Por mais que o Flamengo tenha uma equipe muito forte e funcionasse à perfeição com Jorge Jesus, era compreensível que Domènec Torrent encontrasse suas dificuldades na chegada à Gávea. Precisaria conhecer o time em uma semana, antes de iniciar o Brasileirão. O comandante, entretanto, realiza mudanças estruturais sensíveis, que afetam o funcionamento dos rubro-negros. E o resultado, ao menos neste início de campanha, não é nada animador. Se a derrota para o Atlético Mineiro tinha seus poréns e seus detalhes, apesar da ótima atuação do Galo, desta vez não dá para amenizar as críticas. O Fla foi a Goiânia e volta com uma enorme dor de cabeça, após a incontestável vitória por 3 a 0 do Atlético Goianiense, que fez uma exibição contundente.

Se a estreia de Torrent trouxe o Flamengo com sua escalação básica, desta vez as alterações foram gritantes. Poupado, Rafinha deu lugar a Rodrigo Caio na lateral, com Gustavo Henrique e Léo Pereira no miolo da zaga. Já na armação, Vitinho ganhava o espaço de De Arrascaeta e ocupava a ponta direita, com Éverton Ribeiro mais centralizado e Bruno Henrique pela esquerda. No primeiro jogo, ficou a impressão de que o espanhol não conhecia exatamente o melhor rendimento de seus jogadores – uma noção reforçada nesta quarta-feira. O treinador tenta acelerar mudanças que não parecem oportunas e o time paga por isso.

Há deméritos nas modificações do Flamengo, que errava demais na construção e deixava muitos buracos no campo. Mas também muitos méritos do Atlético Goianiense e do técnico Vágner Mancini. O Dragão foi montado para explorar as costas da defesa do Flamengo e ameaçou muito nos contra-ataques. A posse de bola poderia ser um pouco maior aos visitantes, mas logo as primeiras chances dos anfitriões surgiram. Diego Alves realizou grande defesa diante de Hyuri, com constantes subidas dos goianos pela esquerda – justo o lado modificado por Torrent. Numa delas, aos 15, Gustavo Ferrareis cruzou rasteiro e Hyuri não perdoou para abrir o placar.

O gol não foi um aviso para o Flamengo acordar. Pelo contrário, o desespero se tornou maior. Foram mais erros nos passes, mais desorganização, mais problemas no posicionamento. O Atlético Goianiense se deleitou. O time se defendia com solidez, formando duas linhas compactas, e avançava em velocidade. Ferrareis era o principal incômodo e criava boa parte das jogadas com suas subidas pela esquerda. Tirou tinta do travessão, depois de Everton Felipe deixar Rodrigo Caio no chão. Cada chegada gerava perigo e Diego Alves precisou realizar outra defesa importante aos 30, em cabeçada de Marlon Freitas. Logo na sequência, um tiro de Jorginho da entrada da área entrou no canto e aumentou a vantagem ao Dragão. Um belo recomeço ao meia, que teve COVID-19 e passou duas semanas isolado em sua casa.

A resposta do Flamengo viria no lance seguinte, na primeira finalização realmente boa do time. A zaga entregou o presente a Gabigol e o artilheiro perdoou, mandando ao lado da trave. Mas não dava para colocar a culpa apenas nele. Vitinho abusava dos vacilos, Gérson pouco aparecia, Éverton Ribeiro e Bruno Henrique estavam deslocados. Tanto é que os posicionamentos na trinca seriam modificados, para deixar Bruno Henrique mais ao centro e Éverton Ribeiro na direita. Só que isso não consertava a marcação e nem diminuía o ímpeto do Atlético. Ainda houve, antes do intervalo, um gol dos goianienses anulado por impedimento.

O Flamengo precisava de mudanças para o segundo tempo. Veio Rafinha no lugar de Gustavo Henrique, mas a aposta em Pedro na vaga de Vitinho igualmente não soava como a melhor escolha de Torrent. E o Atlético Goianiense não diminuiria o ritmo, com Marlon logo exigindo mais uma intervenção de Diego Alves. Os cariocas, ao menos, passaram a encaixar mais seus ataques e melhoraram. Quem também cresceu foi o goleiro Jean, que começou a se destacar a partir de uma defesaça à queima-roupa contra Gabigol.

Arrascaeta ingressaria no lugar de Everton Ribeiro aos 13 e, logo depois, Gabigol mandou em cima de Jean uma oportunidade que não costuma perder. A circulação mais veloz do Flamengo começava a exigir mais da marcação do Atlético Goianiense. Uma reação parecia ao alcance. Mas seria esfriada aos 15 minutos, graças a Gustavo Ferrareis. Foi um golaço do meia, que puxou o contra-ataque e mandou a bola na gaveta de Diego Alves, coroando sua atuação arrasadora. Outro problema do Fla é a falta de ritmo. As jogadas não fluem como antes e a precisão não anda das maiores, como já tinha se visto contra o Atlético Mineiro. Neste ponto, os gols perdidos também faziam falta – mas não para negar a superioridade do Dragão.

O Flamengo sentiu o terceiro gol e não tinha o mesmo ímpeto dos primeiros minutos da etapa complementar. Os cariocas buscavam Pedro na área, mas o Atlético mantinha a segurança e não permitia que os visitantes sequer descontassem. E como se a situação não fosse ruim o suficiente, Diego Alves foi expulso aos 39, por acertar Matheus Vargas em uma disputa com o jogo parado. Gabigol deu lugar ao reserva César. Por fim, ainda haveria um chute de Bruno Henrique, que terminaria de consagrar a noite de Jean.

O Atlético Goianiense estreia de maneira surpreendente, após folgar na primeira rodada por conta de seu jogo adiado com o Corinthians. Mostrou-se bem montado para ao menos assegurar a permanência. Já o Flamengo é o lanterna, único time ao lado do Coritiba a ter perdido os dois primeiros jogos. As derrotas vão para a conta dos gols perdidos, mas ainda mais às escolhas de Torrent. Quando o treinador prometia uma transição serena, a realidade é que as mudanças bruscas cobram seu preço.

Dá até para comparar esse resultado com os 3 a 0 do Bahia em 2019, que também gerou questionamentos sobre Jorge Jesus. Mas diferentemente de seu antecessor, Torrent já tinha uma equipe pronta em mãos. E o sarrafo mais alto também gera mais pressão. Até parece que o espanhol quer deixar sua impressão digital evidente no trabalho rapidamente. Os resultados, porém, mostram que ponderação e calma são necessários. O risco dessas trocas, mais do que ficar para trás no início da Série A, é criar um rompimento com parte dos atletas.