O futebol na China tem sido alvo de muita atenção e principalmente muito investimento do governo chinês. São imensos descontos fiscais para as empresas gastarem centenas de milhões nos clubes do país. Tudo isso tem um objetivo: elevar o patamar do futebol chinês. Mas até que ponto pode ir essa evolução? Não tão longe quanto se diz, segundo Kevin Strotz, auxiliar técnico de Felix Magath no Shandong Luneng.

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Em termos estruturais, o investimento já tornou os clubes chineses algo de ponta. É o que Strotz conta quando fala sobre o time, que tem Diego Tardelli e Gil, dois brasileiros, entre os seus jogadores. Por lá também jogam Papiss Cissé, senegalês, ex-Newcastle, e Graziano Pellé, ex-Southampton.

“Em termos de estrutura, nosso clube, Shandong Luneng, está em um nível que faria inveja até a alguns times da Bundesliga. Eles têm campos de treinamento, a sua própria academia e departamento médico com as mais modernas máquinas. O clube tem um acordo de cooperação com a Universidade do Esporte Alemão, em Colônia, e membros da equipe deles nos visita de tempos em tempos em Jinan para fazer testes. Você pode conseguir tudo que precisa na China quando o dinheiro não é um problema”, contou o treinador em entrevista à DW.

“Mas tudo ainda está na infância. A academia ainda cheira como nova porque ela nunca foi usada apropriadamente. Você primeiro tem que levar os jogadores pelas mãos, mas é para isso que estávamos lá, para mostrar a eles como e o que usar, e quando”, descreveu ainda o alemão.

Só que de uma liga que contratava muitas estrelas mundiais, o Campeonato Chinês ganhou novas regras e a chegada de jogadores desse calibre diminuiu com a taxa extra – o valor pago pelo clube pela contratação tem que ser gasto igualmente em investimento no futebol de base do país, como uma espécie de “imposto de luxo”.

Quando perguntado se os chineses estão no início do desenvolvimento, o alemão disse que não. “Eu não diria isso, mesmo que o ‘boom’ dos últimos anos tenha acabado. Muitas coisas mudaram. Mais está sendo investido em programas de jovens. Costumava ser feita apenas de estrelas envelhecidas que estavam buscando uma aventura e eram atraídos para a China, onde eles podiam também conseguir ótimo retorno financeiro”, conta Stotz.

“Agora, porém, as coisas mudaram. Mais jogadores que estão no auge das suas carreiras estão sendo contratados, como o brasileiro Oscar. Você pode observar isso com os técnicos também. Roger Schmidt, por exemplo, ainda é muito jovem [tem 50 anos]”, disse ainda o auxiliar de Magath.

Quando perguntado se os chineses têm paciência para implantar o projeto do presidente do país, Xi Jinping, de transformar a China em o país que seja uma potência do futebol, o alemão não é tão otimista. “Eu tenho falado muito sobre isso com muitas pessoas e muitos dizem que eles não veem a China se tornando uma potência do futebol em suas vidas. Eu tenho 27 anos e eu não acho que verei isso na minha vida também”, opinou o treinador.

Perguntado sobre um dos objetivos do plano de metas chinês, de ser capaz de ganhar uma Copa em 2050, Stotz é ainda mais duro. “Eu acho que isso é quase impossível. O jogo irá definitivamente se desenvolver mais aqui e eles farão progressos, é claro. A China certamente irá se classificar para uma Copa do Mundo. Contudo, é irrealista pensar que eles irão ultrapassar países como Alemanha e Brasil”, conta.

Imaginar que é possível transformar um país que passa longe da Copa em uma potência capaz de ganhá-la em um prazo de 30 anos parece, de fato, irreal. As potências também estão investindo, ainda que de formas diferentes. Só o dinheiro não é capaz de mudar uma cultura. São muitos anos para isso. E é uma história que vemos constantemente. As ligas mais ricas do mundo não necessariamente farão com que seus países sejam os melhores do mundo. Ainda mais quando a distância é enorme.