A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. A Trivela resolveu participar e convidamos as meninas do Dibradoras, companheiras que falam de futebol. Serão oito textos, um de cada integrante do site. Queremos que não seja uma ação isolada. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no redacao@trivela.com. Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas

Por Roberta Nina (@robertanina)*

Antes de entrar no assunto que de fato interessa – o futebol – preciso fazer um desabafo aqui: desde que me conheço por gente, com um pingo de discernimento, assumo que sempre desejei ser menino. Mas calma lá, amigas, eu vou explicar tudinho, antes que vocês desistam de mim na luta pela igualdade.

Eu desejava ser menino simplesmente pelas inúmeras vantagens que o sexo oposto possui. Eu pensava sempre nisso: por que não nasci homem como meu irmão? Eu queria ter a liberdade pra sair de casa sem muito “policiamento” em cima de mim, eu queria poder fazer xixi com facilidade quando estivesse apertada e andar sem camiseta por aí. Não queria me preocupar com menstruação, gravidez, ter modos pra sentar usando saia, moderar os beijos que eu dava por aí por conta da fama que pesaria sobre as minhas costas e todos os outros costumes que temos de seguir com relação ao corpo, cabelo, unha, maquiagem…

A gente sabe que, em certas esferas, ser homem facilita muito. No esporte isso é claro. Seja jogando ou trabalhando na área, o espaço para as mulheres é restrito, quase nulo. Quando ele, de fato existe, é colocado quase sempre em cheque. “Hum, será que ela joga bem mesmo?”. “Será que essa jornalista consegue escrever sobre futebol?”. “Como será que consegue tal informação?”. “E essa massagista, hein? O que será que ela faz de verdade dentro de um clube?”. “Treinadora? Duvido que manje de tática!”. A dúvida é recorrente e você precisa sempre (sim, sempre) provar que é competente, séria, joga bem, treina, estuda e etc.

Sobre o jogo propriamente dito, o que me deixa mais intrigada é saber que a terra intitulada de “país do futebol” renega suas atletas e não oferece a elas o mínimo de visibilidade e respeito. Esse país ignora inclusive a melhor atleta dos últimos tempos (entre homens e mulheres) como a Marta e não faz uso desse “case” para fortalecer o futebol feminino por aqui. É um absurdo observar uma Confederação que tanto dá ao futebol praticado por eles (dinheiro, espaço, status) e nada oferece a elas. É nojento observar como a mídia se porta na hora de falar sobre o futebol deles e sobre o delas, objetivando, desqualificando, taxando como algo ruim. Não dá mais pra ser assim!

Há mais de 100 anos o futebol feminino sobrevive. Por mais de 40 anos ele foi proibido, mas não morreu. Naquele tempo, quem o praticava era fora da lei, mulher-macho, subversiva. Hoje isso não existe mais na prática – apenas na teoria de pessoas pouco evoluídas – porque além de lutar por espaço e condições para praticar dignamente o esporte, as mulheres lutam contra o preconceito que ronda a modalidade. E é assim, em meio a dores, lutando, apanhando e respirando que elas resistem.

Voltando ao início, sobre aquele meu desejo de ter nascido homem, afirmo que essa vontade foi minguando aos poucos e declaro que morreu de vez há uns anos. A chegada dos 30 anos mexe um tanto com a gente, a ponto dos nossos hormônios ferverem de um jeito, aflorando de vez nosso gênero feminino e assumindo, de fato, seu posto. Já é uma realidade perceber que hoje em dia as mulheres podem ser exatamente tudo aquilo que quiserem, inclusive ser o mesmo que os homens são. Mas basta olhar nossa história na sociedade para perceber que nada veio fácil.

Já começa na idade da pedra, levando paulada na cabeça e sendo arrastada por um macho pra dentro da caverna. Aí depois vem a ideia de que nascemos para servir, fingir e aceitar caladas tudo que acontece em nosso dia a dia. Com muita luta conquistamos nossos direitos: o voto, a mini-saia, o biquíni, a pílula anticoncepcional, o aborto, o direito de trabalhar, ser mãe, hetero ou homo. Tá certo que ainda temos que berrar pra esses “dunhas” que não abrimos mão de nossos direitos já conquistados, em pleno 2015. Mas, é assim mesmo. Afinal, o que esperar de uma sociedade que, até na hora de falar mal de alguém, usa a figura da mãe como insulto? É puxado!

Tudo o que conquistamos veio com muita luta e muita dor, algo normal para quem está acostumada com cólicas menstruais aos 12 anos, para quem precisa parir, passar horas em cima de um salto alto, encher a cara com um reboco pra ficar mais bonita e etc. Mulheres, vocês podem escolher se querem ou não passar por certos incômodos, ok?! E isso ninguém pode tirar da gente: as nossas escolhas!

Agora que sou totalmente resolvida sobre meu gênero, valorizo cada uma das dores que sinto. São elas que nos tornam mulheres fortes, guerreiras e corajosas (mesmo chorando sozinha no banheiro). Se tem alguém que jamais poderá ter acesso a tudo que temos, esse alguém são os homens. Mesmo que sejam essas dores, pois elas são só nossas e eles jamais sentirão. Pode até parecer uma vantagem para o sexo masculino, mas na boa, não é. Prefiro a vida com dores e combates porque a vitória se torna mais plena e legítima.

A sociedade é machista e preconceituosa, sim, mas nós temos coragem. Podem vestir seus uniformes de guerra e seus sapatos (com salto ou travas) porque estamos entrando em campo para lutar pelo que é nosso, nem mais, nem menos, apenas pelo direito de igualdade.

Não vai ser fácil, assim como um parto. Vai ter dor, mas vai ser natural e com amor.

*Roberta Nina é jornalista, aquariana, são-paulina e sem noção. Pós-graduada em Gestão e MKT Esportivo, luta pela igualdade de gênero também no futebol.