Será uma zona. Primeiro, de ônibus. Depois, de trio elétrico. O Corinthians percorrerá boa parte da Marginal Tietê e se dirigirá ao Centrão. Depois, vai do Centrão ao início da Zona Norte. Em todo o caminho, milhares de alvinegros estarão pelo caminho festejando o Mundial. São Paulo vai ficar um caos maior do que já é em dezembro e muita gente (inclusive você, leitor, se for paulistano) vai xingar. Não faça isso. É bom que tenha trânsito.

Tudo bem, agora você deve estar pensando em xingar a mim. Mas calma que eu explico. O brasileiro que gosta de futebol está acostumado em chamar alguém de “torcedor de sofá”. É o sujeito que só vê futebol na TV, não vai ao estádio porque tem preguiça, acha desconfortável ou não quer se misturar à gentalha. Dinheiro do ingresso não é desculpa, porque o torcedor de sofá não economiza em uma TV de 900 polegadas em alta definição e PPV.

Bem, o Brasil – e São Paulo em um grau particularmente maior – tem o cidadão de sofá. O sujeito que exerce sua cidadania sentado na frente do computador e mostrando sua ideologia ao espalhar imagens no Facebook e tentar colocar alguma hashtag pseudo-engajada no Twitter. Claro que isso raramente tem efeito prático. Nem deveria. Rede social é bom para mobilizar, mas é na rua que a sociedade tem de se manifestar (desde que sem vandalismo e destruição, óbvio).

A celebração dos corintianos é um exemplo disso, como seria no caso de conquista de Palmeiras, São Paulo, Santos, Portuguesa, Juventus ou Nacional. Um grupo de paulistanos está feliz, e tem o direito de ir à rua mostrar isso. É assim que a cidade vê a si própria, é assim que a cidade passa a ser cenário dos momentos importantes da vida de seus habitantes. Como eram nas comemorações de títulos na Avenida Paulista, como foi na chegada do São Paulo campeão mundial de 2005, como foi quando o carro da Red Bull correu pela Avenida 23 de Maio na semana de GP do Brasil de 2006, como foi na chegada do corpo de Ayrton Senna em 1994, como é nas ciclofaixas de todo domingo, como é nas famílias que vão aos parques da cidade, como é nas piscinas dos Sescs durante o verão, como é na Parada Gay, como é no Reveillon da Paulista, como é no tal “turismo natalino” que cresce a cada ano…

Ah, mas vai ter trânsito! Paciência. Faz parte. Um dia a mais de trânsito realmente é tão ruim assim, ainda mais em uma situação que já é conhecida e permite planejamento? Paulistano reclama de trânsito como se fosse o maior problema da cidade. Não é. O trânsito é irritante, mas não passa de desconforto do indivíduo em 90% dos casos. Problema mesmo é falta de saúde e educação públicas, falta de moradia e violência urbana.

Ah, mas trânsito faz as pessoas perderem tempo, gastarem combustível à toa e isso custa vários milhões de reais à economia de São Paulo. Hipocrisia. O dado é até real, mas ninguém reclama do trânsito pensando nisso. Todo mundo (eu me incluo) fica amaldiçoando o sujeito que demora para decidir se segue reto ou entra à direta, reclama do cara que dorme no ponto quando abre o semáforo, contesta os efeitos do rodízio. Ninguém pensa na economia.

Ah, mas tem gente que pode estar em emergência médica! Sim, isso é importante e as autoridades precisam assegurar que pessoas nessas condições possam chegar rapidamente a hospitais e clínicas. Mas isso não impede que as pessoas se manifestem legitimamente. E, convenhamos, salvo quem já ficou preso no trânsito em uma emergência médica, ninguém reclama da lentidão pensando em quem pode estar doente. Não sejamos hipócritas.

Por isso, segure sua reclamação e coloque o discurso bobo de “manter a ordem” de lado. Um dia de trânsito acima do normal é só desconforto seu. Os brasileiros, e o paulistano em particular, precisam se relacionar melhor com sua cidade. Manifestações populares são fundamentais para isso. Quanto mais forem realizadas, mais as pessoas conhecerão e se importarão com sua cidade. E mais condições terão para perceber os reais problemas dela e brigar por melhorias.