Cherno Samba é uma verdadeira lenda aos fãs mais antigos de Championship Manager. O atacante inglês era uma daquelas apostas certeiras do game: jovem e barato, desenvolvendo-se rapidamente e tornando-se um monstro. É difícil encontrar alguém que jogou o CM 2001/02 e não tenha contratado o projeto de craque. De fato, Samba existiu, considerado uma das mais brilhantes promessas do futebol na Inglaterra. Contudo, sua trajetória frustrada dentro de campo guarda uma história pessoal muito mais densa: o rapaz lutou contra a depressão, chegando ao extremo de tentar se suicidar. Por sorte, foi salvo a tempo.

“O futebol estava me enterrando vivo. Eu não queria estar aqui nunca mais. Meus pensamentos eram: ‘Não aguento mais isso. Quero dormir e esquecer de tudo. E nunca mais acordar’. Eu era uma dessas pessoas que diziam que a depressão nunca me atingiria. Mas você não sabe até que ela te pegue”, declarou Samba, em entrevista ao Guardian, na qual divulgava a sua autobiografia.

Nascido em Gâmbia, Samba mudou-se à periferia de Londres quando tinha seis anos. Cresceu na região de Peckham, em um lugar tomado pela violência. “Se não fosse o futebol, eu estaria preso ou morto agora. A cultura de gangues era muito ruim no sudeste de Londres”, apontou. Seu sucesso começou no futebol escolar. Aos 13 anos, anotou 132 gols por seu colégio, convocado à seleção inglesa estudantil pouco depois. Ingressou nas categorias de base do Millwall e era chamado às seleções inglesas de base, deixando até mesmo Wayne Rooney no banco de reservas do sub-17. Naquele momento, vários clubes cresciam os olhos sobre o fenômeno. Seu time de coração, o Manchester United era um dos interessados, mas quem deu um passo à frente foi o Liverpool.

Os Reds fizeram de tudo para convencer Samba. E o mais importante foi levar o jovem a um tour pelo centro de treinamentos em Merseyside. “Depois que visitei Melwood, estava no ônibus com meus colegas e meu celular tocou. Era Michael Owen. Tentei calar meus companheiros dizendo que era o Owen e eles acharam que eu estava brincando. Então coloquei no viva-voz. O ônibus inteiro ficou quieto. Ele disse que seria ótimo se eu fosse para o Liverpool. Não conseguia respirar quando desliguei. Eu me lembro de pensar: ‘Está acontecendo'”, apontou.

Foi quando seus problemas realmente começaram. Naquele momento, o adolescente foi fotografado com um agasalho do Liverpool. Os Reds fizeram uma proposta ao Millwall, mas os londrinos dificultaram o negócio. Avaliaram que a proposta de £2 milhões era baixa demais, enquanto muitos dentro do clube não gostaram da imagem do prodígio com a roupa vermelha. A transferência nunca se concretizou. “Não ir para o Liverpool acabou com meu mundo. Pensava que, se não pudesse realizar a transferência dos meus sonhos, não queria mais nada para fazer no futebol”, relembra a eterna promessa.

Os empresários de Samba travaram uma disputa com o Millwall que chegou aos tribunais da Football Association. Depois de algum tempo, entraram em acordo para que o atacante voltasse ao clube e, quando ele completou 17 anos, os londrinos ofereceram um contrato profissional de três anos. Porém, o ambiente já não era mais o mesmo. O adolescente sentiu que alguns treinadores e funcionários da agremiação queriam ferrá-lo, impondo a hierarquia. Além disso, a arrogância do prodígio não ajudou. Certa vez, ele se encontrou com Sol Campbell e ganhou uma bola autografada. Pegou a pelota, escreveu sua própria assinatura e devolveu ao defensor da seleção.

Sem nunca atuar pelo time principal do Millwall, Samba deixou Londres em 2004, aos 19 anos. Juntou-se ao Cádiz, na segunda divisão da Espanha. No novo país, a depressão e a solidão bateram de maneira mais forte. Sentia que decepcionou e não suportava as expectativas frustradas. Começou a roubar caixas de analgésicos na enfermaria do clube e, depois de quatro semanas, resolveu se entupir de remédios. A gota d’água, em busca do suicídio. O destino de Samba, entretanto, mudou graças a um companheiro que lhe dava carona todos os dias. Quando não encontrou o atacante no local de sempre e viu que ele não atendia o telefone, resolveu ir até o seu apartamento. Arrombou a porta e encontrou o jovem desmaiado no chão. Levou-o ao hospital e salvou sua vida.

“Depois que eu recuperei a consciência, percebi que tinha sorte em estar vivo. Foi quando eu disse: ‘Esse não sou eu. Tenho que sair dessa’. Senti que tinha falhado na Inglaterra e precisei fugir para a Espanha. O acordo com o Liverpool estava constantemente na minha cabeça. Foi um período sombrio da minha vida e ficar sozinho não ajudou. Tudo aumentou”, recorda Samba.

Samba seguiu em frente na carreira, passando por vários clubes pequenos. Defendeu o Málaga B, antes de voltar à Grã-Bretanha, defendendo Plymouth Argyle e Wrexham. Depois, rodou ainda por Finlândia, Grécia e Noruega. Apesar de ter passagens por todas as seleções de base da Inglaterra, do sub-16 ao sub-20, aceitou o convite de Gâmbia e disputou quatro partidas pela equipe nacional africana entre 2008 e 2010. Já em 2015, aos 30 anos, anunciou sua aposentadoria.

E, mesmo com tudo que acontecia, uma de suas válvulas de escape era justamente jogar o Championship Manager 2001/02, vivendo virtualmente o que não se concretizou na realidade: “Eu treinava o Manchester United, me contratava, marcava muitos gols e ganhava tudo. Isso soa um pouco estranho, mas eu era ótimo no jogo. Eu amo isso, é parte de mim. Meu potencial no CM rendeu várias histórias curiosas. Ouvi que Freddy Adu odeia isso e sente que o jogo o superestimou. Mas é apenas um game. Você precisa ter a sua própria mentalidade”.

Atualmente, Samba segue seu talento real no CM e investe na formação como treinador. Aos 33 anos, estuda para obter a licença A da Uefa, chegando a estagiar nas categorias de base do Tottenham. Além disso, lança a sua biografia, um desabafo e um acerto de contas consigo mesmo: “Eu senti muita raiva, ansiedade e mágoa. O livro me permitiu deixar isso para trás. Falei sobre minha overdose para amigos e familiares apenas no ano passado. As pessoas pensavam que eu estava bem. Não estava até o livro ser concluído”.