Falta transparência à Fifa. Não adianta vir reclamar, Blatter, não somos nós que estamos dizendo. Quem disse foi Michael Garcia, chefe de investigação no Comitê de Ética da Fifa, responsável pelo relatório sobre a escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Sim, ele foi contratado para investigar possíveis irregularidades na escolha da Rússia e do Catar, respectivamente, e fez um relatório de 430 páginas. Ele quer que o relatório seja publicado integralmente, mas o documento está nas mãos de Hans-Joachim Eckert, que é chefe da câmara decisória do Comitê de Ética. Eckbert diz que só um sumário do relatório deve ser tornado público. Diversos dirigentes já se mostraram favoráveis à publicação, entre eles Michel Platini.

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“A investigação e o processo de decisão judicial opera na maioria das vezes sem ser visto e sem ser ouvido”, afirmou Garcia em um evento em Londres dirigido a advogados dos Estados Unidos. “Esse é o tipo de sistema que seria apropriado para uma agência de inteligência, mas não para um processo de conformidade ética em uma instituição internacional de esportes que serve ao público e é assunto de intensa crítica pública”, analisou ainda o ex-promotor do sul de Nova York.

Michael Garcia foi crítico em relação à liderança – uma crítica sutil a Joseph Blatter, que não parece muito disposto a manter uma política de transparência na entidade. “Um comitê de ética – mesmo que seja um comitê sério, independente e apoiado por um forte código de ética – não é a salvação”, afirmou Garcia. “O que é preciso é liderança: liderança que manda uma mensagem que as regras se aplicam a todos; liderança que quer entender e aprender com qualquer erro ou passos errados que o comitê de ética pode cometer e pode ter identificado; liderança que deixe claro a todos ‘É para isso que o comitê de ética foi feito, é por isso que ele faz e isso é o que eles fizeram’”, explicou o americano. “É o tipo de liderança que dá vida ao código de ética. Porque uma verdadeira reforma não vem de regras ou criando novas estruturas de comitês. Vem de mudar a cultura da organização”, declarou.

Ele cita os casos do Comitê Olímpico Internacional no escândalo de Salt Lake City, que mudou a forma de organização da entidade, e a forma como a NFL lidou mal com o caso de Ray Rice. “O valor da transparência é evidente nas experiências das outras entidades esportivas. Onde houve procedimentos transparentes e abertos, as organizações avançaram”, analisou.

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Um dos grandes problemas enfrentados por Garcia na sua investigação, que durou 18 meses, é que ele não podia obrigar pessoas que não fazem mais parte do futebol a colaborar com as investigações e apresentarem provas. Um dos casos, notoriamente, é do ex-presidente da Confederações Asiática de Futebol (AFC), Mohamed Bin Hammam, que foi banido por tentativa de comprar votos na eleição presidencial da Fifa em 2011 e figura importante do comitê organizador que levou a Copa do Mundo de 2022 ao Catar.

A Fifa parece ter cada vez mais um pepino em suas mãos. Ou aproveita para que esta seja uma oportunidade de dar mais credibilidade à entidade, publicando o relatório e punindo de acordo com as regras as pessoas envolvidas em condutas irregulares, ou se tornará cada vez mais criticada e menos confiável aos olhos do mundo. Esse é um problema que Joseph Blatter precisa lidar. Se não, a sua liderança continuará sendo questionada – assim como sua competência em fazer o futebol melhor.