A Football League, entidade responsável pela segunda, terceira e quarta divisões do futebol inglês, corre o risco de sofrer um rombo de £ 200 milhões por causa da paralisação pela pandemia de coronavírus e precisa de um recomeço, afirmou o seu presidente Rick Parry em depoimento ao comitê de Digital, Cultura, Mídia e Esporte da Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico.

Os clubes desses degraus da pirâmide inglesa estão mais vulneráveis aos efeitos da paralisação porque não partiram de uma posição muito saudável financeiramente, com um acumulado de £ 500 milhões de prejuízo apenas na Championship, segunda divisão, em 2018/19, e porque dependem mais das receitas de bilheteria, o que significa que mesmo um retorno com portões fechados, como outras ligas devem fazer, não seria de muita ajuda.

Quando anunciou que ofereceria um corte de 30% nos salários dos jogadores, os clubes da Premier League também prometeram £ 125 milhões de auxílio à Football League e à National League, entidade seguinte na pirâmide do futebol inglês, mas, segundo Parry, a cor desse dinheiro ainda não apareceu.

“Adoraria ver o dinheiro descendo para cá, mas ainda não vi evidências disso. A (posição da) Premier League é que, se permitirem que eles joguem novamente, poderemos conversar. As discussões até agora foram limitadas”, contou. “Precisamos de um pacote de resgate, mas também precisamos falar sobre o longo prazo. Os dois precisam andar de mãos dadas. Encaramos um rombo de £ 200 milhões ao fim de setembro e precisamos de um resgate, mas não podemos ficar pulando de resgate em resgate. Precisamos de um recomeço completo e olhar para a redistribuição das receitas”.

Um dos pontos que precisam mudar na opinião de Parry são os pagamentos “paraquedas” que a Premier League realiza para equipes que foram rebaixadas para a segunda divisão. O dinheiro, retirado dos contratos de TV, é diluído ao longo de três anos e ajuda a evitar que os clubes que caem entrem em falência enquanto tentam se adaptar à nova realidade financeira.

“Os pagamentos paraquedas são um mal que precisa ser erradicado. Temos seis clubes na Championship recebendo esses pagamentos. Cada um ganha £ 40 milhões. Outros 18 ganham £ 4,5 milhões. Então eles sofrem para acompanhar”, afirmou.  Além do paraquedas, há um dispositivo de solidariedade para mitigar esse desequilíbrio, mas em valor relativo muito pequeno. “Esse dinheiro é bem-vindo, mas acaba sendo muito pouco”, completou. “Eu não quero chamar de resgate. Quero chamar de reestruturação e reconsideração, mas está atrasado e é necessário”.

Um porta-voz da Premier Legue, segundo o Guardian, defendeu o paraquedas. “Esse dinheiro dá a clubes recém-promovidos confiança para investir em seus times para serem competitivos na Premier League. É também um mecanismo vital de apoio financeiro para clubes rebaixados que estão se ajustando a receitas muito menores com custos altos baseados em seus times. A Championship é uma liga altamente competitiva, com público, audiência e receitas que são invejas de outras segundas divisões ao redor do mundo”, afirmou.

“Não vemos evidências de que o paraquedas cause distorção no desempenho daquela divisão e são partes essenciais do ambiente competitivo. Também fornecemos pagamentos de solidariedade para todos os outros clubes da Football League, pagamentos sem paralelos em outras ligas do mundo”, acrescentou.

E como seria essa reestruturação? “Teto salarial e controle de custo são absolutamente essenciais e há muito debate sobre isso. Não estamos falando sobre um limite de salário. Não limitaríamos individualmente, mas no total que cada clube pode pagar. Estamos falando sobre limitar o orçamento”, disse.

A alternativa por completar a temporada sem torcida tem liderado as discussões nas grandes ligas porque os clubes precisam entregar às emissoras de televisão os jogos que prometeram para receber o valor completo dos contratos, mas na Football League essa receita não é tão importante assim, como relatou Parry.

“Se começarmos com portões fechados, seria equilibrado financeiramente. Quase neutro, mas muitos clubes teriam que pagar para jogar. Podemos perder receita de transmissão se não completarmos a temporada, mas, como nosso contrato não é nem próximo do da Premier League, é uma contribuição relativamente pequena”, explicou.

Ele também afirmou que espera que haja rebaixamento e acesso nesta temporada, senão “os advogados ficarão muito ricos”. Parece pré-requisito para a retomada da Premier League a utilização de campos neutros, o que não agradou os clubes com risco de rebaixamento. “Esperamos que três clubes da Championship subam à Premier League. A Premier League está ciente da nossa posição e espera três clubes rebaixados. Haveria um nível de revolta de muitos clubes da Championship e seria violação do acordo tríplice. A resposta mais segura é que poderia virar uma bagunça”, encerrou.

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