Depois do que aconteceu no Camp Nou, o saldo é até positivo. O Bayern de Munique esteve longe de passar uma humilhação maior contra o Barcelona. Amolecimento dos blaugranas no segundo tempo à parte, o Bayern foi mais time na Allianz Arena. Pressionou mais, se deu o direito de sonhar e até poderia colocar mesmo os espanhóis contra a parede, não fossem as defesas magistrais de Marc-André ter Stegen no primeiro tempo. Só que a ambição de mais uma Tríplice Coroa não se concretizará. E em uma temporada na qual só resta cumprir tabela, os bávaros já podem olhar o futuro.

Não dá para recriminar o trabalho de Pep Guardiola. Ele não superou os resultados de Jupp Heynckes, é claro, mas não dá para dizer que, apenas por isso, tem sido um desastre. Falta de concorrência à parte, o Bayern fez o que se esperava na Bundesliga, com mais dos títulos incontestáveis. O problema mesmo se deu na Champions. Ainda que Real Madrid e Barcelona fossem rivais duríssimos, não dava para cair da forma como os bávaros caíram, com derrotas acachapantes. Na nova eliminação nas semifinais, aliás, é que se coloca o ponto de partida para a próxima temporada.

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Por mais que a oposição a Guardiola aumente, dificilmente o técnico deixará a Baviera. Não é muito do feitio dos bávaros interromper o contrato do treinador, que segue em vigor por apenas mais um ano. O que não dá para esperar é que Guardiola não seja cobrado. Independente dos problemas do elenco ou da qualidade do Barcelona, o técnico errou em suas opções no Camp Nou. Dá para entender que, quando você contrata o espanhol, traz junto um pacote sobre filosofia de jogo. Mas futebol também é resultado. E o que faz as contas do Bayern engordarem, muito mais do que posse de bola, são taças. O pedido por um pouco mais de pragmatismo deve existir.

Já dentro do elenco, os reforços precisam ser mais pontuais do que gerais. Se o Bayern tem dinheiro para gastar, que vá às compras. E que resolva algumas das lacunas do elenco. O problema mais latente é na zaga. Mais do que um zagueiro de primeiro nível, os bávaros precisam de um que se encaixe no modelo de jogo de pressão alta. Portanto, um jogador veloz. Benatia até entraria nesta conta, mas as lesões atrapalharam que mantivesse o nível dos tempos de Roma. O que não dá é para depender apenas de Boateng e Dante, lentos demais para ficarem tão expostos. Não à toa, algumas das principais derrotas do clube na temporada vieram na conta da dupla, por mais que Boateng siga sendo um bom zagueiro.

No mais, o Bayern tem um timaço. O que precisa é ter todos sempre, já que as lesões de Robben, Ribéry e Alaba atrapalharam demais o clube. E a quebra de confiança com a comissão médica causou grandes cisões nos bastidores. Talvez o ponto aqui seja acrescentar talento. Craques de primeira linhagem que resolvam como Robben e Ribéry – cujo reserva imediato em teoria é Götze, que parece não gozar de tanta confiança. Não dá para depender de dois veteranos que, inegável a qualidade, não tem condições físicas tão boas mais.

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Além disso, também há uma questão de adaptabilidade. Falta no Bayern, por exemplo, um meio-campista de capacidade física e defensiva como Alaba, que jogou na posição durante boa parte da temporada. Esperar tanta proteção de “velhinhos” com Xabi Alonso e Lahm fica difícil. Enquanto isso, Schweinsteiger recebeu uma importância menor do que merecia na temporada, e a liderança apresentada nesta quarta mostra bem o que se esperar dele. Já no ataque, com a subida de produção de Lewandowski e a face múltipla de Thomas Müller são ótimos trunfos, mesmo sem reservas à altura.

A falta de concorrência na Bundesliga atrapalha um pouco. Com a queda do Borussia Dortmund, o Bayern perdeu o seu “parâmetro” para medir forças. Por mais que Wolfsburg, Borussia Mönchengladbach e Bayer Leverkusen sejam forças ascendentes, surpreendendo os bávaros na campanha, eles apresentam tipos diferentes de jogo. São rivais que esperam a hora certa do bote, mas não “olham no olho” do Bayern, jogando também no ataque e pressionando. Tipo de desafio que só acontece mesmo nas fases mais agudas da Champions. E que o Bayern não soube tratar, especialmente quando a iniciativa não era dele.

Sobretudo, o que o Bayern precisa é repensar a sua própria mentalidade. Não ficar tão preso a seus conceitos e saber se adaptar aos adversários. A forma como Guardiola tratou o trio de ataque do Barcelona custou caro e, não fosse Neuer, poderia ter sido muito pior no Camp Nou. Agora, os bávaros terão pela frente a pré-temporada para planejar, além de mais um ano para possivelmente repetir a semifinal da Champions e, aí sim, serem confrontados pelo grande objetivo no momento: reconquistar a Europa.