Quando se falar sobre o ciclo vitorioso da Juventus nesta década, é compulsório citar o nome de Giorgio Chiellini. As qualidades do italiano como defensor são evidentes, e referendam a carreira longa em alto nível. Mas o que o camisa 3 oferece à Velha Senhora vai além. É força. É liderança. É o espírito vencedor que realmente faz a diferença aos bianconeri, e que tanto se evidenciou na virada sobre o Tottenham nesta quarta. Os italianos estavam sendo acuados em Wembley, até buscarem a reação. Até se agigantarem, também na voz e na dedicação de Chiellini, para assegurar a classificação às quartas de final da Liga dos Campeões. Partidaça do zagueiro, idolatrado em Turim com todos os motivos.

Cabe ponderar, no entanto, que esta não vinha sendo uma noite fácil para Chiellini. O primeiro tempo do zagueiro foi duro, assim como para todo o time da Juventus. A missão de não dar brechas a Harry Kane era delicada, sobretudo considerando a fase imparável do centroavante inglês. Um adversário que combina força física, mobilidade e um poder letal do qual não se pode descuidar nunca. O camisa 3 venceu algumas batalhas, mas ia perdendo a guerra, com a desvantagem no placar. Tinha trabalho para acompanhar o camisa 9, especialmente quando este tinha espaço, no jogo veloz do Tottenham. E como o restante do sistema defensivo, ficou vendido quando Heung-Min Son abriu o placar, sem bloquear o sul-coreano.

A Juventus se acertou um pouco mais nos primeiros minutos do segundo tempo, menos exposta contra um oponente menos voraz. Mas viu o jogo mudar a partir das alterações de Massimiliano Allegri – que, embora tenha se focado mais em corrigir os erros, ajudou pela liberdade a Paulo Dybala e pelo apoio nas laterais. E neste momento de transformação, Chiellini teve sua singela contribuição. Fazia um trabalho seguro na saída de bola. Em um passe esticado a Gonzalo Higuaín, contou com o pivô excepcional do centroavante e viu Dybala virar para a Velha Senhora. Então, o zagueiro tomou o protagonismo para si.

A pressão do Tottenham em busca do empate era gigante. A Juventus se fechava ao redor de sua área. E, no coração desta, Chiellini era o verdadeiro imperador. Parecia disposto a não deixar nada passar. Foi crucial especialmente em uma bola cruzada da esquerda, que Kane estava pronto a escorar na pequena área. O camisa 3 apareceu no momento preciso para cortar. Comemorou demais, em gritos alucinados com Buffon. Era impossível não se contagiar com a fome daqueles dois. Assim, a Juve segurou o placar.

Chiellini estava à caça de Kane, procurando o embate com o artilheiro, que pouco fez nos minutos finais. O zagueiro estava quase sempre um passo à frente das ações do centroavante. Teve o seu deslize, na cabeçada do inglês que bateu na trave, salva em cima da linha por Andrea Barzagli. Nada que diminuísse sua exibição. Já ao final, mais um pouco da vontade do italiano, comemorando uma defesa segura de Buffon aos “socos de amor” com a lenda. A postura aguerrida de ambos é imprescindível ao sucesso dos bianconeri.

Em números, Chiellini teve uma noite monstruosa em Wembley. Quatro desarmes, dois passes interceptados, quatro bloqueios, incríveis 13 bolas rifadas – seis delas nos 15 minutos finais, quando o Tottenham partia ao tudo ou nada. Nem tudo, porém, pode ser traduzido por estatísticas. E quem viu o jogo nesta quarta, especialmente a partir da reação da Juventus, sabe que a maior virtude do camisa 3 não se quantifica. Uma atuação enorme para, mais uma vez, ressaltar suas capacidades. De certa forma, também para homenagear o amigo Davide Astori – a quem foi dedicado um minuto de silêncio no estádio, durante os quais o veterano visivelmente era um dos mais emocionados. E para se exaltar a escola de zagueiros italianos, aquela muitas vezes defendida publicamente por Chiellini, e na qual já cavou o seu lugar entre os grandes.