Chilavert, 50 anos: lenda pelos gols que fez, mas também um dos melhores goleiros dos anos 1990

Ídolo histórico dos timaços de Vélez e Paraguai, o goleiro completa 50 anos nesta segunda

Assistir a um jogo do Vélez Sarsfield ou do Paraguai na década de 1990 era uma experiência particular. Se você não simpatizasse com o adversário, torcia por uma falta na entrada da área. Em tempos nos quais parecia loucura (limitada em raríssimas vezes ao lunático Renê Higuita) um goleiro ir de uma meta à outra só para cobrar uma falta, José Luis Chilavert tornou a aventura um costume em seus jogos. E muitas vezes a garantia de um golaço. O camisa 1 fez sua fama pela maestria nas bolas paradas, encerrando a carreira com 62 gols anotados, um recorde até então. Só que El Bulldog ia muito além de seus gols. Sob as traves, também pegava demais. Marcou-se em duas equipes históricas, para ser lembrado como um dos melhores do mundo na década de 1990. Lenda no Paraguai e em Liniers, que completa 50 anos nesta segunda.

VEJA TAMBÉM: Adriano nunca fez uma grande Copa, mas o gol contra a Argentina em 2004 o eternizou na Seleção

Chilavert começou cedo, e já causando impacto. Aos 15 anos, apareceu pela primeira vez na meta do Sportivo Luqueño, de sua cidade natal. Ganhou sequência pouco depois e teve breve passagem pelo Guaraní, da capital, quando já estava claro que alçaria voos mais altos. Chegou a contar com uma proposta do Atlético de Madrid, que na época contava com Ubaldo Fillol, antes de seguir para a Argentina. Em Boedo, se fez um dos grandes ídolos do San Lorenzo na década de 1980, com direito a um vice-campeonato nacional. Poderia ter ido ao River Plate, em uma troca com o Goycochea, que nunca deu certo. Quis o destino que passasse três temporadas na Espanha, em campanhas não muito empolgantes pelo Zaragoza. Um desvio de caminho até chegar ao Vélez em 1991.

Em Liniers, Chilavert se tornou uma referência. O goleiro assumiu o protagonismo no time de Carlos Bianchi, que passou a brilhar como nunca no futebol nacional. Durante os anos com o paraguaio, El Fortín tornou-se um gigante. Em 1993, encerrou o jejum de 25 anos sem conquistar o Campeonato Argentino, apenas o segundo em toda sua história. O que deu a vaga na Libertadores de 1994, onde o Vélez deu um passo além. Chilavert fechou o gol e teve papel fundamental na campanha, que deixou para trás Palmeiras, Cruzeiro, Boca Juniors e Atlético Júnior. Até, nos pênaltis, com o camisa 1 pegando a cobrança de Palhinha, os portenhos superarem o bicampeão São Paulo na final. E ainda desbancarem o Milan no Japão, na vitória por 2 a 0 no Mundial Interclubes.

Paraguayan goalkeeper Jose Luis Chilavert running jubilant after marking his goal during qualifying match for France 98 play in Buenos Aires Sunday Sept.1,1996. Argentina and paraguay tied 1-1.(AP Photo/Daniel Muzio)

Chilavert seguiu sua sequência de conquistas em 1995, com o Apertura. Mas, até então, apenas como o ótimo goleiro de um bom time, e não como um exímio cobrador de bolas paradas. Já tinha feito cinco gols em toda a carreira, quatro deles de pênalti. Mas só assumiu a função de vez em 1996. Para tornar-se, também, uma arma ofensiva primordial do Fortín. Naquele ano, foram nove tentos pelo clube, ajudando nas conquistas do Clausura e da Supercopa Sul-Americana. Entre eles, um chutaço do meio da rua contra o River Plate de Burgos e dois na goleada por 5 a 1 sobre o Boca Juniors de Navarro Montoya. Vivia o ápice de sua carreira, coroado também o melhor jogador do futebol argentino naquele ano. Já em 1997, ano em que faturou a Recopa Sul-Americana, chegou a comemorar 15 gols.

VEJA TAMBÉM: Há 25 anos, Zetti estreava pelo São Paulo para colecionar grandes atuações embaixo das traves

Já com a seleção, Chilavert ajudava a elevar o Paraguai a um protagonismo que não sentia por anos. Embora já tivesse participado de duas Eliminatórias da Copa do Mundo, anotando um gol de pênalti em cada, foi na preparação ao Mundial da França que o Bulldog assumiu a posição de ver. Era a referência de uma linha de defesa fabulosa: Arce, Gamarra, Ayala e Sanabria. Um time que tomava poucos gols, e ainda contava com o camisa 1 para marcá-los. Assim fez dentro do Monumental de Núñez lotado, perseguido pela torcida argentina, para garantir o valioso empate por 1 a 1. A albirroja fez a segunda melhor campanha nas Eliminatórias, só um ponto atrás da Argentina. Para voltar à Copa após 12 anos.

Na França, a expectativa pelo gol de Chilavert se tornou enorme. Poderia ser o primeiro goleiro a marcar em um Mundial. E até teve a chance na fase de grupos, contra a Bulgária. O tento não veio, mas mais importante foi a classificação no temido grupo da morte, sofrendo apenas um gol em jogos duríssimos contra nigerianos, búlgaros e espanhóis. Só que, infelicidade pelo segundo lugar, o Paraguai se cruzou com a seleção francesa nas oitavas. E, mesmo com Gamarra lesionado, a defesa fez seu papel por 114 minutos, quando Laurent Blanc aproveitou a única brecha para anotar o gol de ouro. Os paraguaios caíram de pé, enquanto Chilavert acabou apontado como o segundo melhor goleiro do torneio – embora o melhor do ano.

Também em 1998, Chilavert completou sua saga de títulos com o Vélez ao levantar a taça do Campeonato Argentino pela quarta vez em cinco anos. E, no ano seguinte, quando chegou a anotar uma tripleta nos 6 a 1 sobre o arquirrival Ferro Carril, a Conmebol o escalaria no time ideal da América pelo sexto ano seguido, figurinha carimbada na premiação desde 1994. Naquele momento, porém, o homem passava a ganhar mais as manchetes do que o goleiro. Ao longo da carreira, o Bulldog sempre foi um cara de poucos amigos. Falastrão e agressivo, colecionou desafetos. E passou a ganhar mais destaque pelas muitas polêmicas e pelos gols do que pelas grandes defesas.

Em declínio no Vélez, transferiu-se ao Strasbourg em 2001. O mau momento também se refletia na seleção paraguaia e, mesmo passando pelas Eliminatórias, ajudou a afundar o time na fraquíssima campanha na Copa de 2002. Sequer conseguiu marcar o esperado gol em Mundiais, parando no travessão contra a Eslovênia. Ao mesmo tempo, Chilavert se estranhava com o governo, com os jornalistas, com companheiros. Cuspiu no rosto de Roberto Carlos, acusando-o de racismo, em uma atitude ainda assim injustificável. E, caindo no ostracismo, ainda teve passagens apagadas pelo Peñarol e novamente pelo Vélez antes de pendurar as luvas.

Aposentado, Chilavert se tornou mais uma caricatura de suas próprias declarações. Preferiu sustentar a arrogância, como ao comentar o feito de Rogério Ceni, que o superou nos gols – seja o total ou as cobranças de falta. O passado do goleiraço, ao menos, nada apagará. Seu pioneirismo nas bolas paradas ficou, e segue inigualável por seleções nacionais. Assim como as grandes defesas que o fizeram ser eleito em três anos o melhor camisa 1 do mundo. Fale o que falar, o homem nunca diminuirá o que fez como ídolo.

Abaixo, dois vídeos para dimensionar Chilavert: um com 10 grandes defesas (detalhe para a primeira, justo nos 5 a 1 sobre o Boca em 1996) e outro com seus oito tentos pela seleção: