O crescimento do Slavia Praga nas últimas temporadas possui explicações que não se restringem ao mero campo esportivo. O clube tcheco se beneficiou de acordos comerciais entre seu país e o governo chinês, que facilitaram a chegada de novos donos. Desde 2015, os alvirrubros passaram pelas mãos de três companhias chinesas diferentes. O atual mandatário é o Sinobo Group, que possui negócios sobretudo no setor imobiliário e também é acionista majoritário do Beijing Guoan. Com dinheiro em caixa, o Slavia montou times competitivos e registrou ótimas campanhas, inclusive nas copas europeias. Todavia, a saúde financeira da agremiação está em risco, e tudo por um conflito entre políticos chineses e tchecos.

Atual presidente da República Tcheca, Milos Zeman encabeçou a aproximação com a China a partir de 2013. Ao longo dos últimos anos, o estadista tcheco realizou cinco viagens ao país asiático, enquanto Xi Jinping se tornou o primeiro presidente chinês a visitar Praga. O ponto alto das relações aconteceu em 2016, quando as duas nações assinaram um tratado para aumentar o comércio e o turismo.

Todavia, promessas dos chineses que não foram cumpridas vinham irritando políticos tchecos. O estopim da crise aconteceu no último mês de outubro, quando as prefeituras de Praga e Pequim romperam uma parceria entre as cidades. Prefeito da capital tcheca, Zdenek Hrib refutou uma cláusula do acordo com Pequim, na qual a prefeitura concordava publicamente com o posicionamento do governo chinês sobre a soberania de territórios em disputa. A ele, era um assunto ao Ministério das Relações Exteriores, não à prefeitura. Para complicar, Hrib ainda convidou delegações de Tibete e Taiwan para visitarem Praga. Como resposta, o governo chinês cancelou contratos com empresas de Praga e rompeu cooperações. Até mesmo uma turnê de músicos da Filarmônica de Praga pela China terminou abortada.

O presidente Zeman também tornou pública sua insatisfação com a postura da China – numa relação estremecida muito por causa da CEFC, companhia elétrica que prometia injetar bilhões na República Tcheca e se tornou dona do Slavia em 2015, mas terminou envolvida em um caso de corrupção. “A China reage através de retaliações. Algumas companhias aéreas que voavam para Praga agora serão redirecionadas para a Croácia. Mas, mais importante, o financiamento do Slavia deve ser brecado. Como vocês sabem, o Slavia é o investimento chinês mais bem sucedido no país”, declarou. As ameaças, todavia, não se concretizaram até o momento.

O Slavia Praga continuou sob a tutela do Sinobo Group, que inclusive dá seu nome ao estádio do clube. Os alvirrubros caíram na fase de grupos da Champions League, mas fizeram um excelente papel ao dar trabalho às potências da chave – que também contava com Barcelona, Borussia Dortmund e Internazionale. Já os dirigentes alvirrubros criticaram a postura da prefeitura de Praga. Presidente do clube, Jaroslav Tvrdik faz parte da Câmara de Cooperação Tcheco-Chinesa e é conselheiro do presidente Milos Zeman, o que facilitou a chegada dos investimentos chineses ao time. Seu papel no jogo político, em contrapartida, deixa a posição da agremiação em xeque.

O prefeito Zdenek Hrib continuou desagradando a China, afinal. O governante de Praga se recusou a expulsar um diplomata taiwanês de uma conferência na cidade, a pedido de um representante chinês também presente, e ousou hastear a bandeira do Tibete em sua prefeitura. Hrib faz parte do Partido Pirata, uma representação de centro-esquerda que defende o liberalismo social e a democracia participativa. Em dezembro, ele publicou uma carta no Washington Post explicitando o seu posicionamento e desafiando o poder chinês.

“Desde que fui eleito prefeito, em 2018, trabalhei para cumprir uma promessa aos eleitores. Prometi durante a campanha que retornaria às nossas sagradas tradições pós-comunistas de honrar a democracia e os direitos humanos. Cumprindo essa promessa, eu e meu governo provocamos a ira do Partido Comunista Chinês”, justificou Hrib. “A China é um parceiro comercial que não hesita em sacrificar acordos lucrativos se a necessidade política apontar o contrário. O Politburo chinês pode transformar grandes contratos ou cooperações em nada, em questão de segundos. […] Os chineses não sabem distinguir o prefeito de um músico”.

Já os problemas mais recentes aconteceram nesta semana, depois que a prefeitura Praga assinou um acordo com Taipé, a capital de Taiwan, em moldes parecidos com a parceria rompida com Pequim. Obviamente, o ato provocou a fúria dos chineses. Em reação, a prefeitura de Xangai encerrou contratos com Praga. Ao mesmo tempo, o presidente Milos Zeman fez críticas públicas sobre promessas de investimentos chineses que não se materializaram e declarou que não irá a um encontro previamente marcado na China para abril.

O Slavia Praga fica bem no meio deste jogo cruzado. O maior temor com a saída do Sinobo Group se concentra sobre a situação financeira do clube. Os alvirrubros se aproximaram de um sério risco de falência em 2015, antes da chegada dos investimentos chineses, e temem que o rompimento abrupto provoque um cenário catastrófico. Por mais que o Sinobo seja uma companhia privada, os laços com o poder na China são inescapáveis e deixam o clube tcheco desprotegido em meio à crise.

A linha é bastante tênue para o Slavia, a se considerar outras retaliações recentes envolvendo o esporte. Mesut Özil foi retirado até mesmo de jogos de videogame na China, após questionar o tratamento dado pelos chineses à população uigur no país, enquanto o Houston Rockets perdeu acordos comerciais depois que seu gerente geral publicou um tuíte defendendo a liberdade de Hong Kong. Ao mesmo tempo em que a China usa esporte para reafirmar sua influência, o governo não se furta a repreender quem resolve entrar em seu caminho nas discussões.

O Slavia Praga se alavancou nesta metade final da década. O título do Campeonato Tcheco em 2016/17 encerrou um jejum de nove anos sem a taça. O clube voltaria a ser campeão nacional em 2018/19, quando também alcançou as quartas de final da Liga Europa, depois de eliminar o Sevilla. Já na atual temporada, além da honrosa participação no grupo da morte da Champions, os alvirrubros lideram o Campeonato Tcheco com 16 pontos de vantagem. Uma hegemonia que pode não durar por tanto tempo.