Conforme se encaminhavam para o Estádio de Wembley neste domingo (26), certamente muitos jovens torcedores do Charlton Athletic ouviram de seus pais a história da dramática vitória nos pênaltis dos Addicks sobre o Sunderland em 1998, no mesmo Wembley, que levou o clube de Charlton à Premier League da temporada seguinte. Quis o destino que 21 anos e um dia depois, as duas equipes se encontrassem novamente no local, desta vez brigando pela última vaga restante na Championship. Inspirados pelo time de Clive Mendonca, os comandados de Lee Bowyer protagonizaram uma decisão de playoffs mais uma vez dramática, com um gol salvador nos acréscimos do segundo tempo garantindo a virada por 2 a 1.

O início não poderia ter sido mais pitoresco. O Charlton tinha tranquilamente a posse em seu campo de defesa, quando Naby Sarr recuou a bola para o goleiro Dillon Phillips. Embora Bowyer tenha declarado antes do jogo que sua equipe não congelaria diante de um Wembley repleto de gente – mais de 75 mil torcedores estiveram presentes –, o arqueiro parece não ter recebido o memorando. Uma falha bizarra do goleirão, que errou o domínio, viu a bola entrar mansa para o fundo do gol: 1 a 0 para o Sunderland.

Se em 25 de maio de 1998 o encontro entre Addicks e Black Cats foi um festival de gols, com 3 a 3 no tempo normal, 4 a 4 na prorrogação e um 7 a 6 nos pênaltis para o Charlton, o duelo deste 26 de maio de 2019 foi bem mais modesto nos gols ou mesmo nas chances reais. O Charlton teve apenas duas finalizações a gol, enquanto o Sunderland somou três. Para a sorte do Charlton, dois chutes no alvo eram tudo de que o time precisava.

Relembre a decisão de 1998 que levou o Charlton à Premier League:

Aos 35 minutos do primeiro tempo, uma bonita troca de passes pela direita terminou nos pés de Lyle Taylor, que cruzou baixo para o outro lado da área, onde Ben Purrington apareceu livre para completar para as redes e empatar em 1 a 1.

Na volta do intervalo, Jason Pearce entrou no lugar de Naby Sarr, que foi para o banco torcendo para que o lance que protagonizara com Phillips não ajudasse a definir uma vitória do Sunderland. Bowyer mudou seu esquema de um 3-4-1-2 para uma linha de quatro defensores.

O segundo tempo foi um jogo de duas equipes parecendo mais determinadas a evitar a derrota do que a buscar a vitória. Nos dez minutos finais, os times pareciam bastante cansados, mas o drama ainda não estava completo.

No último lance do jogo, aos 49 do segundo tempo, o Charlton bateu rapidamente uma falta pela esquerda, e Josh Cullen cruzou para a segunda trave, encontrando Patrick Bauer. O zagueiro cabeceou, teve a finalização interceptada por Flanagan, mas pegou a sobra, insistiu e marcou o gol da virada para os Addicks, 2 a 1 no placar.

Não havia mais tempo para o Sunderland reagir. Como em 1998, o Charlton havia triunfado sobre os Black Cats no palco mais célebre do futebol inglês. Desta vez, sem a necessidade do drama dos pênaltis, mas ainda assim com sua dose de fantasia.

O Sunderland terá que amargar mais uma temporada na terceira divisão. A situação não é condizente com a estatura do clube, que vê seu grande rival Newcastle na Premier League e parece longe de voltar aos tempos de duelos parelhos no dérbi de Tyne-Wear.

Fora da elite desde 2007, o Charlton enfim terá na próxima temporada uma nova chance de retornar ao topo da pirâmide, tendo passado as três últimas campanhas na terceira divisão. Tem no técnico Lee Bowyer a mentalidade certa para enfrentar o desafio. O comandante, mesmo antes da decisão deste domingo, chamou para si a responsabilidade, estabelecendo qual deve ser a briga do clube: “O potencial aqui é enorme. Este clube deveria estar na Premier League. Temos tudo: o centro de treinamento, as instalações, tudo”.

Para tanto, o Charlton precisará administrar bem o equilíbrio entre o que acontece dentro de campo e fora dele. Dono do clube desde 2014, Roland Duchatelet criou uma cisão no clube com sua polêmica administração, incluindo sucessivas trocas de técnicos, e os protestos dos torcedores já vêm de anos, chegando a se traduzir em boicotes nas arquibancadas. Bowyer conduziu o time a um grande feito apesar de sua situação extracampo. Caso tenha seu contrato renovado (vínculo atualmente se encerra no próximo mês), manter a ascensão não será das mais simples tarefas.