jackson, dos Yankees, e Walt Frazier, dos Knicks. “Se você não tiver ego, especialmente nos esportes, você não vai muito longe”, afirmou, tempos depois. Em 1979, quando ganhou a cidadania americana, declarou que colocaria orgulhosamente os papéis ao lado de uma garrafa de uísque.

Ainda na década de 1980, Chinaglia deixou o Cosmos para se tornar presidente da Lazio. Período infeliz, que culminou no rebaixamento dos biancocelesti. Na época, chegou a ser acusado de extorsão e pegou suspensão de oito meses por ameaçar um árbitro. Também voltou ao clube de Nova York para ser cartola e igualmente fracassou. E as controvérsias fora de campo ainda incluíram um suposto envolvimento com o crime organizado e a investigação por suspeitas de lavagem de dinheiro, na tentativa de comprar a Lazio. No final de sua vida, o veterano retornou aos Estados Unidos, onde passou seus últimos anos. Faleceu em 2012, vítima de um ataque cardíaco. Deixou uma frase emblemática, que resumia sua personalidade, sua carreira e sua vida pessoal: “Eu não ligo pra merda nenhuma dessas acusações. Por que as pessoas não me julgam por aquilo que fiz em campo?”.

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