No minuto seguinte à conquista da Libertadores pelo Corinthians, escrevi aqui um post dizendo que a equipe brasileira teria pela frente o adversário mais fácil que poderia esperar ter. Os dois argumentos centrais eram que o time foi campeão europeu muito em função de Drogba; e que o time teria que se reconstruir depois do 6o lugar na Premier League, e dificilmente chegaria pronto a dezembro.

O ano começou e, mesmo entre os que mais acompanham o futebol inglês, teve muita gente caindo no conto do bom começo de ano dos Blues. O time, porém, continuava, como continua, tendo problemas sérios de elenco e de liderança. O que acabou culminando na demissão de Roberto di Matteo – o que pode ser bom ou ruim para o Corinthians.

Para começar, o elenco: embora tenha contratado dois jogadores com enorme potencial na pré-temporada, os Blues não atacaram o maior problema do elenco, problema que existe desde antes da chegada de Fernando Torres e que persistiu depois: a ausência de um goleador do nível de Drogba em seus melhores dias. Ontem, quando comentei sobre a importância do marfinense para o título dos Azuis, alguns me lembraram que ele teve temporada medíocre na Premier League, onde quem se destacou foi Frank Lampard. Bem, na Premier League, o Chelsea foi apenas o sexto colocado. Acabou o ano atrás do Newcastle.

O elenco dos londrinos tem mais meias excelentes do que um time de primeira pode sustentar – e sim, estou considerando, embora ainda queira esperar sua consolidação, que Oscar está nesta categoria. Por outro lado, é um elenco sem nenhum zagueiro fora de série, sem nenhum volante, dentro ou fora de série, e cujo único atacante de primeiro nível é Fernando Torres, jogador que desafia a sabedoria comum de que ninguém esquece como se joga futebol.

“Como assim nenhum zagueiro fora de série? Tem três!”, bradarão os torcedores. Se fosse um zagueiro de primeira linha, Gary Cahill não teria apodrecido no Bolton até os 27 anos. Quanto a David Luis, não discuto sua qualidade técnica, apenas sua adequação à posição. Zagueiro de primeira linha não falha. Não tenta sair jogando com classe quando o seguro é isolar a bola. Tem senso de posicionamento. E David não tem nenhuma dessas características. Pode, sem dúvida, vir a se tornar um grande zagueiro, mas, hoje, não é. Temos, por fim, John Terry, zagueiro que, em seu auge, foi excelente em todos os aspectos, mas que, hoje, é muito mais importante por sua liderança do que por sua qualidade – embora ainda seja um zagueiro melhor do que o zagueiro comum.

O problema de Terry, entretanto, está fora de campo, e não é só de Terry, mas de Cech e quem sabe de quantos mais. O Chelsea tem um dono que não respeita seu técnico. E se o dono não respeita o técnico, o jogador também não respeita. E time que não respeita o técnico pode ganhar algo aqui e algo ali, mas não se consolida.

Imaginar que Falcao Garcia resolverá o problema é, mais uma vez, esperar por milagres onde eles não podem acontecer. Primeiro porque o problema do time é estrutural, um atacante só não poderá resolvê-lo. Segundo que Garcia tem 26 anos, não é mais uma promessa, e está longe de oferecer a segurança de que fará um gol por jogo, como muitos acreditam que possa fazer. Quem quiser citar suas estatísticas, dê uma olhada nas de Oscar Cardozo, do Benfica. O paraguaio fez mais gols que Garcia em todos os anos de sua carreira, mas ninguém o coloca em qualquer lista de 5 melhores do mundo, certo? Talvez porque ele não detonou o Chelsea numa Supercopa cujo verdadeiro valor agora fica mais claro.

Para o Chelsea, a situação é catastrófica: o time precisa de mudanças profundas há tempos, seu dono não tem paciência para permiti-las – e o título europeu, nesse aspecto, só atrapalha – e tende, com o tempo, a perder interesse no brinquedo, que agora já lhe entregou o título que ele queria, e que vai começar a dar trabalho demais.

Vai ser fácil para o Corinthians? Claro que não. O Chelsea ainda tem um elenco milionário e um par de jogadores que podem decidir qualquer partida. Vai ser muito mais fácil, porém, do que pegar um time estruturado, com elenco mais diverso e consistência tática. O elenco do Chelsea de 2012 não é tão ruim quanto o Liverpool de 2005, mas, como time, provavelmente perderia um partida entre os dois. Sorte do Corinthians, que, se se preparar direito, tiver seus melhores jogadores em dia inspirado e contar também com um pouco da sorte que o São Paulo teve em 2005, pode, sim, pensar em voltar pra casa com o caneco.